domingo, 19 de fevereiro de 2017

Hábito


"meu sono, quando maduro, seria colhido com a volúpia religiosa com que se colhe um pomo" Lavora Arcaica.

 Arte: Malcolm T. Liepke

Amaino a febre em teu corpo-lavoura
Palavra é sina ruim que talha o peito
Retém no bojo arroubo insatisfeito
De sempre requerer vez duradoura

Pro alor dos seus gemidos que me deito
Refém da relva, luz da manjedoura
Se crio, há criação, forma vindoura
Por vezo de inventar que me deleito

Afano de estertores à surdina
Memória d’uma incestuosa gesta
Deu vida ao meu quintal, pomba-menina

Os olhos são candeia, o corpo é festa
Os sóis bailam no céu, luz fescenina
Atear fogo pro gozo é o que me resta

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Madrugada

Arte: Gérard Schlosser

Desmedido ser, sonho anelado
Desvairada rosa, flor infame
Gozo em verso e prosa o teu forame
Sobre o teu furor ando cismado

Ávida e tenaz, propõe certame
E descerra vasta do meu lado
Cedo à perdição, tardo esfaimado
Cubro-lhe de tinta, o que é retame

Nas horas soturnas faz-se afável
Ladroas meu sono e minha memória
Face à alvorada irrevogável

Eis-nos dois gozados, dois sem glória
Díade infeliz, par miserável
Tu és desrazão, eu sou escória

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Vindima


Mádida saudade invoca o tato
E descerra a flor de vis intuitos
Eu cravejo o verso em seu pertuito
Ela evoca o gozo, encena o ato

Ai palavra antiga, ardil fortuito
Que me tentas no sentido lato
Nego à tua diabrura e sou cordato
Acedo ao poema, dissoluto

Eu no teu jardim semeei lavouras
Que a manhã se faz é de colheitas
Hoje lavro as putas, cumpro a meta

Outrossim, pousaram aves canoras
Meu amanho é o pólen que lhes deita
Mais que subsisto, sou poeta

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Apelo


Vasta exploração de linguagem, este mundo
E o modo como a luz incidia sobre a tarde
Era o meu motivo vão e frívolo, sem alarde
De propor-lhe um parlatório vagabundo

Vens, dama vespertina, olhar profundo
Que na malha urbana estou de varde
Tua airosa companhia que me guarde
Das fingidas juras do outro mundo

Quero o aqui e agora, esta cidade
Que do chão emanam formas cavas
E sombras conclamam poesia

Vês que já dispenso a sanidade
Vens olhar a esmo as formas raras
Eis nas cousas vãs toda a magia

sábado, 2 de julho de 2016

Porfia

Man at the bar IX (Fabián Pérez)

Lúbrico botão de elãs quiméricos
Rompe a tarde ao meio entre as pernas
Empilham-se os vates nas tabernas
No plangor de tê-la, cadavéricos

Sobrelevam obras ao teu charco
Adentrando a noite, moribundos
Seres morredoiros, vagabundos
Servos viciados no teu narco

Eu entre os demais, tíbio e sombrio
Tramo a distinção por culto à forma
Mas de pouco vale o anoso ardil

Um velho cronista escreve à jorna
De modo vulgar, em prosa vil
Hei de fenecer parelho à chorna­

terça-feira, 28 de junho de 2016

Rúbida

Study for Teressa with Mirror and Lipstick (Fabián Pérez)

Lasciva, a boca rubra me inquietava
Um pórtico letal ante a procela
Incauto, me lançava adentro dela
Um ímpeto vesano em mim pairava

Tentava em vão cravar outras nuances
Para embuçar a mélea servidão
Escravo dos seus ais em lassidão
Escrevo ao seu meão, não tenho chances

Palavra que me traz palavras outras
As deito, uma a uma, em libação
Meus dedos vão contando outras histórias

O mel escorre entre as suas coxas
Já fiz da pena o membro e o coração
entregue, não tem mais escapatória

