quinta-feira, 23 de abril de 2026

Flores

Arte por: autor desconhecido

A noite ali tateia com mil cores
Meu olho ela alucina, ó insensata
As formas das palavras que desata
Disformes, cultivam na mente flores

Vejais, aonde flores tu, sem data
de volta, só a viagem, seus vapores
Quimera do prazer, livre de amores
Orgíaco labor que o sonho acata

Acordo noutra esfera, simples, mente
Desfeita dos matizes que alucinam
Lisérgico labor de um pobre enfermo

Ouvia sobre o coro da serpente
Mas sonhos são cruéis, sempre terminam
E resta só a memória, ó lugar ermo

sábado, 7 de janeiro de 2023

Vespertina

        Há uma hora amena no bairro. Não sei lhe precisar qual é, pois nunca a olhei no relógio. A conheço pelo barulho e advirto: há uma hora amena no bairro. Em algum lugar da tarde, todos os dias quando se cruzam os ponteiros, eu deixo o texto e chego à janela do apartamento. Carros passam ao longe compondo inerte música de fundo, é sempre a mesma. Degrau por degrau a bengala de seu Aroldo desce as escadas, recebida pelo repetido cumprimento vago de um vizinho dos blocos do trás. Então eu já sei que o cachorro vai latir e subo meu olhar pela senda tortuosa que leva e traz as esperanças do morro, onde as crianças em algazarra jogam bola com traves de chinelo e quarto árbitro a postos no meio-fio. Pipas reclamam na vastidão do azul a falta de vento por causa dessa hora amena. Jovens descem com estampado sorriso de recente gozo e sem pressa se botam a pé no caminho da praia. Alguém encosta a bicicleta em frente à mercearia pra comprar cigarros e uma água sanitária. Sai e retorna perguntando se tem fósforo. Um gato se espreguiça em frente ao balcão. Um rádio no andar de baixo e volume mínimo se desliga, sem interferir na amenidade daquela hora. Um avião levanta o voo lento de seu monomotor pregando mais um pedaço no mosaico da tarde. O acompanho até a curva sempre pensando que não a fará para sumir no horizonte. Pouco tempo depois uma revoada silenciosa de garças encaixa a parte que faltava no sentido contrário como fosse um anúncio. Então o portão se abre e ela adentra dando boa tarde ao porteiro quando tira o capacete para ajeitar o cabelo. Me retiro da janela, verifico se tem café na garrafa térmica e volto ao texto para fazer de conta que estava trabalhando.

        Penso que não importa quantos anos se passarem nem longitudes, sempre ouvirei o ruído daquela hora amena bem no meio da tarde e pararei o que estiver fazendo para espiar à janela, preso nesse vórtice temporal.

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Orfeico

Cuidai melhor dos versos, ó bardo afoito

Vontade é feito adorno e nunca sacia

Vejais “O céu rasgado em desvairada orgia”

Puseste no papel e nem tinhas vinte e oito

 

O mastro içando a vela era como um açoito

Batel em mar revolto, o breu da noite abria

Tolo, te rendias à musa que fingia

Singrar ao lado teu, terminado o coito

 

Não esqueças: a palavra esmorece ainda quente

Tantálica, famélica, eis mortal beleza

Tão fugidia é, quanto mais for latente

 

Ó bardo ensimesmado, resta a natureza

Anômalo e belo coração de doente

Quisera versejar melhor tua tristeza


Arte: Canteiros, Aquarela sobre Canson A3, por RAFAEL DOUGLAS

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Infausto II

Acrílico Sobre Tela, por Rafael Douglas 


De corpo em outro se derrama Humberto

Rouba minhas palavras, já maduras

E eu – que emoldurei tisnes figuras

Sob plúmbeo céu tão descoberto –

 

Quis doirar matizes sem mesuras

Fiz do chão meu céu, co’a lua perto

Ébrio das nuances feito um certo

Vil pintor que burla, inverte alturas

 

Eis-me ao chão da tela. Acordo e vejo

Minha paixão passar tão distraída

Suspirando pelo infausto andejo

 

Olvidar meu sonho: ela despida

Resta-me a garrafa, afago e beijo

Única paixão pra toda a vida!

