sexta-feira, 7 de abril de 2017

A mosca II


Padeço de delírios à surdina
Que o meu verso morteiro e sujismundo
Não tem vigor, não passa de um resmungo
Há um coro dos contentes noutra esquina

Aqui só tem maldito e vira-mundo
Um velho bebe e cospe na calçada
Um moço conta moedas, tez suada
Labora, mas lhe chamam vagabundo

A mosca torna e pousa feito esfinge
Do meu copo propõe mais um enigma:
“Se farto é o que ladeia, qual a margem?”

Respondo “Oh nobre mosca, isso é bobagem”
Dou gole e lhe proponho um paradigma:
“Se dizem marginais os que pior fingem.” 

quinta-feira, 6 de abril de 2017

A mosca


Nobre amigo, cá estou na mesma esquina
Cuspo o tempo que encolheu sem dó ou piedade
Olhos rotos, incinera-me a cidade
No ofício de rimar cumpro minha sina

Cãs cabelos, guardiões da boemia
Tez disforme e o calejo ocupa o palmo
Parlas rasas, mansa tarde, dia calmo
São fantasmas que me fazem companhia

Peço outra e a mosca pousa no meu copo
Bicho escroto a caçoar de quem se ocupa
Doutra tarde que se esvai desocupada

Vida amorfa, brevidade sem escopo
Dela ou minha, me questiono qual mais curta
A mosca voa. Eu postulo outra gelada

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Angústia


Morena, o negrume é peculiar
Ao que do peito aira e trova flores
Conforme o prometido, minhas dores
Repletas de beleza sei levar

O tempo da partida já se fora
Mas sempre estamos indo a algum lugar
Me dizes que a existência é singular
Conheces meu desaire, tu és ledora

Ainda que o sorriso esboça fora
Cá dentro um bicho uiva a cruel sina
De quem no pensamento se arvora

Bem sabes, similar fera lupina
A angústia da existência me devora
Mas inda tem conhaque em minha esquina

Desdita

Por que tu negas tanto as diabruras
Que os meus apelos vis propõem cumprir?
Nos priva do regalo enfim sentir
Não vês que somos débeis criaturas

Adias sem piedade o mau porvir
Por que tu, nega? Há tantas criaturas
Elejo a bela dama por lisura
Mas ela sempre há de renuir

Eu quedo, sou mamífero enjeitado
O bar é meu tugúrio mais profundo
Só bebo com fantasmas do meu lado

Infausto ofício e mau, porém fecundo
Palavras vão erguendo o vão legado
Sou só, sou escritor, sou vagabundo

Filósofa


Ensaio um débil verso na calçada
Quisera a salvação, pus sobre a mesa
O corpo indecoroso de Teresa
Roguei-lhe iniciação, hetera amada

Conceda-me o clamor, dama safada
Descremos, ambos, da moral burguesa
No copo se dilui qualquer certeza
Nos resta a existência, o ser e o nada

Enfermo ser, por vozes combalido
Devoto dos teus ais, tudo que anseio
Morrer, pela tua vulva, engolido

Apraz-me o teu furor, nosso recreio
Deliro, pobre diabo, assim ferido
Sou ébrio, cismo à lua e devaneio

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Hábito


"meu sono, quando maduro, seria colhido com a volúpia religiosa com que se colhe um pomo" Lavora Arcaica.

 Arte: Malcolm T. Liepke

Amaino a febre em teu corpo-lavoura
Palavra é sina ruim que talha o peito
Retém no bojo arroubo insatisfeito
De sempre requerer vez duradoura

Pro alor dos seus gemidos que me deito
Refém da relva, luz da manjedoura
Se crio, há criação, forma vindoura
Por vezo de inventar que me deleito

Afano de estertores à surdina
Memória d’uma incestuosa gesta
Deu vida ao meu quintal, pomba-menina

Os olhos são candeia, o corpo é festa
Os sóis bailam no céu, luz fescenina
Atear fogo pro gozo é o que me resta

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Madrugada

Arte: Gérard Schlosser

Desmedido ser, sonho anelado
Desvairada rosa, flor infame
Gozo em verso e prosa o teu forame
Sobre o teu furor ando cismado

Ávida e tenaz, propõe certame
E descerra vasta do meu lado
Cedo à perdição, tardo esfaimado
Cubro-lhe de tinta, o que é retame

Nas horas soturnas faz-se afável
Ladroas meu sono e minha memória
Face à alvorada irrevogável

Eis-nos dois gozados, dois sem glória
Díade infeliz, par miserável
Tu és desrazão, eu sou escória

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Vindima


Mádida saudade invoca o tato
E descerra a flor de vis intuitos
Eu cravejo o verso em seu pertuito
Ela evoca o gozo, encena o ato