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Ornata

Mind, Body & Soul. Gicle'e on Canvas Remarque. Por K.A. Williams

Castanhos são teus olhos, teu pudor
Oblíquos, testemunham veleidades
Meu pulso, sem rubor, mata a saudade
E a despe, escrita e crua, sem temor

Fartos são teus cabelos, vil meneio
Tentando esconder tua rúbea boca
Que geme, morde, grita feito louca
Aos golpes que desfiro no teu meio

Cruel é tua moldura, um quadro alheio
Adorno pendurado na parede
Memória do futuro que não veio

Feraz é minha dor, ó povo, vede
Sou bardo, cismo à lua e devaneio
Libar seus pigmentos, tenho sede

hμίμησις

"Não é ofício de poeta narrar o que realmente acontece; é, sim, o de representar o que poderia acontecer, quer dizer: o que é possível, verossímil e necessariamente." (ARISTÓTELES. Poética. 1951. p. 36).
[Autor desconhecido]

Fogo fátuo, no calor das coxas negras
Teu deleite, minha perpétua perdição
Ao Poeta, sua Palavra é condição
inelutável, confinado às suas regras

Se debate, forja cores e outras formas
Pobre ente, faz da vida imitação
Conta amores, lealdade e traição
Canta o povo, seus pecados, suas normas

Cobre a vida de um olhar airoso e vil
Que robora o quão mendaz é seu ofício
Colhe tento na verdade mais sutil

Invisível, sua obra é um desperdício
Do seu tempo e do tempo a quem mentiu
Só se salvam, ambos torpes, pelo vício

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Antífona

Ilustração: Milo Manara

Ó formas atras, negras, formas turvas
Róscido bom humor das tuas letras
Ó formas densas, sólidas e tetras
Fazem leais vassalos de suas curvas

Seu alumbramento arvora aos seios
De Pâmelas, Leilas e Dandaras
Gáudios de Irene, obras raras
Bandeira e Cruz e Sousa em seus enleios

Eu que sou poeta inda semoto
Dos cultores bons destas searas
Quedo igual São Pedro e sou devoto:

“Entra, Irene” preta, fiel Lebara
Fazes o que queres, tens meus votos
Que este nosso empíreo seja odara

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Sáfica

Ilustração: Milo Manara

Maldito, só por ti me acaricio
Ao ler devasso verso que me cobre
Me deito nua e infame em tuas odes
E ouço ao pé do ouvido o teu cicio

Tua pena em riste dá-me um arrepio
Percorre o corpo inteiro a tua lira
Me entrego com verdade à tua mentira
De quatro, feito um animal no cio

Arquejo e dou-me à pena que penetra
Em minha flor lasciva e expele o fel
Preciso, nosso crime se perpetra

Tornas-te, ao teu ofício, enfim fiel
Provou mel da palavra e foi poeta
Ordeno que me tires do papel

Por Teresa.

terça-feira, 14 de junho de 2016

Récita

Ilustração:Milo Manara

Palavra que se disputa
Empunha na boca o meu verso
Lançando no vento, dispersos
Os uivos de nossa labuta

Eu, quedo, tergiverso
Sou mácula em sua voluta
A tenho salaz, dissoluta
Ao que ela me tem perverso

Metia o meu verso, morteiro
Ao que a garra dela escalavra
Pra ver quem mentia primeiro

Gozando, assim como a palavra
Protelo pra ouvir seu griteiro
Mas ela não cessa e deslavra

sábado, 11 de junho de 2016

Castigo

Ilustração: Milo Manara

Cá estou na mesma aresta, inda letargo
Mirando o ir e vir da expressa urbe
Imota, a mão resiste ao que a perturbe
Ofício desditoso e um tanto amargo

Deitar palavra nua em meu soneto
Com rimas eriçar-lhe a vil lanugem
Na boca restam felpas e amarugem
É o custo pra deixar nela um sineto

Me cobra em demasia suas vontades
E faz de mim seu servo dissoluto
Errante pelas ruas da cidade

