sexta-feira, 13 de abril de 2018

Penumbra

Arte por: Zenón Sansuste Zapata

Meu coração é dado ao erro
Que na penumbra tu maduras
Oh tua forma airosa e pura
Faz-me poeta antes do enterro

Cantar teu bojo, eis mia loucura
E eu me dedico com aferro
Rimo estes versos, sou um perro
abandonado à tua candura

Teu corpo fausto eu já não sinto
Resta escrever na sombra alheia
Ébrio de fumo e absinto

Se sou poeta de mão cheia
O tempo engana, às vezes minto
Mas a saudade é fato, creia!

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Cachopa II



Te olho com volúpia, oh lua moça
Alteias sobre mim sem piedade
Olhando o céu percorro esta cidade
E o seu brilho reflete em cada poça

Eu que só sei do céu por veleidades
Ao chão me acostumei, oh vida insossa
Mas tu, oh lua nova, sempre ouça
Os cantos que componho por saudade

Já rimo o mal comum, não tenho escolha
Só resta-me escrever cismando à lua
De tinta cobrirei folha por folha

E quando alguém me ver louco na rua
Lembrai que fui poeta e não me acolha
Deixai-me desfrutar da dama nua

sábado, 27 de janeiro de 2018

Engodo

Arte por Jack Vettriano

Palavra, tu consomes meu juízo
Propões baços cenários, ledo engodo
Se queres minha pena, o membro todo
Dentro da tua vulva, dê-me um riso

Antes de abrir-se em flor, olhai o aviso:
Sou bardo sem razão, vivo no lodo
Só tenho este Bordel, nele que fodo
As putas que inventei porque preciso

Entendas bem, falo de teoria
De quem pelo escrever vive cismando
Só tenho esta labuta vã e vadia

Perdoas, mas não deito verso brando
Escrevo cru, não há demagogia
Minto que sou poeta e vou rimando

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Notícia

Jornal O CAPITAL - Ano XXVII - nº 282 - Jan. 2018 - Aracaju/SE

No canto inferior desta gazeta
Meu verso moribundo enfim descansa
Lá vai mais de uma década de andança
Ser bardo é viver sempre na sarjeta

Um mal que se carrega feito herança
Cuidar desta tarefa obsoleta
Mas hoje em companhia de um esteta
Vate dos mais cruéis, má vizinhança

Meu nome morre aqui, na folha erma
O dele sobrevém, sempre perdura
Artaud soube morrer, louco e fatal

Eu que mal sei viver, oh vida enferma
Repouso num caderno de cultura
Sem selo do governo e marginal

O Espelho

Pierre Bonnard, O espelho, óleo sobre tela

Adentra este bordel, dama venusta
Palavra se insinua ao meu versejo
Grafar tua letra nua é meu desejo
E o seu ambos veremos quanto custa

Só cobro a longo prazo, aguardo o ensejo
Sou bardo fracassado, oh vida injusta!
Ter zelo em demasia é senda angusta
Só passa quem domina o seu manejo

Um verso sobre outro vou tecendo
Tuas vestes vão caindo, uma a uma
Eu, débil, por delírio estou morrendo

Já avisto a silhueta em meio à bruma
O tempo me consome e vai crescendo
O falo com que escrevo se avoluma

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Falena

Arte por Jeremy Mann

Olhai, dama que atentas minha pena
Quereis ser musa deste vagabundo?
Sabeis não ter mais volta, oh ser profundo
Que vaga alta as noites e és falena

És bela e és fatal, crime fecundo
Estudo o teu pousar em meu poema
Tuas asas sobre mim, gravura plena
Voejam e me levam mais a fundo

Letargo de prazer, perpetro o crime
Penetro em tua flor, musa vadia
Também vago na noite, oh ser sublime

Quereis roubar de mim a poesia
Vês bem o que meu verso enfim exprime:
Te ver despida inteira, oh fantasia! 

sábado, 20 de janeiro de 2018

Infausto

Para Humberto Paixão, tão afeito aos infortúnios.

