domingo, 23 de dezembro de 2012

Dry

Capa do Álbum "Aldir Blanc - 50 anos"


É sempre o mesmo sussurro pendurado na janela: ALUGA-SE. Ela abre a porta e coloca a primeira consoante no corredor, espreita... e só então deixa a vogal à mostra. Cá dentro o infindável cigarro entre os dedos vai brasando. Em todo retorno há algo de derradeiro, talvez motivado pela nossa concepção quase metafísica dos pormenores... Mas a troca de olhares é conjunção rompendo o devaneio como fosse um hímen. É sabido que ela veio outra vez pedir emprego na minha escrita. A vida fora deste recinto é confortavelmente denotativa, enfadonhamente denotativa. E palavra que se preza se disputa. E bem sabem os leitores que, confinada neste antro, palavra que sê puta, não desprezo. Porém, tal caso exige uma dose de ponderação. Peço que me sirva e enquanto se curva buscando a garrafa, faço dela pronome oblíquo, complementando-a com meu pronome reto, para seu gozo e deleite literário. É preciso esclarecer que o sujeito da oração sou eu, ainda que falido e ébrio, há um resto de prosa na algibeira.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Recife simplório para moça da canção

Ao primaverar-se de Pat
Fotografia: Patrícia Pordeus

Eu nem vi
Quando você enquadrou
O seu olhar em mim
Quando você fotografou
O jardim que eu fiz
Alheio,
E mesmo assim
Eu nem vi
Que você já fazia parte
Das tardes
Descortinou meu coração
Me pintando
Mutuamente
Desses versos que caminham
Pela praia
E se apagam do nada

Nem vi você chegar
Foi como ser feliz de novo

Ainda bem um tempo faz
Pra desperdiçar a esmo
Podemos inventar nós mesmos

Nem vi novembro entrar
Foi como ser feliz de novo
Nem vi você chegar
Que bom, setembro em mim de novo

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Pedido de Casamento

Vem. Vem florear minha varanda, me abrir as venezianas e estender o sol no meu varal. Vem chover no meu telhado e escorrer pelas goteiras que não disponho baldes pela casa: sempre fui de me encharcar! Vem cercear no meu quintal o mato infenso que plantaremos tulipas, orquídeas e algumas ervas para o bom proveito. Vem cultivar em mim anoiteceres, regar meu sono e apanhar o revérbero da labuta em cada aurora. Vem dispor o riso sobre a mesa e deixar cair, no chão, os farelos, pra reviver ao varrer o entardecer. Vem compor pelos móveis jogos de sombra e luz que a lareira candente tessitura noite adentro. Vem acender, na sala, um incenso, enquanto eu te procuro nas estantes. E acho-te ali entre o arcaísmo da lavoura e as memórias de minhas putas tristes, eu receberia as piores notícias dos teus lindos lábios. E leio-te ao pé d’ouvido. E apago o abajur e adormeço também.
 
E já me vejo, noutro cômodo, a ler na rede enquanto você desabrocha de vestido na janela. E afagar-te-ei o corpo como quem tateia estrelas, ara a terra com fervor, colhe da árvore o pomo suculento. Seremos, num só ente, a pena e a tinta que talha a folha, deixando exaurido o tinteiro. Seremos o pincel e a matiz que sobre a tela se debruça soprando-lhe a vida superfície adentro e se entranha na moldura. Seremos as frações da cítara que no vento xucro monta e se moldura nas entranhas das flores campestres. Seremos a relva orvalhada dos prados sem limites da nossa imaginação. Seremos a obra e o olhar que inerte sobre ela repousa, contemplativo, perdido, perdidos de amor em desvario. O pão e a boca que dele se sustém. O grão ceifado e o leite recém parido do úbere ainda morno. O feno e as paixões que sobre ele se deitam. O chão de palha incinerado. A brasa irreversível do boró. A chama destinada no paiol. A uva que se entrega sob os pés. O vinho que se busca com as mãos, mas só na língua tem gozado o seu furor. Seremos tu e eu mais que nós dois.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Canção simplória para moça do Recife

Fotografia: Patrícia Pordeus

Te despes deste mundo
e vem
Vem passear descalça
e sente
A bruma que afaga
a gente
Vem ver a vida a pé
meu bem
Vem ver a lua azul
do mar
Que eu moro neste barco
assim
A onda leva e traz
pra mim
Teu jeito de sorrir
e olhar
E eu já nem me pergunto
mais
Quimeras que eu tingi
de anil
Me diz do pôr do sol
que viu
Te conto o amor que pus
no cais
O acaso não me deixa
a sós
E o vento vai tirar
os teus
Cabelos pra dançar
com os meus
E deixa entrar setembro
em nós

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Jardim

"A manhã se faz de flores."
[Trecho de Partida do audaz navegante, in Primeiras Estórias- João Guimarães Rosa.]

Do teu jardim eu fui bordando
Tênue estandarte na areia
Com flores, conchas e cortejos
Alinhavei-me em tua teia

Cada dia feito um verso
Na aurora eu fui tecendo
Fiz casulo do teu mundo
E de amor eu fui morrendo

Andei louco, bem tu sabes
Que ao porvir me antecipei
Feito um barco em mar aberto
Pelas ruas eu singrei

E o tempo, incontido
Nem soube de nós
Ensejo perdido
À mercê de uma voz

Que, tendo tanto a dizer,
Contentou-se e disse assim:
Efêmera é nossa eternidade!

Ainda finjo te escrever
Mas que fazer com teu jardim
Se no meu peito ele não cabe?

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Despedida


Lápis sobre o papel: DOUGLAS, Rafael. Despedida, 2012
Preta,
tisne figura
que emoldurei na parede
Eu te amei
no embalo da rede
Num fim de semana
no meio do nada
Fiz nossa casinha
sobre a madrugada
E ancorei meu barco
na tua beira, morena
Pra me acostumar
à tua maré serena,
ao teu vai e vem,
Meu bem
querer.

Querer já não posso,
poder ainda quero
Ser sempre sincero
foi o acordo nosso
Então combinamos
não vamos
d’agora em diante:
Andar de mãos dadas
dando bom dia aos passantes,
Esperar sem ter pressa
o ocaso escarlate,
Nem todas as coisas
que lembram no peito
há algo que bate.


