quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Orgíaca

Imagem: Autor desconhecido/ Fonte: Pinterest.

Orgíaco labor que me consome
Deitar tantas palavras num soneto
Cumprir todas mentiras que prometo
Das putas que inventei saciar a fome

Famélicas letais, propõem quarteto
A tríade se despe e eu que as dome
Escravo do escrever que me consome
Afagos, felações, tudo eu cometo

Astuto, feito um bardo que dardeja
Maus versos que a todas, sim, convêm
Mas dizem só daquela que ele almeja

Maldito, não tem nome e nem vintém
Sua glória se resume a uma cerveja
Que paga ao escrever sobre um alguém

Vagabundo


Spending More Time by Ron Hicks

Tirei-lhe do papel, cumpri minha sina
De bardo sem descanso na labuta
Lhe fiz senhora e dama, lhe fiz puta
Nem toda obra um dia se termina

Me resta este poema pra permuta
Tu foste hábil, és mulher ladina
Teu riso tropical feito menina
Roubou-me o coração de forma bruta

Escrevo só lembranças inventadas
De bar em bar na rua sempre igual
Cafona mais e mais, sempre pior

No colo doutras putas pouco amadas
Confesso: eu não presto, teço o mal
Escrevo os versos com saliva e suor

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Penumbra

Arte por: Zenón Sansuste Zapata


Meu coração é dado ao erro
Que na penumbra tu maduras
Oh tua forma airosa e pura
Faz-me poeta antes do enterro

Cantar teu bojo, eis mia loucura
E eu me dedico com aferro
Rimo estes versos, sou um perro
abandonado à tua candura

Teu corpo fausto eu já não sinto
Resta escrever na sombra alheia
Ébrio de fumo e absinto

Se sou poeta de mão cheia
O tempo engana, às vezes minto
Mas a saudade é fato, creia!

Lésbia

Aos ópios de um luar tuberculoso
Vulva Studies by Liz Darling

Lésbia nervosa, flor protuberante
Ladroa as noites, faz de mim febril
Figura airosa, flamejante e vil
És meu tormento, lábio cintilante

Um céu palpável, renegou o anil
Quis ser punício, viva cor vibrante
Abriga laivos, dum modo pujante
Obriga qualquer rei a ser servil

Eu que não sou poeta do desterro
Similar vício, teimo em padecer
E sofro ébrio sob a mesma lua

Cróton selvagem me induziste ao erro
Não há broquéis que vedam de querer
Oh maldição carnívora esta tua!

Terminal

Cosmic Yoni by TheEtheric on Etsy

Olhei a poça como quem olha o fundo
dum coração cafona que somente sente
Amei a vida em prosa e doidamente
levando as culpas vou, Ser vagabundo

Escrevo o pior soneto: baldo, displicente
Sou pobre como as rimas, verso moribundo
Um cão abandonado, eu vago pelo mundo
e o lamento no peito é o que me faz vivente

Na gare mato tempo, enquanto a chuva acalma,
dá ósculos na rua. Eu matuto outra chance
de olhar as cores dela relendo a minha alma

Fumando meu cigarro, eis tudo ao meu alcance:
Sorver ácidas flores, com devoção e calma
Visões em profusão trarão outra nuance

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Archote


Illustration by John Alcorn (b. 1935), Gentlemen's Quarterly 

Olhei a moça como quem olha um risco
do archote que ilumina quando a chuva pende
e o gosto do primeiro lábio, feito amora, rende
os versos que são dedicados a esta dona em visco

A seiva doutros lábios sinto quando ela suspende
o corpo sobre o meu, astuta e bela flor de hibisco
e eu feito um animal devasso em fuga do aprisco
assim mastigo as folhas, lenta e perigosamente

A chuva cessa de cair, lançando o seu penhor
Mui tarde para cometer os crimes que eu espero
Mas cedo para entranhar o aroma desta flor

Meus versos já decaem na vala, sem nenhum esmero
Meus dedos apalpam sua carne, já não há pudor
E sinto já não ter mais volta, ó maldição te quero!