quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Jardim

"A manhã se faz de flores."
[Trecho de Partida do audaz navegante, in Primeiras Estórias- João Guimarães Rosa.]

Do teu jardim eu fui bordando
Tênue estandarte na areia
Com flores, conchas e cortejos
Alinhavei-me em tua teia

Cada dia feito um verso
Na aurora eu fui tecendo
Fiz casulo do teu mundo
E de amor eu fui morrendo

Andei louco, bem tu sabes
Que ao porvir me antecipei
Feito um barco em mar aberto
Pelas ruas eu singrei

E o tempo, incontido
Nem soube de nós
Ensejo perdido
À mercê de uma voz

Que, tendo tanto a dizer,
Contentou-se e disse assim:
Efêmera é nossa eternidade!

Ainda finjo te escrever
Mas que fazer com teu jardim
Se no meu peito ele não cabe?

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Despedida


Lápis sobre o papel: DOUGLAS, Rafael. Despedida, 2012
Preta,
tisne figura
que emoldurei na parede
Eu te amei
no embalo da rede
Num fim de semana
no meio do nada
Fiz nossa casinha
sobre a madrugada
E ancorei meu barco
na tua beira, morena
Pra me acostumar
à tua maré serena,
ao teu vai e vem,
Meu bem
querer.

Querer já não posso,
poder ainda quero
Ser sempre sincero
foi o acordo nosso
Então combinamos
não vamos
d’agora em diante:
Andar de mãos dadas
dando bom dia aos passantes,
Esperar sem ter pressa
o ocaso escarlate,
Nem todas as coisas
que lembram no peito
há algo que bate.


E assim se termina
a adúltera estória
sem final feliz
Pintura que eu quis
guardar na memória:
Primeiro o Esconjuro,
depois Rubiácea
Das partituras baças
fiz Música, eu juro
E me fiz teu cronista
ainda sujo de tinta
Pintei a Ciclovia
com várias matizes
Para que nosso amor
tenha aquela cor
dos amores felizes.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Eutanásia

A Rafael de Oliveira, Poeta do Corpo
Teus versos síncronos
Horizontalmente calculados
Como se, num mesmo poente,
Cessassem em fileira lado a lado

E olhassem-nos, cúmplices
Pelo derradeiro desejo atendido
Das veias pela pena injetadas
E o alívio semântico prometido

Têm destarte no soneto o seu jazigo
Que a demência os receba em seu abrigo
Que o húmus absorva-os com clemência

Que a verdade da poesia os devore
E sobre o epitáfio, inconformada, a prosa chore
“Sois versos, fazeis da assonância vossa ciência”