E assim se termina
a adúltera estória
sem final feliz
Pintura que eu quis
guardar na memória:
Primeiro o Esconjuro,
depois Rubiácea
Das partituras baças
fiz Música, eu juro
E me fiz teu cronista
ainda sujo de tinta
Pintei a Ciclovia
com várias matizes
Para que nosso amor
tenha aquela cor
dos amores felizes.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Eutanásia

A Rafael de Oliveira, Poeta do Corpo
Teus versos síncronos
Horizontalmente calculados
Como se, num mesmo poente,
Cessassem em fileira lado a lado

E olhassem-nos, cúmplices
Pelo derradeiro desejo atendido
Das veias pela pena injetadas
E o alívio semântico prometido

Têm destarte no soneto o seu jazigo
Que a demência os receba em seu abrigo
Que o húmus absorva-os com clemência

Que a verdade da poesia os devore
E sobre o epitáfio, inconformada, a prosa chore
“Sois versos, fazeis da assonância vossa ciência”

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Inverno

Invernei-me. É como se eu não existisse, entende?! O lápis e o papel continuam ali postos na mesa, virgem banquete que alimenta a ampulheta. Destas palavras foi que teci a minha vida. A cada estrofe eu me enredava no vácuo sem contar os passos. Os versos foram a busca incessante pela limpidez da alma. Eles requerem um estado de espírito propício. É preciso um coração brando e muita sensibilidade nos poros para entender meus versos. Minha prosa não, ela sempre andou ébria pelos becos e se deitava com o primeiro que lhe pusesse os olhos. Sempre foi o padecer deste corpo sem outra cura que não outro texto que estaria por vir. Nela me viciei e procurei sedento entre as suas linhas um legado deixar. Mas nem isso, infrutífera flor de esgoto, texto estéril. Era preciso descansar.

Mas a vida é prosa, meu bem. De nada adianta ir contra este aforismo. Os versos só servem para derrubar a gente no abismo. Cada estrofe é um precipício. Os emjambements são como experiências de quase morte. Poeta e leitor são suicidas que supõem precipitadamente ter a alma adejante. A poesia é um crime perfeito, alguém já me dissera, e talvez valha a sentença com maiores danos ao suposto escritor.

Por que eu sou tão lírico, meu deus?! Porque me fizeram este poema de carne e osso? Porque só piso em versos, só sei andar em cambaleios? Eu deveria me contentar e crer em ti. Mas não, cismo em me fazer teu criador e assassino involuntário. Dá-me um pouco de paz, exista pelo menos uma vez na vida.

E nu, na areia, nas primícias ainda escuras do dia, as roupas e a mochila num barco-rascunho do meu ser guardando todos os meus pertences, a água afagando os pés e os pés bramindo como se encontrassem ali a sua foz, eu te clamo, meu último poema!

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Das estações

Vem cá, quero te enfiar um dedo de prosa. Revogo-te a culpa e atribuo-te a cura. Clamo-te uma vez mais a salvação. Nunca me viu assim sem poesia. Pois me falta. Dinheiro tenho. Mas nunca me senti tão pobre, comum, ordinário. Nunca me senti tão longe do mar como morando ao lado dele. E se vejo uma bailarina pela ciclovia que me sorri e me manda um beijo, não consigo tirar disso um só soneto. Noutros tempos me bastava imaginá-la. Noutros tempos prometia ébrios poemas para moças desconhecidas que avistava nos bondes, declarava-me nas gares, inventava mulheres, fazendo da carne de fulana um Mito, cultivando floridos jardins sob a pele e tornando a rede um leito, crepúsculo, firmamento, e a vingança era doce, a estante um altar, e compunha trovas, cortejos, inventava estórias que nem eu mesmo acredito mais, os regressos eram cativados com flores colhidas e olhos risonhos, da janela eu via tudo e desenhava nas nuvens ursos para o mais terno olhar colorir e a varanda girava, a morada eu levava nas costas e andava sem rumo nem dinheiro nem fôlego pra escrever assim desse jeito que só quer dizer que a minha vida era assim invirgulável e impontuável e sem nenhuma revisão ortográfica.

Foi então que adentrei uma taberna e avistei uma tela que julguei precipitadamente ser palavra: Esconjuro. “Ser dos prazeres mundanos é como colher flores na beira do abismo: muitas vezes o sujeito paga com a vida.” Enganou-me, era feita de tinta, a desgraçada, mas não tinha letras, mulher ilegível aos meus olhos desabituados à arte. Rubiácea esfumaçada da manhã fez esquecer-me de todas aquelas palavras alvas que outrora eu escrevia. Suspendi os jardins, desmistifiquei os labirintos, destronei as trovas. Tentei simular ainda adultérios, telegramas, escritos cênicos, furtivas viagens todas em vão. Foi-se embora o meu lirismo, só restou-me a maldição. E invadimos feudos, saqueamos aldeias, tomamos cidadelas devastadas, pilhamos navios mercantes e a esmo sopramos melodias indevidas pelas ruas.
Amor selvagem,
sem razão nem emoção,
é puro instinto.
Estou condenado à prosa,
minto.
Por isso eu te peço, mulher de todos os santos, que atenda aos meus telegramas. Escreva-me qualquer coisa, permita que eu penetre em teu ventre outra vez a minha pena, como tanto fazíamos fingindo ser a posse impura de um território, nativa & selvagem flor catequizada a ferro, flecha & fogo por meu verso cravado bem fundo no âmago da tua indecência. Conceda-me o verbo que te permeia, faz nas minhas veias o sulco que o arado faz na terra, espreme na minha boca o suco que encharca o pomo que te nomeia e faz da minha carne o teu rascunho, porque foi deste modo que sempre te comi: semanticamente. Quando lírico primaverei-me. Depois, maldito, ardi em brasa. Para curar-me, sendo um velho poeta sapiente, outonei-me. Agora minha estação está novamente aberta às tempestades. Invernar-te-ei.

sábado, 26 de maio de 2012

Telegrama VI

Para quem fez da minha carne triste quase feliz.