 

Resposta de Humberto Paixão:

Roubei tuas palavras, apenas, nunca tua vontade

Não sou como os livros que te roubam a esperança

Não sou a cachaça que te aguça a vadia lembrança

Em verdade és carnívoro e torpe como a maldade

 

E sua fome nunca sacia mesmo consumada

Porque tens à mesa a carne fingida de um poeta

Dá-me palavras más e eu como um asceta

Lanço-me às noites dessa vida malfadada

 

Tua paz é breve como um talo aceso

Você descansa ainda cultuando o mal

E voa para a guerra como um ateu deste mundo

 

Lançando um boicote quando foge do excesso

Percebe que mentiu, largando a caneta e a nau

E a esta vida boa amaldiçoa e se lança, vagabundo

terça-feira, 14 de julho de 2020

Desassossego



Íncola da Rua dos Sonhos, negro Orfeu
tirastes, sóbrio, das palavras beluínas
o mesmo mel que, por ébrias esquinas,
há tempos, já alquebrados, bebo eu

Na conta dos anos, este sal nas crinas
a vida, como um laurel, me concedeu
e só. Reside nestas marcas o apogeu:
despir sobre o papel estrelas bailarinas

Os astros são carnais e pulsam co’a força motriz
do verso que é metal fundido na incompletude
de bardo que, inda sangrando, enfeita a cicatriz

E vós, que ao Hades trazeis lira e afanai virtude
das ninfas. Sabeis que *"Todo boêmio é feliz 
porque quanto mais é triste tanto mais se ilude!"

*Trecho adaptado de Me dá a penúltima (Aldir Blanc/João Bosco)

domingo, 24 de maio de 2020

Ramagem

Arte por: @tycheriee

Quisera eu por entre os teus cabelos
Morar, viver feito um bicho garboso
Cuidar dos ramos deste mato airoso
Quão linda és tu, a quem tenho desvelo

Pareces quadro de um pintor lustroso
Que escolhe as cores pra cada novelo
E dum mosaico jubilar de pelos
Se vai compondo este painel frondoso

Mas eu não tenho as mãos hábeis de tinta
E tua imagem pronta já me basta
Pra contemplar tal obra, sois distinta

Lhe amo tanto a cabeleira vasta
Ainda que inteira, com prazer, te sinta
É na ramagem que o amor se alastra

Esfacelo

Arte por: Emerico Tóth (1970)

Oh Musa encarna esta minh’alma flébil
Fatal endosso do meu corpo em flamas
Nos teus ais ouço as rutilantes chamas
Ateando fogo neste bardo débil

Entre as conversas voltamos às camas
Apalpo a fruta do teu corpo hábil
Da polpa escorre um sumo visgo e lábil
Devoto eu bebo o mel que tu derramas

Já amo e escrevo este amor no poema
Vate perdido – já não há mais jeito
Nem salvação. Vejais o meu dilema:

Quando escrevia ignorava o peito
Agora o rasgo. Prevejo um calema
Rebenta a onda que me leva ao leito

Ausência

Arte por: @tycheriee

Sinto estertores pela ausência tua
Sem harmonia nesta casa eu vago
Dum lado ao outro, há dias sem afago
Nas noites frias me confesso à lua

Estes meus versos tornam feito trago
Que sorvo eu na esquina da rua
Uma vez bardo que a vida tatua
Na carne triste este gosto amargo

O que fazer se já provei o sumo
Viciei no cheiro, feito um bicho entregue
Que não consegue retomar o prumo

Ainda que sóbrio tente eu fingir ou negue
A dor no peito que me faz sem rumo
A tua lembrança fausta me persegue

Ferino


Arte por Vania Zouravliov

Um magro e esguio bicho rueiro
Por entre os carros, só, desvia
Nas madrugadas vaga e mia
Mas no mormaço anda ligeiro

