segunda-feira, 28 de maio de 2012

Das estações

Vem cá, quero te enfiar um dedo de prosa. Revogo-te a culpa e atribuo-te a cura. Clamo-te uma vez mais a salvação. Nunca me viu assim sem poesia. Pois me falta. Dinheiro tenho. Mas nunca me senti tão pobre, comum, ordinário. Nunca me senti tão longe do mar como morando ao lado dele. E se vejo uma bailarina pela ciclovia que me sorri e me manda um beijo, não consigo tirar disso um só soneto. Noutros tempos me bastava imaginá-la. Noutros tempos prometia ébrios poemas para moças desconhecidas que avistava nos bondes, declarava-me nas gares, inventava mulheres, fazendo da carne de fulana um Mito, cultivando floridos jardins sob a pele e tornando a rede um leito, crepúsculo, firmamento, e a vingança era doce, a estante um altar, e compunha trovas, cortejos, inventava estórias que nem eu mesmo acredito mais, os regressos eram cativados com flores colhidas e olhos risonhos, da janela eu via tudo e desenhava nas nuvens ursos para o mais terno olhar colorir e a varanda girava, a morada eu levava nas costas e andava sem rumo nem dinheiro nem fôlego pra escrever assim desse jeito que só quer dizer que a minha vida era assim invirgulável e impontuável e sem nenhuma revisão ortográfica.

Foi então que adentrei uma taberna e avistei uma tela que julguei precipitadamente ser palavra: Esconjuro. “Ser dos prazeres mundanos é como colher flores na beira do abismo: muitas vezes o sujeito paga com a vida.” Enganou-me, era feita de tinta, a desgraçada, mas não tinha letras, mulher ilegível aos meus olhos desabituados à arte. Rubiácea esfumaçada da manhã fez esquecer-me de todas aquelas palavras alvas que outrora eu escrevia. Suspendi os jardins, desmistifiquei os labirintos, destronei as trovas. Tentei simular ainda adultérios, telegramas, escritos cênicos, furtivas viagens todas em vão. Foi-se embora o meu lirismo, só restou-me a maldição. E invadimos feudos, saqueamos aldeias, tomamos cidadelas devastadas, pilhamos navios mercantes e a esmo sopramos melodias indevidas pelas ruas.
Amor selvagem,
sem razão nem emoção,
é puro instinto.
Estou condenado à prosa,
minto.
Por isso eu te peço, mulher de todos os santos, que atenda aos meus telegramas. Escreva-me qualquer coisa, permita que eu penetre em teu ventre outra vez a minha pena, como tanto fazíamos fingindo ser a posse impura de um território, nativa & selvagem flor catequizada a ferro, flecha & fogo por meu verso cravado bem fundo no âmago da tua indecência. Conceda-me o verbo que te permeia, faz nas minhas veias o sulco que o arado faz na terra, espreme na minha boca o suco que encharca o pomo que te nomeia e faz da minha carne o teu rascunho, porque foi deste modo que sempre te comi: semanticamente. Quando lírico primaverei-me. Depois, maldito, ardi em brasa. Para curar-me, sendo um velho poeta sapiente, outonei-me. Agora minha estação está novamente aberta às tempestades. Invernar-te-ei.

sábado, 26 de maio de 2012

Telegrama VI

Para quem fez da minha carne triste quase feliz.

“Pois toda esta beleza que te veste
Vem do meu coração que é teu espelho
O meu bem, é bem melhor que tudo posto”


Escrevo-te estas mal traçadas linhas rezando que não leia, mesmo sabendo que lerás, inevitavelmente. Pela primeira vez me refiro diretamente a ti aqui neste Bordel, a ti que guardou uma infinidade de cartas, a ti a quem pertence à maioria dos meus escritos, meus mais sinceros escritos. É que depois de um ano, de repente me vem um vazio tão grande... Não que eu queira voltar, já escolhi o meu caminho. Não posso e nem quero voltar atrás. Já não tenho aquela pureza no olhar... agora eu ando gauche, tão gauche na vida, que nem é preciso inventar nada para fazer literatura. Ando como um anjo torto, um anjo caído. Tu perdeste um homem para que ganhasse o mundo um escritor. Eis este maldito poeta insaciável, boêmio, lírico e pérfido. Gérard de Nerval me escreveu: El Desdichado. Drummond me escreveu num Poema de Sete Faces. Quintana me escreveu fingindo ser sempre ele. Pessoa fingiu que me escreveu e eu, ingênuo, acreditei. Álvares de Azevedo escreveu dois de mim numa só vez. Escreveram-me tanto que eu aprendi a escrever também. Agora eu conheço o mundo, mas nunca tive amor como o teu. Apaixonei-me diversas vezes, na verdade me apaixono todo dia. Julguei precipitadamente ter amado. Conjuguei o verbo amar indistintamente. Mas a vida é assim mesmo, cairei mais vezes nesses mesmos erros, quantas vezes forem necessárias. Tu cairás também. E no final a gente ri.
Mas vezenquando rememoro aquele amor, Amor maior do mundo. Recordo aquele cais seguro, o teu sorriso me abrigando e tudo o que vivemos. Não cabe escrever, foi vivido. Foi vivido com todas as forças. Quero tanto que sejas feliz, mas tanto... Eu abdicaria da minha felicidade pela tua, eu morreria por ti. És a única pessoa que me importa mais do que a mim mesmo. És a única palavra capaz de me arrancar mais que uma lágrima. E quando eu te vires feliz vou me alegrar de todo o coração. Eu te amo mais que tudo neste mundo, e por isso mesmo, não podendo doar-me por inteiro, abdico-te. Não mereces de mim só a metade. Um dia compreenderás os devires desta vida. Não mais te escreverei aqui. Não é do meu merecimento. Não há verso, não há prosa que valha mais que um simples e sincero EU TE AMO!

