quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Lembrança

“Compreendendo que a função de toda gaveta é de suavizar, de aclimatar a morte dos objetos, fazendo-os passar por uma espécie de lugar piedoso, de capela empoeirada onde, sob pretexto de os manter vivos, arranjamos-lhes um tempo decente de triste agonia” _________ Roland Barthes
E foi num dia cinza, com a chuva chamando na vidraça, que me lembrei daquela gaveta. Uns discos, um livro, uma fotografia em preto e branco. Mais três cartas e uma caderneta rabiscada. Cinco elementos incapazes de contar uma estória. Mas são estas quinquilharias que tentam em vão convencer-me de que não foi um sonho... E se eu te inventei? E se, em meu afã de desmembrar-te em versos, fiz da tua pele o papel? E se desde então a saliva que te oferendam não tem outra função que o virar da página? De repente percebi que já não lembro a tua voz nem nossos planos. Sobrou-me na memória um mosaico difícil de amenidades: um telefonema, uma dedicatória, um riso no momento preciso... Nada que reconstitua a tua imagem no meu olhar. Já não és palpável ao ponto de versificá-la com engenho. Mas prometo uma prosa já murchinha na janela, enquanto me lembrar de ti. Tivesses sido apenas mulher e eu recordaria a cor lilás, o suco de mangaba e outros pormenores que compõem o cotidiano, dilatando-o. Mas tu foste palavra! Soubeste tirar de mim a eternidade.

2 comentários:

  1. Queria poder expressar aquilo que senti, que estou sentindo, digerindo, enquanto escrevo, essas palavras vãs... Calo

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  2. Nada jamais continua. Tudo vai recomeçar! E sem nenhuma lembrança das outras vezes perdidas, atiro a rosa do sonho nas tuas mãos distraídas
    Mario Quintana

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"Respeitar o trabalho do outro consiste justamente em submetê-lo à crítica mais rigorosa" (José Borges Neto)