terça-feira, 15 de abril de 2014

Tango


Azul. Era a cor do seu vestido. A olhei de tango, com meu olho ainda cinza do meu dia. Desde que passei a viver entre as tintas do ateliê que olho as mulheres de cores, cada uma tem a sua, mas não as conto. Penso na minha morte como um quadro abstrato feito do borro de cada uma delas. Mas voltemos ao cinza do meu dia. Era um cinza antigo e digno – desta dignidade que resta nas feições de quem sobrevive às tempestades –, era mais uma vez um cinza, mais uma palavra que se fora e desta vez impublicáveis eram as vivências do momento, como fosse um amor póstumo, que só se pudesse escrever após o término. Amor é modo de dizer, mau hábito. Talvez tenha sido mais que isso. Há brevidades que transcendem. Contudo, entre uma brevidade e outra o amor verdadeiro segue pendurado na parede e já me sinto fiel a este adultério.
Enfim, o dia era cinza e eu pairava na gare de mesmo tom cinzento. Foi quando notei a primeira mancha de azul. Nunca fui de olhar para estas mulheres esculturais, sempre me pareceram demasiado vazias. Mas essa mancha azul a eivar o cinza módico do meu dia era uma nota dissonante. Era uma nota de tango, perdida como quem se fizesse ouvida somente por loucos e poetas. Sei bem que já disse algo assim há três anos, trata-se de uma escolha consciente, como quem quisesse recuperar uma forma arcaica de escrever – maldita seja a primeira palavra que tirei do papel, nunca mais fui o mesmo.
Mas era dissonante aquela nota, algo fugidio entre um piano oculto e um acordeom distante, rompia o cinza matutino com distinção e mistério. Bem sabem os – cada vez mais raros – leitores que me restam que andava blues por causa de outra mulher. Certa vez, Son House afirmou que um bluesman não é aquele que domina o instrumento com maestria, e sim aquele que se apaixona; é preciso sentir o blues. Ela me fez um bluesman. Embora não dominasse instrumento algum, eu chorei o blues. Perdi cafetina, amante, a languidez da escrita. Creio ser a última a mais difícil de reconquistar. Tempos difíceis te dão o blues e é de algodão o oeste que se estende ao meu lado esquerdo – não se trata de nenhuma metáfora. Era preciso mudar o tom antes da partida.
Bem, voltemos ao tango enquanto se pode ouvi-lo. Tomamos o mesmo bonde. Não havia me visto. Andou de azul até as últimas fileiras e sentou-se ao corredor, mas, ao ver-me, imediatamente tomou o lugar na janela, deixando livre o assento ao seu lado. Que se pode fazer em dois segundos? Oscilar. E terá sido tamanha a indefinição no meu passo que todos os presentes perceberiam, se houvesse todos. E como me fizeram falta os demais, pois seriam eles o pretexto para tomar lugar ao seu lado. Não o fiz, julgando indiscrição, e sentei-me na última fileira. Então descobri que a indiscrição é preferível à covardia, pois essa nos define o arrependimento. Poderia levantar-me e sentar-se ao seu lado, mas aí a indiscrição seria tanto maior e maior era a minha covardia, talvez porque eu estivesse cinza. Mas ela ali, olhando a chuva na janela, mexendo vez por outra nos cabelos, ia me tornando aos poucos da cor do seu vestido.
O único privilégio do lugar que escolhi foi que pude a olhar de tango durante toda a viagem. Alguém mais indiscreto do que eu tomou o lugar ao seu lado. Senti um misto de ódio e pena do desgraçado que tomou meu lugar no mundo e olhava o corpo dela como se não houvesse por baixo do azul mais que alvas coxas, nádegas rosadas e seios fartos, como se não houvesse ali uma nota de tango e outra de mistério. Eis que ela – mais indiscreta e corajosa do que eu – volta o olhar para trás. Nesse momento abandonei a odiosa discrição e segurei firme o meu olhar cinza no dela, como se perscrutasse a sua alma de tango, e nisso eu já me fazia anil. Busquei na mochila um rasgo de papel qualquer que fosse e uma caneta bic, e me senti horrível ao perceber que sem estes dois elementos eu não existo. Mais uma vez me fizeram falta os outros passageiros a quem pudesse tomar emprestada a matéria em que comporia o meu destino. Se ao menos houvesse uma flor na mochila, mas quem andaria com uma? Eu, noutros tempos, andava com flores e conchas como se um dia fosse me apaixonar num bonde qualquer.
Desconheço, caro leitor, o nome daquela mulher azul. Por minha vontade ela se chamaria Maria, para rimar com o vestido – penso que eu nunca a despiria daquele vestido – e com fim de verso cantado. Desconheço, do mesmo modo, sua procedência. Nem vou contar de quando desceu do bonde, pois me envergonha o meu gris comedimento quando desprovido da pena. Tudo o que sei dizer sobre ela é que ouvi uma nota de tango naquele existir. Ainda a procuro nas gares, desta vez com caneta e papel ao alcance da mão. Coragem? Veremos. Mas devo confessar-vos: aquela mulher sem nome tornou azuis os meus dias.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Versos Etílicos


Morena, desfaz dos olhos o negrume
Que este trovador de airoso peito
Ardeu feito um graveto no teu lume
Brincou e foi criança no teu leito

Se vem chegando a hora da partida
Eu quero ver sorriso e menos pranto
Que a vida sempre foi de despedidas
Contudo nunca se perdeu o encanto

Se o cheiro de jasmim dos nossos dias
Lembrar-te das manhãs feitas de flores
E dos postes que te esperam com poesia

Sabeis: belas serão até minhas dores
Cá estou sob conhaque e letargia
A escrever-me o mais doentio dos teus amores.