Pior que eu, poeta és tu, e perduras
Atento às palavras sem reserva
Gostas de cachaça e boa erva
Fazes teus poemas sem mesura

Tu, Humberto, é vil, nem me preservas
Rouba-me as palavras já maduras
E elas, que aleivosas criaturas!
Deitam-se à tua pena, feito servas

Pobre e infausto andejo, ainda és ladrão
A ti, canalha, os diabos salvarão
Só por ter no verso o apogeu

Fazes do infortúnio teu ofício
Somos servos deste mesmo vício
Mas tu és mais poeta do que eu

Maldito

por Humberto Paixão

Poeta dos piores, não menos o seu abismo
Trabalha embebido em cachaça
Na letargia ingrata da trapaça
Das palavras operando seu cinismo

O cigarro aceso e sobre a mesa
Seu poema que arde de vingança
Sobre o maléfico labor sem esperança
Para ter em casa uma luz acesa

De noite um criador de mundos
Como os gatos, nobres vagabundos
Na chuva fria da madrugada


Toma no cio o palco dos menestréis
De dia o delírio em pilhas de papéis
À noite os versos da carne maltratada

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

A Mestra


Airosa, a dama bela e já madura
Ensina-me o que a vida lhe fez mestra
Em muitas posições ela me adestra
Devoto-me aos preceitos com fervura

Discípulo leal da amásia destra
Do livro cárneo e vil fiz releitura
À sua vulva em flor faço mesura
A mim é do parnaso uma fenestra

Seu pomo já maduro ainda mata
Minha sede de mamífero enjeitado
Nas noites de torpor busco acalento

Por horas sem descanso me maltrata
E faz de mim seu pajem, seu criado
Escrevo-a sem ter consentimento

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Virginal


Arte por Yuri Krotov

Airosa, a bela dama inda mui jovem
Deixou-se desnudar pro meu encanto
Mirei seu torso níveo e sacrossanto
Um Éden sem Adão, que os anjos provem!

Piedosos, despojados de seu manto
Seus braços feito bênçãos me envolvem
Ungidos nossos corpos se revolvem
Lançando ao meu vigor logo um quebranto

Seu pomo, ainda verde e vicejante
Palpita sob o órgão exaurido
Neófito ao prazer, sumo do mundo

Gemeu consoante o seu fiel amante
Vogais abertas, gozo consentido
Agora é musa vil de um vagabundo

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Cachopa

Arte por Robert Luciano

Me olhas com a ternura jovial
De quem propõe infernos proibidos
Sabeis dos meus desejos incontidos
Cachopa, o teu olhar é desleal

Bem sabes, sou um bardo pervertido
Procuro na palavra a carne, o mal
O corpo é minha esfera laboral
Um livro cárneo e vil, mui vezes lido

A relva encobre o talhe que me tenta
Dardeja a luz do averno sob o céu
Teu lábio, sensual polpa magenta

Cachopa, de tua vulva escorre o mel
Tisana que me cura e acalenta
Os crimes que herdei sem ser cruel

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Cabrocha

Arte por Ralph Burke Tyree

Eu, devoto atroz de sua nudeza
Ser doentio que em chamas arde
À boceta, vou tecendo, sem alarde
Um poema só afeito à natureza

Versos ímpios, carregados de rudeza
Jus não fazem à flor bela que se abre
Oh cabrocha, o teu inferno que me guarde
Dos delírios que disponho sobre a mesa

Se ao menos te mostrasses uma vez
Não riria o povo de minha loucura
Para eles és fruto da insensatez

Só a mim desvela-se, magia pura
Aproveita-te da minha embriaguez
Quando vou gozar enfim, cessa a leitura

A Maçã

Eve, por Anthony Christian

Há dias, sem piedade, o mal por vir
Despir o fausto talhe em meu soneto
Convence-me do inferno, ao que prometo
Libar sua natureza até ganir

Com a boca afeita ao mel me submeto
Os uivos da labuta assim cumprir
Não cesso até a dama se exaurir
E após, ela de quatro, a pica eu meto

Tentei em vão alguma polidez
Mas ela preza o falo com fervura
O membro rijo entrou com avidez

A dona perdurou em sua postura
Herdou o esporro vil com altivez
Senhora do esputar da verga dura

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Anonymus Szobor


Eu, feito um coveiro triste e só
Vagando a esmo pelas catacumbas
O mal cortejo e quiçá, sim, sucumba
Antes do tempo revolver-me ao pó