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Ciclovia

Pintura em tela: DOUGLAS, Rafael. Ciclovia, 2012.

De certa forma, agradeço tua falta de interesse pelas artes verbais. Se lesse o que invento de ti, me abandonaria sem pesar. Se desconfiasse da paixão que cultivo nas entranhas do meu peito ébrio. Embora seja uma paixão somente pela carne. Encantei-me pelo teu sexo, pela tua falta de pudor, nosso tango na horizontal. Exerce com destreza as mais inimagináveis posições sintáticas, multifacetada expressão, suprassumo da volúpia. E eu, todo orgulhoso da obra que roubei adulteramente, te cubro o corpo de elogios. Infidelidade conjugal consumada. Mas demasiado libertina que és, não cederia mais teus favores se soubesse dos meus sentimentos. Tu és realmente um espírito livre. A palavra que sempre procurei para escrever.

Pedalando pela rua, um frêmito desnuda a tua orelha e um raio de sol oportunista aproveita as curvas do teu brinco para se fazer refletir. O vento malicioso pede licença e te descortina o vestido expondo aos passantes tua coxa bela e escura, não mais escura que a relva pubiana rente ao que tens de mais sagrado e que eu profano todo santo dia. O vestido não dá conta de ofuscar a tua pele negra e transparece, deixando à mostra os bicos dos seios, auréolas carnudas, minhas inesgotáveis fontes de inspiração. E o trânsito se confunde, nenhum motorista lê mais os sinais, ciclistas se chocam, barcos atracando no meio da rua, pedestres fazem pouso de emergência no ar...
Musa alheia,
na contramão da ciclovia,
nos tira do sério,
instala o caos e a fantasia.
Observa tudo com teus olhos de ressaca e vai-se rindo pela tarde. Se desconfiasse qualquer lirismo advindo de minha pena... Não devo ousar deitá-la em verso. Seria minha glória como poeta, meu reconhecimento e minha eterna perdição. Prefiro permanecer no anonimato, tecelão desta prosa escusa, ao menos ainda me resta algum domínio sobre o meu ofício, não mais abnegado. E o nosso encaixe é tão perfeito, que ao narrar os nossos movimentos aos ouvintes, todos julgam ser apenas literatura.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Violenta

Ao desabrochar de Saintpaulia Ionantha.
Ilustração: Milo Manara

Suster nas mãos a pélvis desvelada
Violável hímen róseo e orvalhado
Premer na língua o vinco já molhado
Preâmbulo do prélio que o aguarda

Colher da flor o pólen na aurora
Conter num instante pênsil o arrebol
Aurívora vulva à flor do sol
Jorrar seminal leite na epiflora

Molímen propulsor deste solfejo
Talhando uma miríade de ais
Na lúbrica flor roxa e sem pejo

Solstícios e equinócios sem iguais
Botânico e telúrico desejo
Rebenta a violeta em pleno cais

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Fim

Nocturnal Surprise II (Fabián Pérez)

Nota de esclarecimento: Declaro agora este Bordel fechado! Vou-me embora com meu passo gauche e distante, noite adentro, vida afora. Talvez fazer crônicas para ninguém ler, se ainda me restar o olhar focado sob as coisas inúteis. Ou mesmo tentar a impossibilidade de um verso. Talvez nem isso.

Talvez não as faça com o devido engenho, as crônicas. Contudo as palavras a que se presta um jornalista não o acompanham quando acaba o expediente. Eis o melhor dos meus erros. Tanto fingi ser poeta que acabei ludibriando a mim mesmo e, enganado pela verossimilhança, acreditei ser, não poeta, mas ao menos escritor. Levei minhas palavras ao leito, subjuguei-as a exercer funções sintáticas por mim determinadas, porém acabei me apaixonando perdidamente, semanticamente por uma delas. Tirei proveito poético da minha própria timidez. Mais que isso, com caneta e papel inventei um amor, e dos mais efêmeros. Abalos sísmicos são efêmeros, me alerta o leitor mais atento, e me vejo obrigado a concordar.