Lhe cubro com meu cântico poluto
Sobre ela já dispenso a sanidade
Sueto já não gozo um só minuto

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Crime

Ilustração: Milo Manara

Gozaste os meus escritos, ó devassa
Puseste o seio à mostra, a carne à seiva
Foste fecunda gleba, opima leiva
Mas teu soez lobrego já não grassa

Abraso o teu instinto, ó bruta fera
Com meu pulso voraz como tua vulva
Após premido o vinco, a língua fulva
Latejo ao vil rebento ela prouvera

Atiras-te ao abismo, ó imprudente
Olvidas que é um delito a poesia
E o réu, mesmo confesso, ainda mente

Arguto, quis forjar uma atresia
Mas não posso safar-me impunemente
O solfejo dos teus ais me denuncia

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Cárcere

Ilustração: Milo Manara

Perdoas teu algoz de débil punho
Palavra que se despe ao meu versejo
Coberta de quintais, à tarde vejo
Lhe cubro feito a noite sem rascunho

As roupas no varal segredam ânsias
Só sabem lhes ouvir sombrios poetas
Ao teu salaz forame apontam setas
Sucumbem todos de letal vacância

Lançada ao meu jirau, foi posta a salvo
Velei teu sono a cálamo e tinteiro
Abriu-me as alvas coxas, expôs-me o alvo

Quedei de pena em riste, caborteiro
Compus profano hino ao rabialvo
Pra nunca mais deixares meu puteiro

Fissura

Fotografia: Lia Leão

Fitei nas níveas folhas um sinal
A sina de que és igual perdida
Ateias também chamas carcomidas
Me chamas à tua teia sepulcral

Aflora d’alva pele uma cissura
E rogas nua escrita num bordel
O ato se consuma no papel
Dilato em tua ancha curvatura

Rendido ao teu meão, mísero vate
Só pôde versejar à tua greta
Envolto na armadilha se debate

Devia ter cautela à tua falseta
Mas só sei confissões, não sou de esbate
Senhora, o meu parnaso é tua boceta

sábado, 21 de maio de 2016

Sina

Fotografia: Helmut Newton

Ateia, sem piedade, a tua chama
Ao meu enfermo carpo já confesso
Segreda estas metáforas, te peço
As cubra com lençóis da tua cama

Que ao teu olhar meu pulso se incinera
E risca de bom grado este luzeiro
Dos fachos, mais custoso é o primeiro
O lume que o segue prolifera

Mas hás de me remir, tu és ledora
E levas junto ao pomo uma ode
Aos pulcros lábios de ave canora

Porém, é de outros voos mais incodes
Que falo do teu estro, ó predadora
Sabeis por ser poeta, só se fode!

Noturna

Palavra que atormenta meu bordejo
Tardia e contemplada de distâncias
Senhora dos meus ais, das minhas ânsias
Teu colo é o sonho báquico do ansejo

À tarde, um lábio infame inda cerrado
Que orvalha sob o verso que o tateia
Se abrindo engole o pulha que vagueia
E faz do céu da boca um constelado


O pulha, ali cismando, se entorpece
Da chona que vedou sem pena o dia
Cobrindo de caligem sua prece

E antes que lhe cubra em cinesia
Um só facho conspícuo inda esmorece
Cortinas de um teatro, eis a poesia

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Voejo

Under The Light (Fabián Pérez)

Palavra que arrefece sob a campa
Perdoas teu algoz de enfermo carpo
Não fora por vileza ou siso parco
Que tange a carne e, após fruir, descampa

Concerne ao seu ofício desditoso
O vão e inane adorno de tuas formas
E ainda que institua as próprias normas
Não foge ao seu destino, o presunçoso

Urdir na bruta frase um desatino
Não tendo mais que o punho como aporte
Ardil transmutação, feral menino

E neste elixir arrisca a sorte
Um Sísifo de olhar sempre vulpino
Confiando mais no voo que na morte