Faminto, caça, dia a dia
E leva a presa ao cativeiro
Descansa o corpo num bueiro
À tarde dorme em demasia

Noturno ser, vadio e astuto
Vive sozinho e sem amor
Outros lhe chamam dissoluto

Ninguém compreende a sua dor
Feio, hediondo, mau, hirsuto
Mas ama a vida com ardor

sábado, 23 de maio de 2020

Anonymus Szobor II

Arte por: @b.eatrizcb

Antes do tempo revolver-me ao pó
Fi-lo aqui mesmo, pois se morre vivo
Fantasma espúrio, vaga sem motivo
Bebe outros mortos, nunca anda só

A sua vida torta feito um nó
Já nada vale neste chão nocivo
Ó ente débil, mau e repulsivo
Causa ojeriza, nojo, pena e dó

Ó miserável que morai nos versos
Tíbios como ele, esta carcaça imunda
Pobre cadáver que descansa ao leito

Tantos infernos que traz submersos
Dentro da pele há um verme que circunda
E irrompe inútil quando sobe ao peito

sábado, 2 de fevereiro de 2019

In Memoriam


Para Doris, o maior Poeta do Centro

Nobre amigo que partiu desta modorra
In memoriam, eis os versos que bebemos
Da mesma vida amorfa, ambos descremos
Do mal que te levou talvez eu morra

Dos bardos marginais que conhecemos
Tu foste o mais fiel, levaste à forra
Fumais, bebeis, gozando toda porra
Na cara social de quem riremos

Cá sigo pelas ruas que cruzavas
A ir e vir em denso pensamento
Não sobra sombra ao chão, já nada presta

Eu paro pelos bares em que andavas
E logo vem algum contentamento
Beber em tua memória é o que nos resta

Ruínas


Arte por: Fabian Perez

Carrego nesta caixa vil e imunda
Um órgão que é mordaz ao que ainda vive
Sangrento em todo amor que um dia tive
De angústia outra vez ele se inunda

Do ópio bebe vário em seu declive
Sua dor engole ácida e fecunda
Mortífero, ama a nobre e a vagabunda
E bate a mil, demônio, sejais livre

Contudo, o mesmo tempo que ora fere
Caiando as crinas sem dar afeição
Ferino não será em toda a estrada

Após os temporais ele confere
Ao velho bardo uma nova paixão
E a musa do porvir será inventada

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Orgíaca

Imagem: Autor desconhecido/ Fonte: Pinterest.

Orgíaco labor que me consome
Deitar tantas palavras num soneto
Cumprir todas mentiras que prometo
Das putas que inventei saciar a fome

Famélicas letais, propõem quarteto
A tríade se despe e eu que as dome
Escravo do escrever que me consome
Afagos, felações, tudo eu cometo

Astuto, feito um bardo que dardeja
Maus versos que a todas, sim, convêm
Mas dizem só daquela que ele almeja

Maldito, não tem nome e nem vintém
Sua glória se resume a uma cerveja
Que paga ao escrever sobre um alguém

Vagabundo


Spending More Time by Ron Hicks

Tirei-lhe do papel, cumpri minha sina
De bardo sem descanso na labuta
Lhe fiz senhora e dama, lhe fiz puta
Nem toda obra um dia se termina

Me resta este poema pra permuta
Tu foste hábil, és mulher ladina
Teu riso tropical feito menina
Roubou-me o coração de forma bruta

Escrevo só lembranças inventadas
De bar em bar na rua sempre igual
Cafona mais e mais, sempre pior

No colo doutras putas pouco amadas
Confesso: eu não presto, teço o mal
Escrevo os versos com saliva e suor

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Penumbra

Arte por: Zenón Sansuste Zapata


Meu coração é dado ao erro
Que na penumbra tu maduras
Oh tua forma airosa e pura
Faz-me poeta antes do enterro

Cantar teu bojo, eis mia loucura
E eu me dedico com aferro
Rimo estes versos, sou um perro
abandonado à tua candura

Teu corpo fausto eu já não sinto
Resta escrever na sombra alheia
Ébrio de fumo e absinto

Se sou poeta de mão cheia
O tempo engana, às vezes minto
Mas a saudade é fato, creia!