Ai palavra antiga, ardil fortuito
Que me tentas no sentido lato
Nego à tua diabrura e sou cordato
Acedo ao poema, dissoluto

Eu no teu jardim semeei lavouras
Que a manhã se faz é de colheitas
Hoje lavro as putas, cumpro a meta

Outrossim, pousaram aves canoras
Meu amanho é o pólen que lhes deita
Mais que subsisto, sou poeta

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Angiosperma

At the window (Fabián Pérez)

Rubiácea esfumaçada da manhã
De orvalho ínfero, sépalas veladas
A cada verso uma pétala arrancada
Desnudo cálice, vil intento o meu afã

Miro-te flor, no cafeeiro, afeita ao solo
Sob céu vasto, um vento urde o teu medrar
Quimeras tórridas no aroma soube dar
Amargo gosto aviva a língua no teu colo

Quisera eu de ti a hora da colheita
Rude campônio, azo ao tempo intento dar
para colher-te à hora tenra em que te deitas

Quando maduras teu eflúvio invade o ar
Vapores mádidos – de que só há suspeitas –
vestem tuas folhas. Torno à leira laborar

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Apelo


Vasta exploração de linguagem, este mundo
E o modo como a luz incidia sobre a tarde
Era o meu motivo vão e frívolo, sem alarde
De propor-lhe um parlatório vagabundo

Vens, dama vespertina, olhar profundo
Que na malha urbana estou de varde
Tua airosa companhia que me guarde
Das fingidas juras do outro mundo

Quero o aqui e agora, esta cidade
Que do chão emanam formas cavas
E sombras conclamam poesia

Vês que já dispenso a sanidade
Vens olhar a esmo as formas raras
Eis nas cousas vãs toda a magia

sábado, 2 de julho de 2016

Porfia

Man at the bar IX (Fabián Pérez)

Lúbrico botão de elãs quiméricos
Rompe a tarde ao meio entre as pernas
Empilham-se os vates nas tabernas
No plangor de tê-la, cadavéricos

Sobrelevam obras ao teu charco
Adentrando a noite, moribundos
Seres morredoiros, vagabundos
Servos viciados no teu narco

Eu entre os demais, tíbio e sombrio
Tramo a distinção por culto à forma
Mas de pouco vale o anoso ardil

Um velho cronista escreve à jorna
De modo vulgar, em prosa vil
Hei de fenecer parelho à chorna­

terça-feira, 28 de junho de 2016

Rúbida

Study for Teressa with Mirror and Lipstick (Fabián Pérez)

Lasciva, a boca rubra me inquietava
Um pórtico letal ante a procela
Incauto, me lançava adentro dela
Um ímpeto vesano em mim pairava

Tentava em vão cravar outras nuances
Para embuçar a mélea servidão
Escravo dos seus ais em lassidão
Escrevo ao seu meão, não tenho chances

Palavra que me traz palavras outras
As deito, uma a uma, em libação
Meus dedos vão contando outras histórias

O mel escorre entre as suas coxas
Já fiz da pena o membro e o coração
entregue, não tem mais escapatória

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Ornata

Mind, Body & Soul. Gicle'e on Canvas Remarque. Por K.A. Williams

Castanhos são teus olhos, teu pudor
Oblíquos, testemunham veleidades
Meu pulso, sem rubor, mata a saudade
E a despe, escrita e crua, sem temor

Fartos são teus cabelos, vil meneio
Tentando esconder tua rúbea boca
Que geme, morde, grita feito louca
Aos golpes que desfiro no teu meio

Cruel é tua moldura, um quadro alheio
Adorno pendurado na parede
Memória do futuro que não veio

Feraz é minha dor, ó povo, vede
Sou bardo, cismo à lua e devaneio
Libar seus pigmentos, tenho sede

hμίμησις

"Não é ofício de poeta narrar o que realmente acontece; é, sim, o de representar o que poderia acontecer, quer dizer: o que é possível, verossímil e necessariamente." (ARISTÓTELES. Poética. 1951. p. 36).
[Autor desconhecido]

Fogo fátuo, no calor das coxas negras
Teu deleite, minha perpétua perdição
Ao Poeta, sua Palavra é condição
inelutável, confinado às suas regras

Se debate, forja cores e outras formas
Pobre ente, faz da vida imitação
Conta amores, lealdade e traição
Canta o povo, seus pecados, suas normas

Cobre a vida de um olhar airoso e vil
Que robora o quão mendaz é seu ofício
Colhe tento na verdade mais sutil

Invisível, sua obra é um desperdício
Do seu tempo e do tempo a quem mentiu
Só se salvam, ambos torpes, pelo vício