terça-feira, 11 de agosto de 2020

Infausto II

Acrílico Sobre Tela, por Rafael Douglas 


De corpo em outro se derrama Humberto

Rouba minhas palavras, já maduras

E eu – que emoldurei tisnes figuras

Sob plúmbeo céu tão descoberto –

 

Quis doirar matizes sem mesuras

Fiz do chão meu céu, co’a lua perto

Ébrio das nuances feito um certo

Vil pintor que burla, inverte alturas

 

Eis-me ao chão da tela. Acordo e vejo

Minha paixão passar tão distraída

Suspirando pelo infausto andejo

 

Olvidar meu sonho: ela despida

Resta-me a garrafa, afago e beijo

Única paixão pra toda a vida!

 

Resposta de Humberto Paixão:

Roubei tuas palavras, apenas, nunca tua vontade

Não sou como os livros que te roubam a esperança

Não sou a cachaça que te aguça a vadia lembrança

Em verdade és carnívoro e torpe como a maldade

 

E sua fome nunca sacia mesmo consumada

Porque tens à mesa a carne fingida de um poeta

Dá-me palavras más e eu como um asceta

Lanço-me às noites dessa vida malfadada

 

Tua paz é breve como um talo aceso

Você descansa ainda cultuando o mal

E voa para a guerra como um ateu deste mundo

 

Lançando um boicote quando foge do excesso

Percebe que mentiu, largando a caneta e a nau

E a esta vida boa amaldiçoa e se lança, vagabundo

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"Respeitar o trabalho do outro consiste justamente em submetê-lo à crítica mais rigorosa" (José Borges Neto)