“Pois toda esta beleza que te veste
Vem do meu coração que é teu espelho
O meu bem, é bem melhor que tudo posto”


Escrevo-te estas mal traçadas linhas rezando que não leia, mesmo sabendo que lerás, inevitavelmente. Pela primeira vez me refiro diretamente a ti aqui neste Bordel, a ti que guardou uma infinidade de cartas, a ti a quem pertence à maioria dos meus escritos, meus mais sinceros escritos. É que depois de um ano, de repente me vem um vazio tão grande... Não que eu queira voltar, já escolhi o meu caminho. Não posso e nem quero voltar atrás. Já não tenho aquela pureza no olhar... agora eu ando gauche, tão gauche na vida, que nem é preciso inventar nada para fazer literatura. Ando como um anjo torto, um anjo caído. Tu perdeste um homem para que ganhasse o mundo um escritor. Eis este maldito poeta insaciável, boêmio, lírico e pérfido. Gérard de Nerval me escreveu: El Desdichado. Drummond me escreveu num Poema de Sete Faces. Quintana me escreveu fingindo ser sempre ele. Pessoa fingiu que me escreveu e eu, ingênuo, acreditei. Álvares de Azevedo escreveu dois de mim numa só vez. Escreveram-me tanto que eu aprendi a escrever também. Agora eu conheço o mundo, mas nunca tive amor como o teu. Apaixonei-me diversas vezes, na verdade me apaixono todo dia. Julguei precipitadamente ter amado. Conjuguei o verbo amar indistintamente. Mas a vida é assim mesmo, cairei mais vezes nesses mesmos erros, quantas vezes forem necessárias. Tu cairás também. E no final a gente ri.
Mas vezenquando rememoro aquele amor, Amor maior do mundo. Recordo aquele cais seguro, o teu sorriso me abrigando e tudo o que vivemos. Não cabe escrever, foi vivido. Foi vivido com todas as forças. Quero tanto que sejas feliz, mas tanto... Eu abdicaria da minha felicidade pela tua, eu morreria por ti. És a única pessoa que me importa mais do que a mim mesmo. És a única palavra capaz de me arrancar mais que uma lágrima. E quando eu te vires feliz vou me alegrar de todo o coração. Eu te amo mais que tudo neste mundo, e por isso mesmo, não podendo doar-me por inteiro, abdico-te. Não mereces de mim só a metade. Um dia compreenderás os devires desta vida. Não mais te escreverei aqui. Não é do meu merecimento. Não há verso, não há prosa que valha mais que um simples e sincero EU TE AMO!

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Ciclovia

Pintura em tela: DOUGLAS, Rafael. Ciclovia, 2012.

De certa forma, agradeço tua falta de interesse pelas artes verbais. Se lesse o que invento de ti, me abandonaria sem pesar. Se desconfiasse da paixão que cultivo nas entranhas do meu peito ébrio. Embora seja uma paixão somente pela carne. Encantei-me pelo teu sexo, pela tua falta de pudor, nosso tango na horizontal. Exerce com destreza as mais inimagináveis posições sintáticas, multifacetada expressão, suprassumo da volúpia. E eu, todo orgulhoso da obra que roubei adulteramente, te cubro o corpo de elogios. Infidelidade conjugal consumada. Mas demasiado libertina que és, não cederia mais teus favores se soubesse dos meus sentimentos. Tu és realmente um espírito livre. A palavra que sempre procurei para escrever.

Pedalando pela rua, um frêmito desnuda a tua orelha e um raio de sol oportunista aproveita as curvas do teu brinco para se fazer refletir. O vento malicioso pede licença e te descortina o vestido expondo aos passantes tua coxa bela e escura, não mais escura que a relva pubiana rente ao que tens de mais sagrado e que eu profano todo santo dia. O vestido não dá conta de ofuscar a tua pele negra e transparece, deixando à mostra os bicos dos seios, auréolas carnudas, minhas inesgotáveis fontes de inspiração. E o trânsito se confunde, nenhum motorista lê mais os sinais, ciclistas se chocam, barcos atracando no meio da rua, pedestres fazem pouso de emergência no ar...
Musa alheia,
na contramão da ciclovia,
nos tira do sério,
instala o caos e a fantasia.
Observa tudo com teus olhos de ressaca e vai-se rindo pela tarde. Se desconfiasse qualquer lirismo advindo de minha pena... Não devo ousar deitá-la em verso. Seria minha glória como poeta, meu reconhecimento e minha eterna perdição. Prefiro permanecer no anonimato, tecelão desta prosa escusa, ao menos ainda me resta algum domínio sobre o meu ofício, não mais abnegado. E o nosso encaixe é tão perfeito, que ao narrar os nossos movimentos aos ouvintes, todos julgam ser apenas literatura.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Fim

Nocturnal Surprise II (Fabián Pérez)

Nota de esclarecimento: Declaro agora este Bordel fechado! Vou-me embora com meu passo gauche e distante, noite adentro, vida afora. Talvez fazer crônicas para ninguém ler, se ainda me restar o olhar focado sob as coisas inúteis. Ou mesmo tentar a impossibilidade de um verso. Talvez nem isso.

Talvez não as faça com o devido engenho, as crônicas. Contudo as palavras a que se presta um jornalista não o acompanham quando acaba o expediente. Eis o melhor dos meus erros. Tanto fingi ser poeta que acabei ludibriando a mim mesmo e, enganado pela verossimilhança, acreditei ser, não poeta, mas ao menos escritor. Levei minhas palavras ao leito, subjuguei-as a exercer funções sintáticas por mim determinadas, porém acabei me apaixonando perdidamente, semanticamente por uma delas. Tirei proveito poético da minha própria timidez. Mais que isso, com caneta e papel inventei um amor, e dos mais efêmeros. Abalos sísmicos são efêmeros, me alerta o leitor mais atento, e me vejo obrigado a concordar.

Pensando bem nem tão mau escritor era eu para inventar um amor tão efêmero. Há críticos que alegam erros na terminologia, como se ousasse chamar de amor a minha criação que na verdade não era mais que paixão, do mesmo modo como classificar indevidamente como romance um livro de contos. Talvez.

Não, não foste tu o maior dos amores, não embalaste com zelo a rede do tempo, não curaste as tristezas nem dividiste as alegrias. Nem tampouco foste tu a paixão platônica que cultivei por anos afins dedicando-lhe versos e fenômenos da natureza, sentimento abnegado ao qual ainda hoje me esvaio do ensejo do beijo para que, mediante as regras do amor cortês, me porte com a dignidade de um trovador medieval. Nem foste tu aquela que subjuguei em camas de hotel e com arfar de bicho selvagem consumamos o coito e foram horas e dias de gozos, gritos, gemidos, carne, pele, saliva, esperma entre cigarros, bebidas e outras coisas mais. Não foste quem me ensinou a prosear e nem veio sorrateira pela janela trazendo subsídios de cultura. Nem mesmo aquela à qual, com o indevido respeito, dediquei sucessivos poemas e, entre vogais e consoante, escrevi o seu nome com a engenhosidade de um aliciador semântico.