Fedo, hediondo, pareço um corumba
Que a estrada longa despejou sem dó
Inábil ser, não tenho nada em pró
De ser alguém, depois voltar à tumba

Um desgraçado que a palavra atenta
Só dela cuida, sem cuidar de si
Aos outros fere quando se arrebenta

Não fosse os versos para estar aqui
Nada traria à vida modorrenta
Nem sou poeta se ainda não morri

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Andejo



Dispõe no chão, o bardo, seus anseios 
Em meio aos pés que passam distraídos
A fome lhe distrai dos vis zunidos
Tecendo o burburinho rua ao meio

A margem: limiar ruidoso e vivo 
Se vive só o devir, não há receio 
O tempo há de remir, finjo que creio 
Mais fácil alguém pisar que ler um livro  

Dos fios um’ave quieta me contempla 
Bem sabe o quão liberto é andar sem rumo 
Seu canto mouco e ermo me acalenta  

No caos su’alma ausculta e dita o prumo 
Saber lidar co’a vida se é frienta 
Mergulho em meu soneto, o bebo e fumo 

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Chuva

Da observação citadina como método de espera:
Arte: Gerald Harvey Jones

Cai oblíqua feito afago na vidraça
Sob as calhas, deita e corre, decidida
Paira a urbe, qual semáforo da vida
Quem se atreve a escorrer onde ela passa?

Um e outro, impacientes, tomam prumo
Outros mais, desalinhados, inda esperam
E as conversas sobre ela proliferam
Tudo enquanto a zombeteira dita o rumo

Os que a guardam, coloridos, vêm surgindo
Vão compondo um só mosaico pela rua
Desavindo a pasmaceira dos telhados

A vida torna para enxutos e molhados
E ela vai cair adiante, linda e nua
Eu a guardo no poema e já vou indo

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Desventura

Mikael Kihlmanm, Walking in Tornala, drypoint, 10x8 cm, 1999.

Palavra, já não ris mais em meu colo
Nem andas a vagar por sujas ruas
Eu só, ando a cismar das causas tuas
Sou bardo, o mais piegas deste solo

Vagueio as madrugadas sob a lua
Te busco no etilismo, sou um tolo
Entre um e outro cigarro, meu consolo:
Lembrar-me a sua alvura inteira nua

Vês bem o que fizeste deste vate
Já rimo o mal comum, feito um mancebo
Mas eu não tenho glória nem quilate

Por meu verso funesto não recebo
Aplauso, prêmio, encômio ou disparate
Ninguém sabe de nós, só eu concebo

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Samba

Trecho do filme Fome (1966), baseado na novela homônima de Kunt Hamsun.

Vicente, ó desgraçado, quedai na mesma esquina
Sem palco, nem aplauso, seu verso é só desterro
Lhe oferto um gole amargo, faz conta dos seus erros
Mas não te vás, Vicente, o verso é tua sina

Te aprumas lá no morro, escreves com aferro
E quando vir ao centro, traz versos na surdina
Cá estou despindo o tempo – Há cousa mais sovina?
Poetas matam tempo, mas não se quer o enterro

No teu, rirei, Vicente; tua rija morbidez
O teu sorriso ao canto da boca emudecida
Caçoa a minha existência, por ter roubado a vez

Se morre e sê Poeta; Eu cá funesto em vida
Mas não bebo sozinho, partilho a embriaguez
Humberto me conforta da tua despedida!

Espera


A espera é um caso oblíquo, um débil
blues de esquina enluarada 
come a carne, desalmada 
bebe a alma e a torna flébil

A espera é um desatino, louco
faz da lira um crime impune
tem no bardo um fosco lume
desvelando um canto mouco

A espera é um cigarro, atroz
que a demora em brasa ateia
irreversível sobre nós

A espera tece a morte, alheia
Tu, palavra, és meu algoz
Eu – entregue – cedo à teia

Rizoma

Ao poeta Luis Estrela de Matos

Nobre companheiro de baldões
Quem nesta cidade nos percebe?
Não há tez burguesa, nem na plebe
Capaz de sentir-nos dos porões

Doutos subsolos tu concebes
Quando escreves versos sem grilhões
Eu, na forma, sei forjar prisões
Mas são cercas vivas como sebes