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Palinódia

"No te salves ahora. Ni nunca"
(Benedetti).
Marmol Negro (Fabián Pérez)

Pobre e infausto andejo, flana doidivanas
Fiando na prosa espúrias remissões
Confessai perjúrios, abjurações
Conquanto desposa palavras levianas

Fez da forma um leito, ardiloso vate
Estirando a carne que mentiu celeste
E semeia a gleba, ara, roça, investe
Sob o vasto páramo, molesta e esbate

Cai despida a pécora, em catorze estrados
Ao coimar da pluma proferiu vagidos
E gozou de algia os versos hachurados

Mira o bardo lasso, os ditos erigidos
Fita a sacra tríade feita de esporrados
Há de lhe indultar os sobejos impingidos

sábado, 2 de abril de 2016

Rocio


Vinde, ó nuvens, fiz-me ledo
Após longo estio de espera
O torso dela, eis minha quimera
Cai-lhe, ó nimbo, o quão mais cedo

Molhe-a, ó chuva, por meus dedos
Tal rorejo eu não pudera
Ser tormenta, assim quisera
Serenei tão logo, tredo

Que restou de minhas esperas?
Não fiz delas mais que enredo
Forjador de primaveras

Na invernia fui brasedo
E ao rocio do corpo dela
Não fui mais que bardo, quedo

segunda-feira, 28 de março de 2016

Brasedo

A Humberto Paixão, último leitor

Fenecer, ei-lo verbo inelutável
Morosa injunção que a vida imputa
Olhai no escaparate, já sem luta
Jaz o órgão devotado a ser afável

Melúria lastimosa o teu conjuro
Roguei que minha sina fosse tua
Mui pouco há de valer queixar-te à lua
Maldito és teu fadário, ó ser impuro

Quiseras teu olhar junto à lareira
Perene, ameno, morno, complacente
Olvidas que adentro a flama beira

E o lume que lhe apraz não é silente
Ruidoso e hirto silvo a noite inteira
Haurido da palavra à qual tu mentes

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Ofício II

“Que faz um autor com as pessoas vulgares, absolutamente vulgares? Como colocá-las interessantes? É impossível deixá-las sempre fora da ficção, pois as pessoas vulgares são, em todos os momentos, a chave e o ponto essencial na corrente de assuntos humanos; se as suprimimos, perdemos toda a probabilidade de verdade.”
Dostoievski, O Idiota, IV, 1.


Andei a pensar no senhor leitor. 
Primeiramente é preciso esclarecer que sou destes sujeitos ridículos que não existem mais: ando com flores na lapela, sob a luz dos lampiões, e detenho-me nas gares para tomar o último bonde que a esta hora lúrida já não passa mais. Deste modo senil vejo o mundo. E não mais publico os poemas por inteiro... 
(...)

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Ofício

“Ah, deixar de escrever! Nem me­reço tanto! Por isso continuarei. Como gane eternamente para a Lua dos doidos o cão amaldiçoado em alguma história (seguramente) infantil.”
De repente – Paulo Mendes Campos, 19 de dezembro de 1964.