Quem foste tu afinal? A palavra que veio cumprir a profecia. Tão somente aquela que corrompeu a minha escrita e me fez enxergar a vida como poeta, sentindo os poemas na carne e mudando a alma de casa. Aquela que, ardendo em brasa, fez-me compor os mais singelos vocábulos em sua pele jardinada, dilatando para nós auroras e ocasos. Aquela que se ergueu do papel para me cobrir de significados e alterar os conceitos. Aquela a quem dedico todo dia um pensamento, às vezes de pena, outras de admiração, quase sempre de saudade. Aquela por quem eu deixei de ser escritor. E se doravante não tens mais o que ler, a culpa é nossa.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Crônica suja de tinta

Lápis sobre o papel: DOUGLAS, Rafael. Rede, 2011
Roubei-a da parede da galeria e tomei-a no meu colo. Desde então nem penso mais naquelas alvas mulheres de papel que eu outrora gozava. Quero somente o teu corpo tisne. Tua quase ocre textura quando de bruços, semelhante ao pôr-do-sol. Tudo em ti é pura erudição visual. E até mesmo a tua menstruação é uma arte de rubra tintura. Tua boca ruboriza a minha pena e almejo me tornar mais que escritor, mais que poeta, julgo-me um pintor.

Então fazes questão de lembrar-me que não fui eu quem te criei. Pouco me importa, vivo agora sujo de tinta também. Despertas em mim um lado que eu não conhecia antes. Torno-me agressivo, quero tomá-la com veemência, o tempo todo. Este ímpeto inefável de tentar em vão fazer-me o teu criador. E vou rasurando a tua carne com selvageria. Quanto mais tu gritas, mais tesão tenho eu. E bato-a de deixar marcas na tela. E então serás vendida como avaria. Junto dinheiro e compro-te de novo. Levo-a até a minha casa e coloco-te na parede do banheiro. E quando nu fico a observá-la, o meu corpo todo se punge. Saio pra rua e entro no primeiro bar, peço uma dose e mais outra e outra ainda... embriago-me. O rapaz que atende o balcão diz que é hora de fechar e me expulsa. Não tenho pra onde ir, não quero voltar. Acabaram os cigarros, não tenho dinheiro. Deito na calçada e durmo, como um pobre poeta maldito que sonha em ser artista plástico.

Eis que a impetuosa aurora reverbera nos meus olhos com crueldade. É hora de retornar, tenho fome, estou sujo. Preciso dum banho, comida, você. E ao adentrar a varanda encontro-te seminua na rede, as pálpebras descidas e um sorriso doce... lembrando-me um retrato que pintei em outros tempos, em outras cores. Porém desta vez tenho a permissão de ir até o fim e não há nada de onírico neste quadro. Então no embalo da rede eu vou tecendo meus versos etílicos... Só me resta condenar outro poema ao meu viver.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Soneto

E do verbo que te permeia
Teceu os fios do teu pretexto
Embelezando o meu contexto
Em noite de lua cheia

Em passeios à beira mar
Tua mãe te afaga os pés
E gira num calcanhar
Mulher bravia que és

Dos versos que me deslumbras
Eu te dedico este soneto
Por não ter mais que te dar

A ti que de tudo que abusas
Não tens em verdade nada
Pois já criastes raízes no ar

domingo, 22 de abril de 2012

Música

Com todo o respeito,dedico esta prosa sonora para a minha irmã Lissandra, que vive de acordo com as melodias. E isso não é um incesto, é tão somente Poesia.

Lápis sobre o papel: DOUGLAS, Rafael. Senza fine, 2010

Guerra pela posse, talvez essa expressão possa descrever o nosso encontro. Teu corpo, tão raro instrumento. E eu que nunca tive muita aptidão para as artes do ouvido, tenho de me esforçar para tocá-la. Nas tuas cordas eu afino os meus dedos. E quando me canso de apalpá-la com as mãos, te faço flauta, saxofone, gaita de boca. E os teus gemidos soam sincronizados, perfeita melodia.


Desde que te descobri pendurada na parede, eu me viciei nas tuas notas. Procurei ao redor partituras, mas nada encontrei. Então, tive de improvisar. E o improviso se tornou a nossa canção mais pedida. Ouço tocá-la nas rádios, am’s e fm’s. Escuto-a nos bailes, nas serestas. Caímos na boca do povo, mesmo não sendo populares. Depois nos levaram para as cortes e palácios do medievo. Versaram-nos com alaúde, em trovas e serenatas. Em seguida fizeram-nos clássicos, deitamo-nos nos pianos do século XIX, voluptuosa erudição. Depois disso, modernos, nossos acordes em solos de guitarras e os berros sem pudor soavam nos amplificadores. Gravaram-nos em vinis. Por fim, contemporâneos outra vez. Remasterizaram-nos. Andaram criando versões da gente por aí. Nossa estrada agora é um sopro, ao sabor do vento, de orelha em orelha pelas ruas vamos assoviando melodias aos transeuntes distraídos.


“O homem por cima da mulher, ambos tão delicados, interpretando um dueto de tímidos gemidos. Ela como as cordas de um violino e ele percorrendo-lhe o corpo, da cabeça aos pés. Fá num chupão de orelha, Mi num beijo nas coxas, Sol numa lambida nos peitos, Lá numa mordida de lábios, Si em fungados na axila...
Ao entreabrir os olhos, novamente o homem perdia o comando. Porque ele não conseguia acompanhar as notas altissonantes e bárbaras da mulata”

Paulo de Carvalho-Neto, em Suomi

Adultério

Vejo que aceitaste de bom grado o que te sugeri. Agora temos alguém através do qual consumarei mais um adultério semântico ao qual me proponho. Apenas mais um, como foram seus antecessores. Afinal, não é recente que me faço teu amante verbal, e confesso que acho bem mais divertida essa condição. Coitado, nem desconfia dos partos que farei entre as tuas pernas. Nem lhe passa pela cabeça que a mulher que tem ao seu lado anda grávida da minha prosa maldita por toda a eternidade.

