terça-feira, 25 de agosto de 2020

Orfeico

Cuidai melhor dos versos, ó bardo afoito

Vontade é feito adorno e nunca sacia

Vejais “O céu rasgado em desvairada orgia”

Puseste no papel e nem tinhas vinte e oito

 

O mastro içando a vela era como um açoito

Batel em mar revolto, o breu da noite abria

Tolo, te rendias à musa que fingia

Singrar ao lado teu, terminado o coito

 

Não esqueças: a palavra esmorece ainda quente

Tantálica, famélica, eis mortal beleza

Tão fugidia é, quanto mais for latente

 

Ó bardo ensimesmado, resta a natureza

Anômalo e belo coração de doente

Quisera versejar melhor tua tristeza


Arte: Canteiros, Aquarela sobre Canson A3, por RAFAEL DOUGLAS

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Infausto II

Acrílico Sobre Tela, por Rafael Douglas 


De corpo em outro se derrama Humberto

Rouba minhas palavras, já maduras

E eu – que emoldurei tisnes figuras

Sob plúmbeo céu tão descoberto –

 

Quis doirar matizes sem mesuras

Fiz do chão meu céu, co’a lua perto

Ébrio das nuances feito um certo

Vil pintor que burla, inverte alturas

 

Eis-me ao chão da tela. Acordo e vejo

Minha paixão passar tão distraída

Suspirando pelo infausto andejo

 

Olvidar meu sonho: ela despida

Resta-me a garrafa, afago e beijo

Única paixão pra toda a vida!

 

Resposta de Humberto Paixão:

Roubei tuas palavras, apenas, nunca tua vontade

Não sou como os livros que te roubam a esperança

Não sou a cachaça que te aguça a vadia lembrança

Em verdade és carnívoro e torpe como a maldade

 

E sua fome nunca sacia mesmo consumada

Porque tens à mesa a carne fingida de um poeta

Dá-me palavras más e eu como um asceta

Lanço-me às noites dessa vida malfadada

 

Tua paz é breve como um talo aceso

Você descansa ainda cultuando o mal

E voa para a guerra como um ateu deste mundo

 

Lançando um boicote quando foge do excesso

Percebe que mentiu, largando a caneta e a nau

E a esta vida boa amaldiçoa e se lança, vagabundo

terça-feira, 14 de julho de 2020

Desassossego



Íncola da Rua dos Sonhos, negro Orfeu
tirastes, sóbrio, das palavras beluínas
o mesmo mel que, por ébrias esquinas,
há tempos, já alquebrados, bebo eu

Na conta dos anos, este sal nas crinas
a vida, como um laurel, me concedeu
e só. Reside nestas marcas o apogeu:
despir sobre o papel estrelas bailarinas

Os astros são carnais e pulsam co’a força motriz
do verso que é metal fundido na incompletude
de bardo que, inda sangrando, enfeita a cicatriz

E vós, que ao Hades trazeis lira e afanai virtude
das ninfas. Sabeis que *"Todo boêmio é feliz 
porque quanto mais é triste tanto mais se ilude!"

*Trecho adaptado de Me dá a penúltima (Aldir Blanc/João Bosco)

domingo, 24 de maio de 2020

Ramagem

Arte por: @tycheriee

Quisera eu por entre os teus cabelos
Morar, viver feito um bicho garboso
Cuidar dos ramos deste mato airoso
Quão linda és tu, a quem tenho desvelo

Pareces quadro de um pintor lustroso
Que escolhe as cores pra cada novelo
E dum mosaico jubilar de pelos
Se vai compondo este painel frondoso

Mas eu não tenho as mãos hábeis de tinta
E tua imagem pronta já me basta
Pra contemplar tal obra, sois distinta

Lhe amo tanto a cabeleira vasta
Ainda que inteira, com prazer, te sinta
É na ramagem que o amor se alastra

Esfacelo

Arte por: Emerico Tóth (1970)

Oh Musa encarna esta minh’alma flébil
Fatal endosso do meu corpo em flamas
Nos teus ais ouço as rutilantes chamas
Ateando fogo neste bardo débil

Entre as conversas voltamos às camas
Apalpo a fruta do teu corpo hábil
Da polpa escorre um sumo visgo e lábil
Devoto eu bebo o mel que tu derramas

Já amo e escrevo este amor no poema
Vate perdido – já não há mais jeito
Nem salvação. Vejais o meu dilema:

Quando escrevia ignorava o peito
Agora o rasgo. Prevejo um calema
Rebenta a onda que me leva ao leito

Ausência

Arte por: @tycheriee

Sinto estertores pela ausência tua
Sem harmonia nesta casa eu vago
Dum lado ao outro, há dias sem afago
Nas noites frias me confesso à lua

Estes meus versos tornam feito trago
Que sorvo eu na esquina da rua
Uma vez bardo que a vida tatua
Na carne triste este gosto amargo

O que fazer se já provei o sumo
Viciei no cheiro, feito um bicho entregue
Que não consegue retomar o prumo

Ainda que sóbrio tente eu fingir ou negue
A dor no peito que me faz sem rumo
A tua lembrança fausta me persegue

Ferino


Arte por Vania Zouravliov

Um magro e esguio bicho rueiro
Por entre os carros, só, desvia
Nas madrugadas vaga e mia
Mas no mormaço anda ligeiro

Faminto, caça, dia a dia
E leva a presa ao cativeiro
Descansa o corpo num bueiro
À tarde dorme em demasia

Noturno ser, vadio e astuto
Vive sozinho e sem amor
Outros lhe chamam dissoluto

Ninguém compreende a sua dor
Feio, hediondo, mau, hirsuto
Mas ama a vida com ardor

sábado, 23 de maio de 2020

Anonymus Szobor II

Arte por: @b.eatrizcb

Antes do tempo revolver-me ao pó
Fi-lo aqui mesmo, pois se morre vivo
Fantasma espúrio, vaga sem motivo
Bebe outros mortos, nunca anda só

A sua vida torta feito um nó
Já nada vale neste chão nocivo
Ó ente débil, mau e repulsivo
Causa ojeriza, nojo, pena e dó

Ó miserável que morai nos versos
Tíbios como ele, esta carcaça imunda
Pobre cadáver que descansa ao leito

Tantos infernos que traz submersos
Dentro da pele há um verme que circunda
E irrompe inútil quando sobe ao peito