quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Dois

Bem desconfiava que findaria na cama esta prosa. Só não contava que ante tamanha beleza destas folhas, cessasse eu de escrever. Logo comigo, o mais sincero dos mentirosos, após introduzir meu léxico ao prefácio, perdi o fio do novelo e não soube por onde enredar. E ali fiquei, tragando um cigarro enquanto contemplava os contornos de cada uma das letras que te compõem quando despida. Tão rara beleza: angelical devassidão em arte fotografada. Fadas e bruxas que ardem todas juntas quando me inquisiciona com o olhar e acende fogueira em praça pública.
E quando me faltaram os versos, me fiz jardineiro a velar teu sono, porque quando há carinho, afeto e cuidado, acaba por transceder tudo o mais que não houve. Deste modo pude comprovar que as flores são mais belas ao desabrochar da aurora, ainda que chuvosa aurora. Palavra que se fez minha, te concedo o meu verbo gostar.

Feriado


Há dias em que a gente anda tão a flor da pele, mas tão a flor da pele, que deveria ser proibido por decreto se aventurar em linguagem escrita. Não é do meu feitio, em tais ocasiões, prostrar palavra alguma no referido leito, ainda menos me arriscar pelos jardins. Tenho hábitos noturnos. Apaixonar-se não se trata de um verbo comumente empregado pela natureza sempre evasiva de poeta. Eis um risco que não pretendo correr, colocaria abaixo toda a minha obra. Porém, levando em conta a transcendência de uma quimera literária que tende por elevação de estilo a se constituir carnalmente, me intriga saber em qual página há de fiar esta canção que nos é tão pertinente. Teríamos a ousadia de transpô-la do plano mimético para a dita cuja e tão já complicada realidade?

Ponho-me a divagar nas quantas e quantas palavras se desconfiam metaforizadas no meu texto... Fazem parte do meu jogo esses subterfúgios semânticos, senão não haveria graça alguma na interpretação. Ainda assim afirmo que se permita metaforizar somente aquela para a qual as notas ecoam como pano de fundo enquanto lê-se. Se não há de escutar semmi, então não tens o direito de sentir-se empregada como substantivo concreto. Eis mais uma linha solta na tessitura, desprenda-se do enredo, largue o meu verbo e retire-se de mãos vazias e imaginação fomentada. Sinto muito, estamos fechando, volte mais cedo amanhã. Não há mais ninguém aqui para vos servir, hoje não. Agora todo o trabalho manual deve ser empregado para que se cumpra a profecia lingüística daquela que sempre esteve permeando os meus escritos, mas à que nunca foi concedida a devida atenção. Sempre ali, de andanças pelos jardins, o olhar focado nas pequenas magias que acontecem em preto & branco & cores outras. A singeleza que eu procuro em linhas e mais linhas de prosa torpe, ela acha em uma imagem só, na brevidade mágica de um instante atemporal.

Visto que nunca te concedi coroa nenhuma, nem ramos de flores como às outras, merece agora emprego mais formal da minha escrita. Eu que sempre te despojei do altar, jogando-a na cama, prometo destarte tratá-la com o devido cuidado, ó palavra intraduzível. Decretarei feriado e, em meio às outras, sublinhar-te-ei para que te sintas objeto influente na minha transcrição. Se reclamares, te corôo com aspas, o que viria bem a calhar, dado que não se trata de expressão da criação da minha língua, muito embora não me pertenças jamais fora empregada com tanto asseio por outro vate. Aqui na minha prosa poética sinta-se dádiva, musa alheia, núcleo do sujeito, termo essencial da oração, enfim, sintaxe à vontade. Em verdade vos digo: já esperou por tempo demasiado a tradução. Então tomo uma dose de conhaque pra acabar com a maldita timidez e venho reclamar-te os meus direitos autorais.