E não é que me serviu de alguma coisa aquele poeta lírico e ridículo ao qual tu arrancaste uma das asas?! Ponho-me a pensar nas inevitáveis comparações que surgirão quando ganhares um presente desses que se compram nas lojas com aquilo a que chamam dinheiro. Quando te derem um buquê de flores, lembrarás que outrora ganhaste um jardim inteiro roubado no orvalho da aurora, de flor em flor, de rua em rua, e entregue com suor, invasão de condomínio, beijo na boca, colo e pedido de namoro. Quando receberes alguma carta com palavras entre aspas, dessas que transcrevem as pessoas comuns desprovidas de imaginação, recordarás não uma carta, mas o pedaço de chão que lhe foi concedido com escritos no original que só ao Mar pertencia o direito de apagar. Quando fizeres sexo lembrar-se-á dos transes que te levaram aos rios oníricos e que ao retornares ao cais ainda tinha-me dentro em ti. Nem imaginas o quanto me regozijo ao pensar sobre isso.


Ao menos tenha a discrição de não mais comentares nada, não aqui. Já que a pior das traições anda cometendo justamente neste exato momento em que os teus olhos ávidos discorrem por estas linhas e forma no rosto essa expressão mista de desprezo e admiração. Colocar-te-ei na boca a minha pena quando eu quiser. Não tens como fugires desta sina
.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Encontro

Aquarela: DEBRET, Jean Baptiste, Auto-Retrato Taberna, 1816

Ali estávamos nós, uma vez mais. Ofereci-me algo para beber, um de mim não aceitou, o outro sim. Aguardávamos o terceiro. Um de mim fumava, o outro não. Preferia contemplar com calma os frisos que tomavam uma das paredes do Bordel. Um de mim abusava semanticamente de toda palavra, o outro as tratava com distinto respeito que demonstrava superioridade.

Enfim chegou o terceiro, já era tempo. Escorou-se na porta da taberna. Era um anjo torto. Trazia uma asa arrancada, sempre do lado esquerdo. E ria do sangue ainda quente que não cessava de escorrer, lirismo cruel.

Disse com desdém o primeiro: “Senta-se nobre Poeta, e sintaxe à vontade. Sirva-se de ópio, absinto, haxixe, spleen. Sirva-se dos olhos lânguidos, de um par de coxas, dos seios volumosos das mulatas, das ruivas... e declama-nos um dos teus poemas.”

O segundo, o velho, nada dizia. Continuava em profunda contemplação dos frisos laterais.

Ao que disse o terceiro: “Outra vez arrancaram-me a asa do lado esquerdo e já não posso voar com destreza. Meu vôo é torto, difícil e tão gauche quanto o meu destino. Resta-me acolhê-lo sem pesar.”

De novo o primeiro, o teórico, formalista, maldito: “Apenas estás a colher o que plantaste com zelo. Eu te disse que não versificasse teus poemas. Acreditas em qualquer estória que inventas. Nunca fizestes sexo como eu faço. Devias abusar da prosa e divertir-se com estas meretrizes, mas tão logo compôs em versos, amastes. Foi a tua perdição.”

O lírico: “Cala-te! Maldito, não sabes o que é o amor. Nunca amastes, o que faz é superficial em demasia, estes desvios na linguagem, essa estética proposital, se põe a abusar das palavras, enganá-las com essa prosa torpe, fria e calculista. E vive nas tabernas, embriagando-se como um animal sedento. Não sabes escrever outra coisa que não um corpo de mulher. Nenhuma delas te amou, apenas usam teu corpo e tua pena por seres o melhor no que fazes. Mas tu nunca penetraste na alma de alguém, não sabes o que é um seio palpitando junto ao teu, não sabes o que é deixar-se levar pelo sono para dentro dela e acordares velejando em rios oníricos...”

O velho riu, mas não teve maldade no riso. Apenas a sabedoria de quem contempla uma ampulheta. Um riso de água doce.

O maldito: “Faz-me rir. Ao menos não é em mim que falta um pedaço agora. Teu lirismo exacerbado me dá nojo. És tão passional e ridículo, tens muito que aprenderes ainda com a poesia. Fazei o seguinte: queima estas cartas, guarda teu jardim, desfaz este jardim que vinha cultivando silenciosamente, ele de nada serve agora. Permita que a minha prosa sirva este bordel por um tempo, deste modo ninguém sofre e todos se divertem. Dá-me a tua mão, vem comigo, dividirei contigo as minhas adúlteras palavras. Desde logo te proíbo de tecê-las em versos. Apenas observa-me e fazes o mesmo. Juro-te que logo estarás curado. Agora beba.”

O velho despediu-se calorosamente e foi embora. Um ciclo se findou. Seu riso desaguou no mar.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Ausência

Mais um dia. Coloco Chopin na vitrola e me ponho a andar dum lado ao outro nesta sala cada vez maior e mais vazia. São feitas as honras, devidas homenagens ao intelectual eminente que o Estado perdeu. Não consigo sentir deste modo, o que perdemos foi um amigo querido que nos recebia com um bom dia cheio de ternura e a quietude deste teu olhar tão sábio. E em meio aos oportunistas discursos dos políticos e às representações sociais tão alheias à dor da família, vejo o teu verdadeiro amigo, Seu Murilo, a um cantinho com o olhar distante, noutros tempos, certamente lembrando alguma peripécia que aprontaram juntos. E isso me traz ao lábio um benevolente riso de compreensão. Uma das coisas que eu não te contei é que também sou poeta. Sendo assim prometo-te um soneto.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Rubiácea

Pintura em Tela: DOUGLAS, Rafael. De alma lavada e passada, 2010.

Desde que aceitaste tão profana viagem que já não consigo mais sobreviver sem o teu corpo, morena. Nosso crime é perfeito: adultério semântico. O que me incomoda um pouco é não te interessares pela minha literatura, mulher ingrata, inculta. Parece mesmo que não necessita ler meus poemas, exercendo-os na pele. E eu te escrevo com tamanho empenho, te visto de figuras de linguagem e te faço soberana dos nossos territórios conquistados, ao que tu te despes sem a menor cerimônia e quer de mim apenas o falo. E eu, já sem valor, te concedo a pena sem a menor resistência. Subjugar-te-ei em camas de hotel e com arfar de bicho selvagem consumaremos o coito e serão horas e dias de gozos, gritos, gemidos, carne, pele, saliva, esperma entre cigarros, bebidas e outras coisas mais.

