sábado, 4 de setembro de 2010

Conto

"Tanto andam agora preocupados em definir o conto que não sei se o que eu vou contar é conto ou não, sei que é verdade" (Mário de Andrade)


Embora prefacie os dias sempre ao leste, a aurora tem como pano de fundo personagens diversos. Reverberam os primazes raios de sol naquela estrada ao norte enquanto abrem-se olhos fatigados. A cachaça que afoga as mágoas e afaga as chagas, desconsiderando-se a perspectiva diacrônica, conserva mais inocência que os quinze segundos de transcendência procurados num hai cai.
Não escrevia há meses, valia-se das velhas prosas poéticas e versos descabidos de outrora. Comumente se flagravam os versos alheios que a mão sorrateira levava ao bolso. Vivia das aspas roubadas. Mas as palavras, por si só, tinham o abandonado.
Era um fato do qual não podia queixar-se, denunciado pelo próprio sufixo. Oh, pobre homem! Como se nota não poderia acreditar em inspiração, nem mesmo as que lhe tomam de assalto a janela... Quintana, Pessoa, Drummond, Bandeira ou de Barros, todos vis, torpes escarros, já de nada mais lhe serviam. A chuva de Maiakovski não mais lhe afagava a face. Necessitava qualquer pretexto para trajar aquela forma estética. Tampouco queria ser lido, fingia que não queria.
Ah, as palavras, doces putas de outrora! Cobram em demasia seus honorários. Há que ser hábil, combinar o preço antes de consumar o fato e retardar o gozo até a última linha, então clímax, orgasmo lírico, ápice, rima, ponto final. Fingimento outra vez, simulacro. Se bem soubessem os poetas acabariam seus textos com vírgulas.
Se bem soubessem as vírgulas não se prosternariam aos poetas. Há que ser hábil e cobrar antes de consumar o fato, só então precipitar o gozo. Fingimento outra vez. Corro o risco de parecer prosaico, mas os melhores poemas são aqueles que se escreve com a pena em riste.
Sem reminiscências, a despeito deste bordel semântico, o que te falo é conto. Destarte há que se justificar o proscênio.
Pois bem, deixe que eu vos apresente nosso desditoso herói, réu confesso. Chama-se J. Beckovski e matou a poesia. Vate, antes por diletantismo que por formação cultural, integrou um esquema de corrupção de palavras, aquilo que os linguístas chamariam uma desconformidade entre significantes e significados. Alega em legítima defesa que no início de tudo era o verbo, vocábulos em santa porfia!
Eis o que a escrita faz com as pessoas. Em uma espécie de esquizofrenia voluntária, um artifício urdido para fugir da loucura real, criou heterônimos que se fizeram existir para além dele, rimando mesmo na ausência de vogais e transcendendo a "literaturidade" do suposto criador. Tão cético era Beckovski que duvidou da própria existência, em um plano mimético onde criador e criatura se confundem e tudo finge que acaba em monólogos à beira mar. De fato o próprio Beckovski se fez pseudônimo de alguém por ele lido e desnudado em variações hermenêuticas que lhes dissimulam ainda hoje. Há também aqueles heterônimos lidos por ninguém, cuja periculosidade se revela em um sentido extra moral. Dizem as más línguas que tenham escrito para a posteridade.
O horizonte contemporâneo é uma arte abstrata esculpido em concreto, o que obriga o relógio sem ponteiros a prostrar-se mais cedo para desposar o oriente ainda letárgico. A Dama de Branco se ergue sacrílega a puxar seu manto negro, grávida da eternidade. Tem os pelos pubianos eriçados, pois bebeu um chá conradiano em oferenda a Baco. É o crepúsculo e as possibilidades de interpretação que ele anuncia. Submeter a obra ao crivo da mais severa crítica denota respeito e muitas vezes simular com denodo a verdade se faz mais necessário que qualquer benevolência pusilânime.
_"Nada mais sou que um método catártico usado em vossas vidas por aquilo em que não creio. Procrastinar-me-ei na própria cor vadia, demasiado humano!" así habló Beckovski.

"se não tivermos uma idéia viva do que é o conto, teremos perdido tempo, porque um conto, em última análise, se move nesse plano do homem onde a vida e a expressão escrita dessa vida travam uma batalha fraternal, se me for permitido o termo; e o resultado dessa batalha é o próprio conto, uma síntese viva ao mesmo tempo que uma vida sintetizada, algo assim como um tremor de água dentro de um cristal, uma fugacidade numa permanência." (Julio Cortázar)

15 comentários:

  1. MUITO BOM!

    E ele certamente não viveu os tempos atuais da poesia concreta, dos parênteses antes da primeira estrofe. Dos inúmeros símbolos para substituir palavras. Rimas? Ainda existem mais poucos as usam.

    Adorei, Luciano!

    Beijos

    Mirze

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  2. Texto barroco, dramático, moderno... tudo fazendo conexão numa corrente de letras e imagens...

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  3. Depois de tanto tempo...
    Isso merece um brinde!

    Porque nem cabe mais rasgar as sedas...
    beijo

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  4. Palavra dança, rodopia, canta, salta e se transforma em texto poesia na sua prosa doida. palavra sente, palavra chora, palavra demora, palavra vem e fica. Bem aqui...rs

    Sua palavra, quando corre caminha, quando sobra, aconchega-se na mão e faz alquimia


    Poeta é o teu equilíbrio. Já disse, né?

    beijo

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  5. proximo de beckovski e Juliano "Beck" parente cnsaguineo do já citado, sou poeira nos sapatos destes dois gigantes!... Sou em minha raquitica força, o presenteado ser conradiano que muito ficou agraciado. Obrigado amigo!!!!! Alles gut mein freund.

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  6. De uma preciosidade tão grande, que mil palavras não descreveriam.

    Beijão Juliano!!!!!!

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  7. blog de boa leitura ...!

    voltarei sempre !

    abraços !

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  8. Oi , Juliano !

    Lindo texto , dispensa comentários .


    Bjo e Te Sigo ...

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  9. "Em uma espécie de esquizofrenia voluntária, um artifício urdido para fugir da loucura real, criou heterônimos que se fizeram existir para além dele, rimando mesmo na ausência de vogais e transcedendo a "literaturidade" do suposto criador."

    que belo..

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"Respeitar o trabalho do outro consiste justamente em submetê-lo à crítica mais rigorosa" (José Borges Neto)