domingo, 23 de dezembro de 2012

Dry

Capa do Álbum "Aldir Blanc - 50 anos"


É sempre o mesmo sussurro pendurado na janela: ALUGA-SE. Ela abre a porta e coloca a primeira consoante no corredor, espreita... e só então deixa a vogal à mostra. Cá dentro o infindável cigarro entre os dedos vai brasando. Em todo retorno há algo de derradeiro, talvez motivado pela nossa concepção quase metafísica dos pormenores... Mas a troca de olhares é conjunção rompendo o devaneio como fosse um hímen. É sabido que ela veio outra vez pedir emprego na minha escrita. A vida fora deste recinto é confortavelmente denotativa, enfadonhamente denotativa. E palavra que se preza se disputa. E bem sabem os leitores que, confinada neste antro, palavra que sê puta, não desprezo. Porém, tal caso exige uma dose de ponderação. Peço que me sirva e enquanto se curva buscando a garrafa, faço dela pronome oblíquo, complementando-a com meu pronome reto, para seu gozo e deleite literário. É preciso esclarecer que o sujeito da oração sou eu, ainda que falido e ébrio, há um resto de prosa na algibeira.

3 comentários:

  1. Traga mais uma garrafa desse bom vinho... A velha e boa língua portuguesa ainda causa prazer. Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três... E se disputa a palavra nua, sedutora língua que se virginifica pela criatividade.

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  2. Adorei o seu texto! Ele é misto de poeticidade e literariedade... Aproveito para desejar um feliz 2013 e que você desvende os dias misteriosos desde ano ímpar. Abraço fraterno, Jasanf.

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"Respeitar o trabalho do outro consiste justamente em submetê-lo à crítica mais rigorosa" (José Borges Neto)