E eu leio teorias, faço estudos profundos, consulto dicionários, para te versificar com mais engenho, tudo em vão, sáfaro animal que és. E eu me instruo em geologia querendo descobrir o solo mais fértil pra te cultivar. Faço-me agrônomo, consulto as estações, a fase da lua, os astros, estendo a minha mão para as ciganas lerem nas rodoviárias. Por fim aro com suor a terra e planto-te, irrigo e cultivo prestando atenção em cada desabrochar, tudo em vão. Tu só queres de mim a hora da colheita. Deseja com volúpia a safra dos teus grãos, rubiácea esfumaçada da manhã.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Esconjuro

Pintura em tela: DOUGLAS, Rafael. Vingança, 2011.

"Ela há de rolar como as pedras Que rolam na estrada Sem ter nunca um cantinho de seu Pra poder descansar", foi o que te disse o compositor. Como se não bastasse a profecia, vem o pintor e instala tua sina na parede da galeria para que todos vejam. E os amantes da arte parecem sete corvos ao teu redor. Permita que eu me apresente, sou um velho poeta decrépito, boêmio e lírico, me chamo Beckovski e matei a poesia. I like a rolling stone.

Devo dizer que preciso de uma palavra. E assim que adentrei a taberna, te avistei e me encantei pelo teu lânguido retrato. Parece promíscua o suficiente para me acompanhar pela madrugada afora. Se o quiseres, prometo sonetos e elegias nesta pele acetinada, musa de ébano. Sob a égide do nosso gauche destino, invadiremos feudos, saquearemos aldeias, tomaremos cidadelas devastadas e pilharemos navios mercantes. E então, mulher pincelada, aceita o peso da minha pena na melancolia e na tristeza, na moléstia e na doença, na mendicância e na pobreza?

domingo, 8 de abril de 2012

Telegrama V

Para quem não cessa de ler-se, mirando-se no espelho. Para a tua vaidade e falsa modéstia.
 “Tomei-a nua, fria e bruta como o escultor uma pedra de mármore... e a visão que vesti com a gaze acetinada das minhas ilusões, a estátua que despertei do seio da matéria, não estava aí. Estava no meu coração e só nele. Fi-la bela, dessa beleza divina que Deus me ressumbrou na alma de poeta.”
Páginas de Penseroso, em Macário (Álvares de Azevedo)

Escrever-te é um vício do qual não me privo. Mas daqui por diante, ainda que bêbedo e lírico como de costume, não te destino mais a palavra oral. Não no que se refere a este insano ato de metalinguagem. Como já disse em labaredas, a palavra oral é despretensiosa, irresponsável, se dedica apenas aos deleites momentâneos, depois se esvai e raramente resta alguma prova cabal do ato consumado, quando muito uma marca de batom se o orador em questão for um tanto quanto descuidado. Permita apenas prostrar-se no papel e deixe tudo sob o meu encargo. Use a alcunha que desejar, seja rasa o quanto puder, que a tua profundidade eu invento em variações hermenêuticas que te profanam. E eu pacientemente esperarei pelo anonimato ou não dos teus comentários. Se quiseres continuar tecendo-os em meus ouvidos, sintaxe à vontade.

Mas cansei de enviar telegramas. Sou sempre aquele pobre poeta precário a conferir em vão as caixas de correio. Não é recente que esta prosa se tornou repetitiva. Preciso de uma palavra nova, que não se prive. Uma palavra que tenha o espírito livre. Uma palavra realmente imoral, impetuosa e significativa. Lirismo não basta. Desejo uma palavra que exerça todas as posições sintáticas sem pudor. Eu somente acreditaria em uma palavra que soubesse dançar.

“Se não fosse assim, seria essa estátua uma mera
Pedra, um desfigurado mármore, e nem já
Resplandecera mais como pele de fera.
Seus limites não transporia desmedida
Como estrela: pois ali ponto não há
Que não te mire. Força é mudares de vida”.

(Torso arcaico de Apolo - Rainer Maria Rilke)

Espelho

Para quem quer que enxergue aí a verossimilhança
De que classe gramatical seria tu, não fossem os afagos da minha pena? A que narrativa insossa e linear pertenceria, não fosse esse poeta que te inventa? Se dependesse das mãos que habitualmente te rascunham, que palavra triste seria: lívida, gélida, comum. Essas mãos denotativas tentam em vão poetizar, tentam sem êxtase imitar o que faço tão singularmente, mas acabam sempre reproduzindo, criar não sabem. A criação é para poucos. A criação é para homens elevados. Um terceto que invento vale mais do que páginas e páginas dos vossos escritos. Em um quarteto te penetro no corpo e na alma, coisa que não conseguiriam nem se publicassem livros, manuais, enciclopédias.
Então responda-me: porque se privar do meu gozo? Porque continuar essa enfadonha narrativa? Porque permanecer ao lado de homens sóbrios? Homens que precisariam se drogar para se sentirem criadores... Seres que não vislumbram nos teus gestos calculados o incalculável lume de poesia. Homens que não te enxergam além do que és. Seres que não te inventam.
Dispa-se das vestes, desamarre o cabelo e detenha-se frente ao espelho. Observe a si mesma, teu corpo nu, a crueza destas curvas que alinhavei em prosa e verso, cada assonância que bebi dos teus mamilos, cada um dos pêlos que aliterei no teu púbis e os enjambements que intercalavam nossos orgasmos enleados. Que me diz?