Lésbia

Aos ópios de um luar tuberculoso
Vulva Studies by Liz Darling

Lésbia nervosa, flor protuberante
Ladroa as noites, faz de mim febril
Figura airosa, flamejante e vil
És meu tormento, lábio cintilante

Um céu palpável, renegou o anil
Quis ser punício, viva cor vibrante
Abriga laivos, dum modo pujante
Obriga qualquer rei a ser servil

Eu que não sou poeta do desterro
Similar vício, teimo em padecer
E sofro ébrio sob a mesma lua

Cróton selvagem me induziste ao erro
Não há broquéis que vedam de querer
Oh maldição carnívora esta tua!

Terminal

Cosmic Yoni by TheEtheric on Etsy

Olhei a poça como quem olha o fundo
dum coração cafona que somente sente
Amei a vida em prosa e doidamente
levando as culpas vou, Ser vagabundo

Escrevo o pior soneto: baldo, displicente
Sou pobre como as rimas, verso moribundo
Um cão abandonado, eu vago pelo mundo
e o lamento no peito é o que me faz vivente

Na gare mato tempo, enquanto a chuva acalma,
dá ósculos na rua. Eu matuto outra chance
de olhar as cores dela relendo a minha alma

Fumando meu cigarro, eis tudo ao meu alcance:
Sorver ácidas flores, com devoção e calma
Visões em profusão trarão outra nuance

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Archote


Illustration by John Alcorn (b. 1935), Gentlemen's Quarterly 

Olhei a moça como quem olha um risco
do archote que ilumina quando a chuva pende
e o gosto do primeiro lábio, feito amora, rende
os versos que são dedicados a esta dona em visco

A seiva doutros lábios sinto quando ela suspende
o corpo sobre o meu, astuta e bela flor de hibisco
e eu feito um animal devasso em fuga do aprisco
assim mastigo as folhas, lenta e perigosamente

A chuva cessa de cair, lançando o seu penhor
Mui tarde para cometer os crimes que eu espero
Mas cedo para entranhar o aroma desta flor

Meus versos já decaem na vala, sem nenhum esmero
Meus dedos apalpam sua carne, já não há pudor
E sinto já não ter mais volta, ó maldição te quero!

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Auparishtaka 9

Fonte da imagem: Pinterest

Palavra, bela flor e astuta, lúbrica senhora
Empurra minha cabeça e expele grave o seu gemido
Devoto ao mesocarpo e afeito, já estou perdido
Escravo dos crimes que invento antes de ir embora

Dos lábios tropicais um sumo escorre decidido
Encharca a minha boca ávida de aqui e agora
Eu chupo a doce polpa e sinto que a vida aflora
A cada vez que a língua rija acata o seu pedido

Não há pudor, razão, moral para quem sente o gosto
dos frutos que a estação laureia quem de afetos vive
Prazeres dos sentidos vastos que afloram fatais

Queria inda outra vez mirar aquele fruto exposto
Subir mais uma vez na árvore que um dia eu tive
E lá morrer de amores tolos que só são carnais!

Auparishtaka 6

Fonte da imagem: Pinterest

No balouço desvairado, hora tardia
Com volúpia, sem pudor nem testemunha
Com a mão fizera o crime que eu propunha
E a língua de prazer o membro enchia

Em voz baixa eu lhe botava toda alcunha
O meu verso depravado a puta lia
Meu poema em sua boca resistia
E às tentações do gozo se opunha

Não perdura a luta contra a natureza
Foi despejo do esporrar na boca rubra
Deu um urro o pobre bicho saciado

Vendo a lua na janela, ó vil beleza
No preço de tal loucura ela lucubra
E amanhã viajará do mesmo lado