quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Lupicínios

Para Eli, pela nossa boemia.
Fonte: www.lobzov-canvas.com 

Nobre amigo, tu és garbo e bem ditoso
Como eu, se tens à mesa ainda um vinho
Vais fumando teu cigarro vaporoso
E me contas do amor em desalinho

Eu discorro das minhas lúgubres estórias
E também das mais vistosas que já tive
Que a vagina da mulher é-nos a escória
Mas que sem sua garapa não se vive

E por elas cá estamos sob a lua
A beber esta cachaça malograda
Na mais fétida taberna desta rua

E os fantasmas que trouxemos dão risada
Da minha sina malfadada e da tua
Sabem eles fenecer por sua amada

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Foz

Acción Poética Tucumán - ARG

Confesso que te inventei. Não és tu a criação da madrugada, nem mesmo das últimas semanas ou meses. Levei toda a vida para te deixar assim tão bela. Foram anos e anos de árdua labuta nas lúridas horas da noite. Fui tecendo uma obra que não enxergava, me cabia imaginá-la. Dos retalhos finais de domingo, fui cosendo a rede na qual nos abraçaríamos em uma longínqua tarde empoeirada. E seria este abraço o decreto de nosso gauche destino. Fui tecendo a rede mesmo sem ter onde pendurá-la. Porque nunca fui tão afeito às paredes: de que mais servem elas senão para pendurar o amor a tarde inteira? E ainda não tenho onde pendurar o nosso, e por isso te carrego pela mão sobre as pontes, as tardes cobertas de poeira, a escuridão das ruas, a devassidão e pureza dos rios e dos risos nossos, pelos bondes e pelos barcos. Procuro um lugar onde pendurar a rede que teci para que me cubra de ternura sobre a brisa vespertina. Procuro um lugar que seja nosso.
Mas eu não a via. Havia somente um rumor da singela beleza que te comporia. Comecei então por inventar a tua voz. Foi no que primeiro me perdi. Eu era um homem rude, andava roto, carregava pesadas tralhas a semana inteira. Era na tua voz que eu descansava. Tua boca já era nesse tempo para mim um alento. O ensejo da perdição. Palavra já era, mas ainda arraigada à oralidade.
Eu não a via. Bastava-me ouvi-la. Eis que te leio. Eu não havia mais, éramos nós. Éramos nós pelas praias do mundo. Foi no que segundo me perdi. Ao ler as palavras que trouxeste à minha beira pude perceber que “algo existe em ti mais escuro que a noite, mais profundo que o tempo”. E a obra já começava a transcender o autor.
Eis que te encontro: foi a terceira vez que me perdi. Tentei ainda desviar o olhar, propus que olhássemos sempre na mesma direção, lado a lado. Mas nossos olhos eram como rios a buscarem seus afluentes, continham a impetuosidade de águas revoltas, traziam detritos de muito tempo, de muito longe. E apesar dos ventos contrários, contra rios, nada pode conter águas que se buscam. Foi então que meu olhar desaguou no teu: eis que te beijo. Foi a derradeira perdição. Ao tê-la em meus braços pude compreender o leito de toda a vida. Pude vislumbrar o curso das águas defronte. Pude antever mares até então imaginários. Imagina rios que se cruzam e seguem de mãos dadas e serenas a caminho do mar. Assim o somos.
Concedo-te a primeira prosa. Que falta ainda para eu te deitar em verso?

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Blues II



Mia Dona, perdoe-me a ausência! Não dei por mim que tinha voltado tão brevemente. Ando recluso. Laborando meu arcaísmo para voltar um dia ao poente. O porvir é como uma frágil planta arraigada a terra, em que a raiz é mais forte que a planta em si. Tenho me dividido entre a morte de uma longa prosa e os versos vindouros aos quais já me sinto condenado. Tenho vivido as mais singelas e também as mais doídas coisas da vida. Tenho amado e sofrido sem me preservar, tenho escrito poemas sem os publicar, mais que isso: tenho feito poemas sem os escrever!
Antes desta procela, mais uma palavra que se foi. Antes que murchasse, pude extrair do gineceu uma obra inaugural: um soneto, árduo, metrificado, perfeito, o melhor que se poderia talhar nestes tempos já tão idos. Um soneto jogado no lixo, como uma flor de esgoto. Coisas de poeta ultrarromântico que sempre morre de tuberculose no final da madrugada... mas no agônico suspiro consegue ainda talhar de modo rupestre um adorno à posteridade! Talvez não tenha sido mais que uma represália ao modo deselegante e nada cortês com que se tem tratado a poesia contemporânea. Talvez no mesmo ato assim eu o tenha feito: como fosse ela uma equídea xucra e lhe bastasse ajaezar o dorso para dominar-lhe os aspectos formais. Contudo, quis somente demonstrar domínio técnico para dizer que se o aspirasse, Poeta seria, mas prefiro conservar-me na anônima tecelagem desta prosa suja. Não hei de trazer primazias que careçam do verbo sentir ao nosso Bordel. Talvez eu deixe cair aqui um ou dois versos que nem sequer alcem rima, como um terno pássaro que sai pela primeira vez do ninho e se preocupa mais em descobrir o mundo circundante que voar. Talvez três versos que tenham a ingênua pretensão de haicai, mas serão eles a mentira mais verdadeira, virão do âmago, ainda pulsando e serão correspondidos plenamente.
Mia Dona, confio na prosa que leva entre as coxas para tomar conta deste prostíbulo e satisfazer os poucos clientes que ainda nos restam. Se acaso te enamorar por algum deles, tens o meu consentimento e uma placa de "aluga-se" atrás da porta, basta pendurá-la no lado de fora junto com teu coração.
Agora dê-me licença, um beijo e um último cigarro que tenho poemas a viver. Eu que outrora os escrevera nos muros, para-brisas e enseadas, agora os farei em minha própria carne à flor da alma. E se me quedar do onírico, restará chorar um blues e fumar um charuto tendo a certeza de que não tive medo de morrer e por isso vivi. Afinal, nunca este quintaneio me foi tão apropriado: “que importa restarem cinzas/ se a chama for bela e alta”.