E foi com a luz amarela da cidade incidindo sobre as coxas dela que me dei conta da plenitude que era o meu viver atual. A chuva afagava vagamente a vidraça do bonde, compondo o cenário letárgico ao qual as distâncias haviam me imposto. Talvez uma trégua, sem o meu consentimento, é fato. Mas um descanso na completude da amizade, um afago no porvir do que era amor, uma saudade há muito anunciada e o despojar da vida com brandura, deixando sobre a mesa o copo vazio, na parede o poema inteiro e na cadeira a certeza esvaída de já ter vivido tudo o que se tinha para ali viver.
Ao descermos do bonde, eu, ainda em quietude, não saberia explicar àquela mulher que eu gozava por inteiro. Como dizer a ela que teria de me dividir entre tantas... Como lhe jurar meu corpo se uma parte dele fora amaldiçoada pela universalidade de um ato, ofício voluntário para com o mundo, tarefa inglória. Resoluto, beijei-lhe ternamente a face, feito o mar que aguarda calmo as tempestades.
E a outra, que até então sempre fora a principal, a despeito de quantas eu deitava no catre, doravante rainha despojada de seu trono, olhava-nos a um canto, levando no ventre o polido sêmen da vingança. Eram meus aqueles versos trabalhados com esmero na madeira firme das horas tardias. Era minha a erudição vocabular insubordinada à nobreza tão quanto à mesquinhez do que se moldava falso ao gosto popular. A Literatura, senhores, é uma nobre vagabunda que não se deita com qualquer um. E a minha escolha pela vida, senhores, configurou o feliz abandono. A Literatura é uma séria meretriz.
Que me restou? O intento da poesia. Sim, o intento. Pois a poesia só lá conseguem os velhos e as crianças. A poesia é um bosque no qual só adentram aqueles que a desconhecem por completo ou que, depois de muito tentar, dela desistiram. O poema, este é plausível no papel. Seja o traçado firme das formas eruditas ou a mera intenção vã e vulgar, é sempre um poema. Não mais que isso, até segunda ordem.
Pois bem, metade do que me restou é o intento. Porém, meu intento sempre foi indócil, voraz e maldito. Que faço eu para cantar um amor crível? Como delinear nas estrofes de um tempo feliz a morbidez antiga dos meus versos? Fico a contemplar na nudez de suas curvas um indício qualquer da minha redenção. E entre espasmos e assonâncias, suor e aliteração, gemidos e declames, eu procuro o orgasmo literário que faça jus à realidade, mas com brandura.
E tu, leitor despudorado que ainda adentra este bordel devasso, és a outra metade. Que vens fazer aqui, maldito?! Por que insistes nesta cumplicidade nossa? Por que não te desistes de mim? Não propago nas mídias, não ponho anúncio no jornal nem nos postes, não te convido pelas ruas... e mesmo assim insistes na fidelidade indômita. Soubesse eu quem eras tu, companheiro, te dava um beijo. Ou te pagava uma dose, vai saber! Um brinde ao teu, ao nosso célebre anonimato!


Aracaju outra vez, 16 de dezembro de 2014.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Lavradio

Entendo agora o arcaísmo da lavoura. Trata-se de uma sociedade patriarcal, em que os valores são arcaicos e bem delineados. Não há espaço para diálogo nas rupturas. Qualquer quebra paradigmática é feita em desordem – pois é a ordem uma semente que germina, um ramo que nasce e cresce afeito à terra que o sustenta; mas que arrancado dela toma novas formas.
Seu Antenor Pereira Beck e a lareira se confundem. O velho conversa com o fogo numa linguagem só deles. As chamas envolvem a lenha com a terna paciência de oitenta e quatro anos queimados com sabedoria.
No domingo, a segunda geração existente fora reunida. Nove ao todo. Metade se preservara na lida campeira, a outra migrara para províncias circunvizinhas, mas os valores permaneceram intactos. Na terceira geração os códigos sociais começavam a ser reescritos. Na tradicional roda de chimarrão, um dos netos – com um orgulho pioneiro que o fazia andar com a perna amostra no frio inverno gaúcho – exibia a primeira tatuagem da família.
As minhas marcas eram muito profundas, imperceptíveis a olho nu. Indícios de uma nova poesia, por mãos que provieram da terra, vogaram por mares distantes e agora, passadas duas décadas, reaveem a mesma terra outra vez.
A cidade se abrira em enleio e me fizera poeta, notívago das ruas e das mulheres do cais. O cerrado me envolvera em poeira e libertara da forma. Os pampas promoveram o reencontro com minha natureza túmida, rude, agrária. Entre as mãos camponesas de Seu Antenor no plantio de grãos e legumes e minhas ávidas mãos da colheita dos versos não havia tanta diferença: era tudo uma ciência da terra, era todo um cultivo de amor.


Boa Vista do Cadeado/RS, 8 junho 2014.