De modo distinto cada qual
Vai compondo a teia ensimesmada
Em redor do gosto habitual

Seja dia claro ou madrugada
Padecemos nós do mesmo mal
Este ofício é vário, tudo e nada!

sexta-feira, 7 de abril de 2017

A mosca II


Padeço de delírios à surdina
Que o meu verso morteiro e sujismundo
Não tem vigor, não passa de um resmungo
Há um coro dos contentes noutra esquina

Aqui só tem maldito e vira-mundo
Um velho bebe e cospe na calçada
Um moço conta moedas, tez suada
Labora, mas lhe chamam vagabundo

A mosca torna e pousa feito esfinge
Do meu copo propõe mais um enigma:
“Se farto é o que ladeia, qual a margem?”

Respondo “Oh nobre mosca, isso é bobagem”
Dou gole e lhe proponho ver o estigma:
“Quão denso é o nevoeiro sem caligem?” 

quinta-feira, 6 de abril de 2017

A mosca


Nobre amigo, cá estou na mesma esquina
Cuspo o tempo que encolheu sem dó ou piedade
Olhos rotos, incinera-me a cidade
No ofício de rimar cumpro minha sina

Cãs cabelos, guardiões da boemia
Tez disforme e o calejo ocupa o palmo
Parlas rasas, mansa tarde, dia calmo
São fantasmas que me fazem companhia

Peço outra e a mosca pousa no meu copo
Bicho escroto a caçoar de quem se ocupa
Doutra tarde que se esvai desocupada

Vida amorfa, brevidade sem escopo
Dela ou minha, me questiono qual mais curta
A mosca voa. Eu postulo outra gelada

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Angústia


Morena, o negrume é peculiar
Ao que do peito aira e trova flores
Conforme o prometido, minhas dores
Repletas de beleza sei levar

O tempo da partida já se fora
Mas sempre estamos indo a algum lugar
Me dizes que a existência é singular
Conheces meu desaire, tu és ledora

Ainda que o sorriso esboça fora
Cá dentro um bicho uiva a cruel sina
De quem no pensamento se arvora

Bem sabes, similar fera lupina
A angústia da existência me devora
Mas inda tem conhaque em minha esquina

Desdita

Por que tu negas tanto as diabruras
Que os meus apelos vis propõem cumprir?
Nos priva do regalo enfim sentir
Não vês que somos débeis criaturas

Adias sem piedade o mau porvir
Por que tu, nega? Há tantas criaturas
Elejo a bela dama por lisura
Mas ela sempre há de renuir

Eu quedo, sou mamífero enjeitado
O bar é meu tugúrio mais profundo
Só bebo com fantasmas do meu lado

Infausto ofício e mau, porém fecundo
Palavras vão erguendo o vão legado
Sou só, sou escritor, sou vagabundo

Filósofa


Ensaio um débil verso na calçada
Quisera a salvação, pus sobre a mesa
O corpo indecoroso de Teresa
Roguei-lhe iniciação, hetera amada

Conceda-me o clamor, dama safada
Descremos, ambos, da moral burguesa
No copo se dilui qualquer certeza
Nos resta a existência, o ser e o nada

Enfermo ser, por vozes combalido
Devoto dos teus ais, tudo que anseio
Morrer, pela tua vulva, engolido

Apraz-me o teu furor, nosso recreio
Deliro, pobre diabo, assim ferido
Sou ébrio, cismo à lua e devaneio

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Hábito


"meu sono, quando maduro, seria colhido com a volúpia religiosa com que se colhe um pomo" Lavora Arcaica.

 Arte: Malcolm T. Liepke

Amaino a febre em teu corpo-lavoura
Palavra é sina ruim que talha o peito
Retém no bojo arroubo insatisfeito
De sempre requerer vez duradoura

Pro alor dos seus gemidos que me deito
Refém da relva, luz da manjedoura
Se crio, há criação, forma vindoura
Por vezo de inventar que me deleito

Afano de estertores à surdina
Memória d’uma incestuosa gesta
Deu vida ao meu quintal, pomba-menina

Os olhos são candeia, o corpo é festa
Os sóis bailam no céu, luz fescenina
Atear fogo pro gozo é o que me resta