De corpo em outro se derrama Humberto
Rouba minhas palavras, já maduras
E eu – que emoldurei tisnes figuras
Sob plúmbeo céu tão descoberto –
Quis doirar matizes sem mesuras
Fiz do chão meu céu, co’a lua
perto
Ébrio das nuances feito um certo
Vil pintor que burla, inverte
alturas
Eis-me ao chão da tela. Acordo e
vejo
Minha paixão passar tão distraída
Suspirando pelo infausto andejo
Olvidar meu sonho: ela despida
Resta-me a garrafa, afago e beijo
Única paixão pra toda a vida!
Resposta de Humberto Paixão:
Roubei tuas palavras, apenas,
nunca tua vontade
Não sou como os livros que te
roubam a esperança
Não sou a cachaça que te aguça a
vadia lembrança
Em verdade és carnívoro e torpe
como a maldade
E sua fome nunca sacia mesmo
consumada
Porque tens à mesa a carne
fingida de um poeta
Dá-me palavras más e eu como um
asceta
Lanço-me às noites dessa vida
malfadada
Tua paz é breve como um talo
aceso
Você descansa ainda cultuando o
mal
E voa para a guerra como um ateu
deste mundo
Lançando um boicote quando foge
do excesso
Percebe que mentiu, largando a caneta e a nau
E a esta vida boa amaldiçoa e se lança, vagabundo


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"Respeitar o trabalho do outro consiste justamente em submetê-lo à crítica mais rigorosa" (José Borges Neto)