“E a sagacidade era sua
Aspiração vã e frívola
De agradar aos outros
Às suas próprias custas”

(John Wilmot in O Libertino)

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Telegrama IV

Para a prosa que nos meus braços se fez poesia
Sinto muito, mas este súbito afastamento é necessário. O que queres de mim, eu não devo mais te conceder com tanta frequência. Tornou-me um vício. Voluptuosa que és, deseja ser escrita o tempo inteiro. Queres a minha pena sem cessar. Libertino que sou, quero bem mais do que estas prosas que só me retardam o gozo. Quero a tua página aberta com veemência, quero santas fogueiras ardendo em praça pública, quero a inquisição do teu olhar e morrer de uma só vez como os mártires. E o meu nome será conclamado nos templos com fervor, como aquele que morreu por... Portanto não devo mais te deitar no papel com fins meramente literários, destarte só o faço com segundas intenções.
Não que me falte atributos poéticos para tanto. Na verdade não faço mais do que o trabalho de parto em teu ventre. És tu quem carrega os poemas no útero, desde que te engravidei semanticamente. Mas se gostas tanto assim de ser escrita, sugiro que procure outro profissional das letras, quem sabe um escriba, talvez um revisor ortográfico, ou mesmo um jornalista... Esses coitados criarão meus filhos bastardos pensando serem deles, com menor qualidade estética obviamente, dada a incapacidade de transcenderem a significação básica das palavras, denotativos e moralistas que são. Poetas não, poetas como eu já nascem póstumos; não encontrarás um sequer que ainda viva. Poeta bom, meu bem, é poeta morto.
Não entendo o motivo do pranto, se foste tu mesma quem quis assim. Te oferendei meu coração ainda pulsando, minha alma despojada como espólio e meu corpo nu no altar da insensatez. Pior do que isso foi descaracterizar a minha escrita. Aceitei-te como palavra única em meu bordel, te concedi o meu verbo e que fizesse uso da minha pena como bem entendesse. Tão logo se satisfez com a catarse, abandonou-me sem mais interpretações. E sem mais encomenda textos como se eu não tivesse outras palavras pra escrever. Meu preço agora é justo!
Mas trata de secar a lágrima, a despeito deste sublime escritor a inventar outras palavras, existe ainda aquele poeta sujo, vil, cego e burro que segue cultivando silenciosamente o teu jardim, a te fazer agrados de hermenêutica e dar à luz aos versos que simulam cortejos, estantes e estórias improváveis. Até logo.

sábado, 31 de março de 2012

Labuta

Certa vez um filósofo que não era grego e ainda menos clássico cunhou o seguinte aforismo: “Um homem tem na vida que decidir entre dois pêndulos: Ou segue o relógio; Ou escuta o coração.”

Escutei o coração. Pois que toda a minha vida tem sido a maldição desta sentença. O que disse o meu coração? Poesia. Por culpa da poesia perdi a minha mulher. Por causa da poesia inventei um amor e fiz de conta que era literatura. Por conta da poesia escrevi outras palavras... Acabei por me tornar rufião de bordel. E agora vivo assim como num conto.

Resolvi então consertar meus ponteiros e arrumei outro emprego. No turno matutino já é sabido que carrego coisas, bom labrego que sou, realizo tarefas braçais das quais depende toda a estrutura social, especialmente a ociosa e improdutiva burguesia que, sem homens suados como eu, morreria de sede. Contudo consiste o emprego vespertino em fazer companhia aos fantasmas, quando bailamos de acordo com as sinfonias dos vinis, recitamos poemas uns aos outros e tecemos versos, serviços intelectuais dos quais depende toda a estrutura social, especialmente a laboriosa e produtiva burguesia, que não fosse homens inventivos como eu, morreria de enfado. O pouco que me pagam para essa erudição forçosa mal dá para o pão e a cevada. Penso que para o bem das horas que me restam devo me demitir. Porém continuo me escrevendo...

quinta-feira, 29 de março de 2012

Telegrama III

Para aquela que chega mais molhada quando vem de longe.

Bem sabes que nem toda palavra que deito sobre o papel eu escrevo. Exijo delas ressonâncias, profundidade semântica. É preciso que eu vislumbre em qualquer despretensioso gesto o lume de poesia. É preciso que um arrebol preceda cada cerrar dos cílios e que placas tectônicas se movam ao menor afago. Só então empunho minha pena e traço sob a superfície intacta as primeiras glosas.
Tal propensão eu encontrei nos poros da tua pele alva. Tão logo a metaforizei em concretudes vicissitudinárias, quando ainda mau poeta era. Não tão medíocre que já não sublimasse o teu nome em profanos escritos. Por anos afins dediquei-lhe versos e fenômenos da natureza, sentimento abnegado ao qual ainda hoje me esvaio do ensejo do beijo para que, mediante as regras do amor cortês, me porte com a dignidade de um trovador medieval. Enfim compus a prometida trova, não tão despudorada que lhe umedecesse o tecido, mas o suficiente para tirar-te do lugar conforme me confessou que sempre faço. Admito que tal proeza não seja para o meu ofício lá muito difícil, dado a linearidade dos textos que compõem este lugar comum que habitas. Singular palavra que és, merecias uma ordenação mais elaborada da linguagem.  Algo como um altar, uma coroa de flores e um vestido estampado... não, esqueças o vestido, não terá serventia para os fins escusos aos quais me proponho.

 Dado que és dama de alta fidúcia não lhe és permitido tecer comentários que não sejam nos meus ouvidos, fingindo gozo e chamando-me Poeta. “Já que tem de ser, que seja em segredo” diziam as freiras enclausuradas nos conventos durante o medievo. Tais arcanos só se prestam a confundir ainda mais os meus devaneios, creio ser vaidade do teu ego para manter-me incólume a dedicar-te esta lírica trovadoresca. Ao menos servem para preservar a cumplicidade em nossas inefáveis trocas de olhares.

Quanto ao trato com frieza que me reclamas, parafrasear-te-ei nosso vate predileto: desconfia destes poetas que se fingem tíbios. Trata-se de uma frieza profissional e tão suspeita como a exuberante alegria das coristas. Bom farsante que sou, escondo aos presentes meu ardor interno, pois se não o fizesse poria abaixo todo esse vil empenho em parecer provençal.
Por fim venho lembrar-te um pretexto antigo que te concedi: Deixe que eu te toque com as mãos, mas jamais admita que uma só palavra minha penetre em teu ser, pois assim estará corrompida para sempre, e quem o disse foi Neruda, um mentiroso mais sincero do que eu. Conceda apenas o afago dessas calejadas mãos de operário semântico, de modo que permanecerá intacta em sua pureza de menina doce. A julgar pelas confissões que me fez, creio que já seja tarde.

domingo, 25 de março de 2012

Os Sete Corvos


DOUGLAS, Rafael. Os Sete Corvos, 2008.

