segunda-feira, 28 de maio de 2018

Concertina II

Arte por: Mark Keller
  
Vem na noite erma a concertina
Vestindo de tango o meu lamento
Cobre o céu com seu manto cinzento
Se dissipa azul, tolhe a rotina

Nas tardes tristonhas é um alento
Fazer companhia é sua sina
Veste a vida em som, ária ferina
Ao bardo se torna um acalento 

Quero mais de ti, ó companheira 
Dos crimes que havemos cometido 
O que está por vir é o mais voraz

Sobre o meu jirau, despida inteira
Musa exposta, crime consentido
Ouvirei os sons do que lhe apraz

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Concertina


Arte por: Mark Keller

Tu que és dedilhada em palcos cheios
Afeita aos aplausos e holofotes
A dois bardos serve enquanto mote
Mas só um goza dos teus floreios

Pobre, ao outro resta como dote
Torpes versos que faz com enleio
Jaz sem melodia o devaneio
Foi só um arrepio no seu cangote

Nem a todo artista é que a sorte
sorri com malícia, faz vontades
Uns a têm,  outros inventam flores

Deste modo, confundindo a morte
Sabem disfarçar suas vaidades
Vão vivendo o véu dos vis vapores

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Plenilúnio

Fausto Zonaro (1854 - 1929), Moonlight


Musa de Juno, orbe que vagueia
Sob céu vasto, faz de mim vassalo
Contemplo ébrio, trago-lhe um regalo
Buquê de versos soltos que ela enleia

Sidérea beldade, devoto eu propalo
o esplendor voraz com que ela alteia
E no vazio do meu viver a lua cheia
cobre de júbilo a pua do meu talo

Celeste gozo de profundas seivas
Rouba de mim as horas diuturnas
Absorto, escrevo desejando a noite

Rude campônio cultivando as leivas
Não há quietude nas horas soturnas
Cada golpe do ponteiro é um açoite

segunda-feira, 7 de maio de 2018

A um bardo


The Letter II, by Jack Vettriano

De Humberto Paixão para João Batista

Sepulcral

Um beijo sepulcral na testa dada ao frio
Mais descoberta que a vida fora dos rumores 
Um beijo traz imagens das carícias e das dores
Da vida gélida de um alguém sem brio

Não estava o céu como num poema de anil
Naquele dia de dúvidas e temores
Quando no copo de veneno goles dos odores
desciam. Tomando o último soneto, partiu

Morte breve, sem amigos por escolha sua
Morreu bêbado, com uma pena atravessada ao peito
Desfez as malas: um papel e rabiscos

Jogou com a morte paciência sobre a lua
Perdeu naquilo que nunca tinha feito
Bebeu no último exílio os seus poemas e vícios

Resposta de João Batista a Humberto Paixão

De verso em outro se derrama o triste
e enfermo cão, debalde o seu ganido
Ante a dor de um universo corroído
O verso é só um adorno e vira chiste

Tentou ser probo, mas virou bandido
Na rua come, dorme e subsiste
Não tens morada, oh cão, ninguém serviste
Do mundo que o pariu foste banido

Lhe entendo, nobre amigo sem estada
Também de nada sirvo a este mundo
Mas prezo pelo ofício que me ilude

Afora esta vida desgraçada
Ao menos sou um pobre vagabundo
E à margem do poder fiz o que pude