terça-feira, 24 de outubro de 2017

Chuva

Da observação citadina como método de espera:
Arte: Gerald Harvey Jones

Cai oblíqua feito afago na vidraça
Sob as calhas, deita e corre, decidida
Paira a urbe, qual semáforo da vida
Quem se atreve a escorrer onde ela passa?

Um e outro, impacientes, tomam prumo
Outros mais, desalinhados, inda esperam
E as conversas sobre ela proliferam
Tudo enquanto a zombeteira dita o rumo

Os que a guardam, coloridos, vêm surgindo
Vão compondo um só mosaico pela rua
Desavindo a pasmaceira dos telhados

A vida torna para enxutos e molhados
E ela vai cair adiante, linda e nua
Eu a guardo no poema e já vou indo

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Desventura

Mikael Kihlmanm, Walking in Tornala, drypoint, 10x8 cm, 1999.

Palavra, já não ris mais em meu colo
Nem andas a vagar por sujas ruas
Eu só, ando a cismar das causas tuas
Sou bardo, o mais piegas deste solo

Vagueio as madrugadas sob a lua
Te busco no etilismo, sou um tolo
Entre um e outro cigarro, meu consolo:
Lembrar-me a sua alvura inteira nua

Vês bem o que fizeste deste vate
Já rimo o mal comum, feito um mancebo
Mas eu não tenho glória nem quilate

Por meu verso funesto não recebo
Aplauso, prêmio, encômio ou disparate
Ninguém sabe de nós, só eu concebo

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Samba

Trecho do filme Fome (1966), baseado na novela homônima de Kunt Hamsun.

Vicente, ó desgraçado, quedai na mesma esquina
Sem palco, nem aplauso, seu verso é só desterro
Lhe oferto um gole amargo, faz conta dos seus erros
Mas não te vás, Vicente, o verso é tua sina

Te aprumas lá no morro, escreves com aferro
E quando vir ao centro, traz versos na surdina
Cá estou despindo o tempo – Há cousa mais sovina?
Poetas matam tempo, mas não se quer o enterro

No teu, rirei, Vicente; tua rija morbidez
O teu sorriso ao canto da boca emudecida
Caçoa a minha existência, por ter roubado a vez

Se morre e sê Poeta; Eu cá funesto em vida
Mas não bebo sozinho, partilho a embriaguez
Humberto me conforta da tua despedida!

Espera


A espera é um caso oblíquo, um débil
blues de esquina enluarada 
come a carne, desalmada 
bebe a alma e a torna flébil

A espera é um desatino, louco
faz da lira um crime impune
tem no bardo um fosco lume
desvelando um canto mouco

A espera é um cigarro, atroz
que a demora em brasa ateia
irreversível sobre nós

A espera tece a morte, alheia
Tu, palavra, és meu algoz
Eu – entregue – cedo à teia

Rizoma

Ao poeta Luis Estrela de Matos

Nobre companheiro de baldões
Quem nesta cidade nos percebe?
Não há tez burguesa, nem na plebe
Capaz de sentir-nos dos porões

Doutos subsolos tu concebes
Quando escreves versos sem grilhões
Eu, na forma, sei forjar prisões
Mas são cercas vivas como sebes

De modo distinto cada qual
Vai compondo a teia ensimesmada
Em redor do gosto habitual

Seja dia claro ou madrugada
Padecemos nós do mesmo mal
Este ofício é vário, tudo e nada!