Sob a noite enluarada
O nosso clã vagueia
Ruazinha acima
Um poste encandeia

E assusta um fantasma
Em plena madrugada
Ao ver livres espíritos
Rolarem pela calçada

quarta-feira, 21 de março de 2012

Trova

“Amor tão disparatado
Desbaratado é que é...
Nunca a sentei no meu colo
Nem vi pela fechadura.

Mas eu sei quanto me custa
Manter esse gelo digno,
Essa indiferença gaia
E não gritar: Vem, Fulana!”
Mia senhora
Fez-se alva e serena
Chuva que vem de lá
Deitar rebentos no poema

Sempre sem hora
A suceder as tempestades
Cobre os acasos
Sob o véu das minhas vontades

E eu me disfarço
Dum trovador provençal
E faço mesuras
Ai que amor medieval

Não tenho alaúde
Nem tu és palaciana
O pouco que pude
Foi revê-la esta semana

Suja de tinta
Esboço de plenitude
Traço inerente
À tua vil magnitude

O meu vil comedimento
Até quando agüentarei?
Manter esse gelo digno

E fingir que nada sei

Confesso que meu desejo
É tua veste arrancar
Tocá-la com realejo
E ao povo depois mostrar

Confesso que o meu querer
É o teu ventre deflorar
Colher-te do solo estéril
Sem tua sanha despertar

Confesso-me teu vassalo
A transgredir as convenções
A desposá-la num papel
Basta de tantas confissões

Destarte continuarei
Fingindo não te escrever
Tua prez preservarei
Enquanto finges não me ler

Do ensejo me esvaio
Do teu beijo molhado
No teu golpe eu não caio
Estou perdido ou perdoado?


“Como deixar de invadir
Sua casa de mil fechos
E sua veste arrancando
Mostrá-la depois ao povo

Tal como é ou deve ser
Branca, intata, neutra, rara
Feita de pedra translúcida
De ausência e ruivos ornatos”

O Mito - Drummond

segunda-feira, 19 de março de 2012

O Libertino

Não peças
Para que eu seja
O poeta do amor
Das coisas afáveis
Serei o poeta das putas
Porque é preciso haver poesia
Entre os abrires e fechares de pernas
Porque é preciso haver metalinguagem
Para que as coisas não se tornem meras
Vul ga ri da des

Traz nos ombros lembranças de velhos amores e outros escritos. Traz nos olhos confissões de que viveu sem se preservar. Traz na pele inscrições de abandono, descuido, excessos. E no riso traz delírios, traz nos beijos labirintos, nas mãos as ilegíveis linhas do tempo, nos pés tessituras de longas caminhadas. Alguém que fora um dia autor de várias personagens, que se fez delas enredo e acabou por se perder dentro dos cenários criados. Já não é possível viver outra coisa que não poesia, maldição.
Não será o poeta de uma palavra só. De modo algum abdica da carne dos seus amores literários, fazem parte do vasto vocabulário que exige a profissão de rufião semântico. Quer todas ao mesmo tempo, só assim é viável escrever um texto. A palavra solta, cultuada em única forma, não fomenta a literatura. Só é possível ser lido se houver poligamia textual. Mãos que o virgulam, pernas, parágrafos, coxas, seios de exclamação, gônadas de interrogação... E os termos vão se relacionando adulteramente até constituir orações com sentidos dúbios e diversificados. Amplo é o campo semântico de quem propõe amancebar-se.
Não esperará pelo acaso, ainda que casualmente lhe ocasione alguns casos. O acaso é tempo demais pra esperar. Quer a vida agora. Quer o sumo destes pomos, o sulco desta terra fértil, o vil odor destas secreções impregnando os tules, hastes de tulipas distribuídas nos cinzeiros do bordel e o suprimento etílico nas tabernas esfumaçadas.
Largou mão de ser escritor e agora vive como poeta, de flor em flor, vagando sem rumo, com rimas. Porque até mesmo um canalha precisa de afeto. Como aqueles homens do povo que adentram os lupanares em busca de afago para suas vidas sem sentido, assim também o é.


“Não há melhor túmulo para a dor do que uma taça cheia de vinho ou uns olhos negros cheios de languidez” Álvares de Azevedo em MACÁRIO.

domingo, 18 de março de 2012

Ah mar

“Tudo somado, devias
Precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.”
Drummond
Fotografia: Nielle Trindade

Porque eu
que nem sei nadar
estas águas
ando sempre a contemplar?

Qual o motivo
destas naus perdidas em mim,
Qual o sentido
destas gáveas e mastros sem fim?

Diz-me o porquê
dessas rotas que me traçam...
Logo eu que não faço mapas,
que os entrego às traças.

E nos meus pulmões sopram velas,
e o meu peito se fez proa,
e no meu casco dizeres,
manuscritos, haicais...
E no meu leito, cais... 
Sereias caem.

E dos meus braços lançam redes...
E os meus pés tocam náufragos...
Onde a foz destes rios oníricos?
Que detritos levam?
Velam qual lirismo?

Deve ser porque o mar
também não sabe nadar...
e por isso fica
dum lado ao outro a oscular
as beiras,
sem saber na qual deitar.

Há tanta coisa ainda pra escrever...
Há mar
Mas você me navegou
mares tão profundos
e eu fiquei sem rumo
e eu fiquei sem chão.

*Por sugestão de Nana Rodrigues, que ao ler minhas prosas, o faz em versos, pois em versos é que se dispõe a sua alma.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Há mar

"O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua."
Drummond

Porque eu que nem sei nadar ando sempre a contemplar as águas? Qual o motivo destas naus perdidas em mim, qual o sentido destas gáveas e mastros? Diz-me o porquê dessas rotas que me traçam... Logo eu que não faço mapas, que os entrego às traças. E nos meus pulmões sopram velas, e o meu peito se fez proa, e no meu casco dizeres, manuscritos, haicais... E no meu leito, cais... Sereias caem. E dos meus braços lançam redes... E os meus pés tocam náufragos... Onde a foz destes rios oníricos? Que detritos levam? Velam qual lirismo?
Deve ser porque o mar também não sabe nadar... e por isso fica dum lado ao outro a oscular as beiras, sem saber onde deitar. Há tanta coisa ainda pra escrever... Há mar.

 
"Mas você me navegou mares tão diversos
E eu fiquei sem versos, e eu fiquei em vão"
Chico Buarque de Hollanda