terça-feira, 25 de agosto de 2020

Orfeico

Cuidai melhor dos versos, ó bardo afoito

Vontade é feito adorno e nunca sacia

Vejais “O céu rasgado em desvairada orgia”

Puseste no papel e nem tinhas vinte e oito

 

O mastro içando a vela era como um açoito

Batel em mar revolto, o breu da noite abria

Tolo, te rendias à musa que fingia

Singrar ao lado teu, terminado o coito

 

Não esqueças: a palavra esmorece ainda quente

Tantálica, famélica, eis mortal beleza

Tão fugidia é, quanto mais for latente

 

Ó bardo ensimesmado, resta a natureza

Anômalo e belo coração de doente

Quisera versejar melhor tua tristeza


Arte: Canteiros, Aquarela sobre Canson A3, por RAFAEL DOUGLAS

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"Respeitar o trabalho do outro consiste justamente em submetê-lo à crítica mais rigorosa" (José Borges Neto)