sábado, 2 de fevereiro de 2019

In Memoriam


Para Doris, o maior Poeta do Centro

Nobre amigo que partiu desta modorra
In memoriam, eis os versos que bebemos
Da mesma vida amorfa, ambos descremos
Do mal que te levou talvez eu morra

Dos bardos marginais que conhecemos
Tu foste o mais fiel, levaste à forra
Fumais, bebeis, gozando toda porra
Na cara social de quem riremos

Cá sigo pelas ruas que cruzavas
A ir e vir em denso pensamento
Não sobra sombra ao chão, já nada presta

Eu paro pelos bares em que andavas
E logo vem algum contentamento
Beber em tua memória é o que nos resta

Ruínas


Arte por: Fabian Perez

Carrego nesta caixa vil e imunda
Um órgão que é mordaz ao que ainda vive
Sangrento em todo amor que um dia tive
De angústia outra vez ele se inunda

Do ópio bebe vário em seu declive
Sua dor engole ácida e fecunda
Mortífero, ama a nobre e a vagabunda
E bate a mil, demônio, sejais livre

Contudo, o mesmo tempo que ora fere
Caiando as crinas sem dar afeição
Ferino não será em toda a estrada

Após os temporais ele confere
Ao velho bardo uma nova paixão
E a musa do porvir será inventada

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Orgíaca

Imagem: Autor desconhecido/ Fonte: Pinterest.

Orgíaco labor que me consome
Deitar tantas palavras num soneto
Cumprir todas mentiras que prometo
Das putas que inventei saciar a fome

Famélicas letais, propõem quarteto
A tríade se despe e eu que as dome
Escravo do escrever que me consome
Afagos, felações, tudo eu cometo

Astuto, feito um bardo que dardeja
Maus versos que a todas, sim, convêm
Mas dizem só daquela que ele almeja

Maldito, não tem nome e nem vintém
Sua glória se resume a uma cerveja
Que paga ao escrever sobre um alguém

Vagabundo


Spending More Time by Ron Hicks

Tirei-lhe do papel, cumpri minha sina
De bardo sem descanso na labuta
Lhe fiz senhora e dama, lhe fiz puta
Nem toda obra um dia se termina

Me resta este poema pra permuta
Tu foste hábil, és mulher ladina
Teu riso tropical feito menina
Roubou-me o coração de forma bruta

Escrevo só lembranças inventadas
De bar em bar na rua sempre igual
Cafona mais e mais, sempre pior

No colo doutras putas pouco amadas
Confesso: eu não presto, teço o mal
Escrevo os versos com saliva e suor

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Penumbra

Arte por: Zenón Sansuste Zapata


Meu coração é dado ao erro
Que na penumbra tu maduras
Oh tua forma airosa e pura
Faz-me poeta antes do enterro

Cantar teu bojo, eis mia loucura
E eu me dedico com aferro
Rimo estes versos, sou um perro
abandonado à tua candura

Teu corpo fausto eu já não sinto
Resta escrever na sombra alheia
Ébrio de fumo e absinto

Se sou poeta de mão cheia
O tempo engana, às vezes minto
Mas a saudade é fato, creia!

Lésbia

Aos ópios de um luar tuberculoso
Vulva Studies by Liz Darling

Lésbia nervosa, flor protuberante
Ladroa as noites, faz de mim febril
Figura airosa, flamejante e vil
És meu tormento, lábio cintilante

Um céu palpável, renegou o anil
Quis ser punício, viva cor vibrante
Abriga laivos, dum modo pujante
Obriga qualquer rei a ser servil

Eu que não sou poeta do desterro
Similar vício, teimo em padecer
E sofro ébrio sob a mesma lua

Cróton selvagem me induziste ao erro
Não há broquéis que vedam de querer
Oh maldição carnívora esta tua!

Terminal

Cosmic Yoni by TheEtheric on Etsy

Olhei a poça como quem olha o fundo
dum coração cafona que somente sente
Amei a vida em prosa e doidamente
levando as culpas vou, Ser vagabundo

Escrevo o pior soneto: baldo, displicente
Sou pobre como as rimas, verso moribundo
Um cão abandonado, eu vago pelo mundo
e o lamento no peito é o que me faz vivente

Na gare mato tempo, enquanto a chuva acalma,
dá ósculos na rua. Eu matuto outra chance
de olhar as cores dela relendo a minha alma

Fumando meu cigarro, eis tudo ao meu alcance:
Sorver ácidas flores, com devoção e calma
Visões em profusão trarão outra nuance

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Archote


Illustration by John Alcorn (b. 1935), Gentlemen's Quarterly 

Olhei a moça como quem olha um risco
do archote que ilumina quando a chuva pende
e o gosto do primeiro lábio, feito amora, rende
os versos que são dedicados a esta dona em visco

A seiva doutros lábios sinto quando ela suspende
o corpo sobre o meu, astuta e bela flor de hibisco
e eu feito um animal devasso em fuga do aprisco
assim mastigo as folhas, lenta e perigosamente

A chuva cessa de cair, lançando o seu penhor
Mui tarde para cometer os crimes que eu espero
Mas cedo para entranhar o aroma desta flor

Meus versos já decaem na vala, sem nenhum esmero
Meus dedos apalpam sua carne, já não há pudor
E sinto já não ter mais volta, ó maldição te quero!