Pensando bem nem tão mau escritor era eu para inventar um amor tão efêmero. Há críticos que alegam erros na terminologia, como se ousasse chamar de amor a minha criação que na verdade não era mais que paixão, do mesmo modo como classificar indevidamente como romance um livro de contos. Talvez.

Não, não foste tu o maior dos amores, não embalaste com zelo a rede do tempo, não curaste as tristezas nem dividiste as alegrias. Nem tampouco foste tu a paixão platônica que cultivei por anos afins dedicando-lhe versos e fenômenos da natureza, sentimento abnegado ao qual ainda hoje me esvaio do ensejo do beijo para que, mediante as regras do amor cortês, me porte com a dignidade de um trovador medieval. Nem foste tu aquela que subjuguei em camas de hotel e com arfar de bicho selvagem consumamos o coito e foram horas e dias de gozos, gritos, gemidos, carne, pele, saliva, esperma entre cigarros, bebidas e outras coisas mais. Não foste quem me ensinou a prosear e nem veio sorrateira pela janela trazendo subsídios de cultura. Nem mesmo aquela à qual, com o indevido respeito, dediquei sucessivos poemas e, entre vogais e consoante, escrevi o seu nome com a engenhosidade de um aliciador semântico.

Quem foste tu afinal? A palavra que veio cumprir a profecia. Tão somente aquela que corrompeu a minha escrita e me fez enxergar a vida como poeta, sentindo os poemas na carne e mudando a alma de casa. Aquela que, ardendo em brasa, fez-me compor os mais singelos vocábulos em sua pele jardinada, dilatando para nós auroras e ocasos. Aquela que se ergueu do papel para me cobrir de significados e alterar os conceitos. Aquela a quem dedico todo dia um pensamento, às vezes de pena, outras de admiração, quase sempre de saudade. Aquela por quem eu deixei de ser escritor. E se doravante não tens mais o que ler, a culpa é nossa.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Lenha


 Sim, existimos, diz-me. E o teu dizer é já um pomo doce em minha boca. É um pomo colhido no cacho, com a palma da mão ainda ríspida pela escalada até a frondosa copa desta árvore que cultivo há muito. Lembro ainda a semente que pus aqui. A terra era árida naqueles idos. Não havia sombra alguma, era tudo uma extensão seca e dura de vergões infindos. Era o vento passando mudo, sem ter no que tocar. Era um desperdício de poeira sem ter no que assentar. Era eu olhando triste todo o amor que faltava.
É tão difícil plantar uma árvore. Não o ato em si, mas a responsabilidade que se assume. Plantas uma árvore e não serás mais sozinho no mundo. É como plantar um destino. Mas a terra não podia arder seca daquele jeito, o vento não podia continuar passando ileso, até a poeira precisava de um descanso! E foi de lágrima que fiz o primeiro furo no órgão da terra. E a terra, gemendo num misto de prazer e dor, aceitou de bom grado o sêmen que lhe impunha.
Nem sempre foste assim bela e frondosa. Nas primícias de cada aurora era um frágil ramo ao que vergava o vento. Meu sono era colhido ainda verde para cuidá-la. Árdua tarefa matutina, pois o vento só tinha você. Ficava ele rodeando-te, tirando-a para dançar de todos os lados. Mas nunca achei justo lhe pôr na redoma. E parte do que agora te faz forte coube a esta exposição ao tempo.
Tempo, tempo, tempo... ele foi passando com o vento. E o que mais parecia um arbusto foi tomando formas, foi abrindo os braços. E nas manhãs que eu ia perguntar do teu sono, já estava acordada e rindo bem antes de mim. Não era mais o vento quem a tirava pra dançar, mas o contrário. Eu já acordava no teu riso venial de menina impura a caçoar do vento que não conseguia mais seguir o curso linear ao que havia se acostumado. E ele mais parecia um sopro a recolher-se em teu ventre.
E era nas derradeiras horas dominicais que eu me deitava em teu colo para ouvi-la com a religiosidade de quem lhe destinou o firmamento. Eu ficava ali o tempo todo coberto de poeira e tu mal me percebias aninhado entre as raízes. E era um espetáculo que se apresentava aos meus ouvidos o ressonar do vento nas folhas tuas. A relva orvalhada foi meu esconderijo por longos anos.
E foi do descanso da relva que avistei o primeiro racemo de flores. Um riso nos olhos anunciou o momento mais bonito da minha vida. Dá-me tua sombra, que o meu coração já lhe fez ninho.