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Auparishtaka 9

Fonte da imagem: Pinterest

Palavra, bela flor e astuta, lúbrica senhora
Empurra minha cabeça e expele grave o seu gemido
Devoto ao mesocarpo e afeito, já estou perdido
Escravo dos crimes que invento antes de ir embora

Dos lábios tropicais um sumo escorre decidido
Encharca a minha boca ávida de aqui e agora
Eu chupo a doce polpa e sinto que a vida aflora
A cada vez que a língua rija acata o seu pedido

Não há pudor, razão, moral para quem sente o gosto
dos frutos que a estação laureia quem de afetos vive
Prazeres dos sentidos vastos que afloram fatais

Queria inda outra vez mirar aquele fruto exposto
Subir mais uma vez na árvore que um dia eu tive
E lá morrer de amores tolos que só são carnais!

Auparishtaka 6

Fonte da imagem: Pinterest

No balouço desvairado, hora tardia
Com volúpia, sem pudor nem testemunha
Com a mão fizera o crime que eu propunha
E a língua de prazer o membro enchia

Em voz baixa eu lhe botava toda alcunha
O meu verso depravado a puta lia
Meu poema em sua boca resistia
E às tentações do gozo se opunha

Não perdura a luta contra a natureza
Foi despejo do esporrar na boca rubra
Deu um urro o pobre bicho saciado

Vendo a lua na janela, ó vil beleza
No preço de tal loucura ela lucubra
E amanhã viajará do mesmo lado

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Vergel II


Arte por: Delphine Cauly (1981)

Musa e “Dona das divinas tetas”
Atiça em mim as horas de vigília
Noturna fuga ao seio da família
Fuga diurna ao coro dos caretas

Eu, sempre alucinado por bocetas
Hoje tenho uma por Musa, à revelia
Na parede do cenário onde relia
Os maus versos que fizera à sua greta

Não gozo, espero, pois ela delira
Só para olhá-la enquanto não atua
Momento raro, após ela se vira

Me olha, encena, e embora ainda nua
Já veste a máscara cênica que inspira
meus versos: doidos cães à luz da lua!

Vergel I

Arte por: Delphine Cauly (1981)

Vivaz poesia, arrepio d'um beijo insano
Aflora a carne, enrijece as doidas luas
Letargos pomos, vis auréolas, são duas
Furtam-me os versos dum poema leviano

Lúbrico dorso das palavras que tatuas
em tua derme, que com devoção profano
Dispo o pomar, oh musa do meu afano
Deitas na alcova, com afã te prostituas

Já vens molhada das palavras que enaltece
Deslize, orgia, tantas mais que são voragem
E da roupagem do vergel se desvanece

Desnuda inteira, tuas mãos na mia cor agem
Ruborizando o meu corpo que padece
Tiram do falo um rigor cruel, selvagem

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Flores

Arte por: autor desconhecido

A noite ali tateia com mil cores
Meu olho ela alucina, ó insensata
As formas das palavras que desata
Disformes, cultivam na mente flores

Vejais, aonde flores tu, sem data
de volta, só a viagem, seus vapores
Quimera do prazer, livre de amores
Orgíaco labor que o sonho acata

Acordo noutra esfera, simples, mente
Desfeita dos matizes que alucinam
Lisérgico labor de um pobre enfermo

Ouvia sobre o coro da serpente
Mas sonhos são cruéis, sempre terminam
E resta só a memória, ó lugar ermo

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Concertina II

Arte por: Mark Keller
  
Vem na noite erma a concertina
Vestindo de tango o meu lamento
Cobre o céu com seu manto cinzento
Se dissipa azul, tolhe a rotina

Nas tardes tristonhas é um alento
Fazer companhia é sua sina
Veste a vida em som, ária ferina
Ao bardo se torna um acalento 

Quero mais de ti, ó companheira 
Dos crimes que havemos cometido 
O que está por vir é o mais voraz

Sobre o meu jirau, despida inteira
Musa exposta, crime consentido
Ouvirei os sons do que lhe apraz

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Concertina


Arte por: Mark Keller

Tu que és dedilhada em palcos cheios
Afeita aos aplausos e holofotes
A dois bardos serve enquanto mote
Mas só um goza dos teus floreios

Pobre, ao outro resta como dote
Torpes versos que faz com enleio
Jaz sem melodia o devaneio
Foi só um arrepio no seu cangote

Nem a todo artista é que a sorte
sorri com malícia, faz vontades
Uns a têm,  outros inventam flores

Deste modo, confundindo a morte
Sabem disfarçar suas vaidades
Vão vivendo o véu dos vis vapores