sábado, 27 de janeiro de 2018

Engodo

Arte por Jack Vettriano

Palavra, tu consomes meu juízo
Propões baços cenários, ledo engodo
Se queres minha pena, o membro todo
Dentro da tua vulva, dê-me um riso

Antes de abrir-se em flor, olhai o aviso:
Sou bardo sem razão, vivo no lodo
Só tenho este Bordel, nele que fodo
As putas que inventei porque preciso

Entendas bem, falo de teoria
De quem pelo escrever vive cismando
Só tenho esta labuta vã e vadia

Perdoas, mas não deito verso brando
Escrevo cru, não há demagogia
Minto que sou poeta e vou rimando

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Notícia

Jornal O CAPITAL - Ano XXVII - nº 282 - Jan. 2018 - Aracaju/SE

No canto inferior desta gazeta
Meu verso moribundo enfim descansa
Lá vai mais de uma década de andança
Ser bardo é viver sempre na sarjeta

Um mal que se carrega feito herança
Cuidar desta tarefa obsoleta
Mas hoje em companhia de um esteta
Vate dos mais cruéis, má vizinhança

Meu nome morre aqui, na folha erma
O dele sobrevém, sempre perdura
Artaud soube morrer, louco e fatal

Eu que mal sei viver, oh vida enferma
Repouso num caderno de cultura
Sem selo do governo e marginal

O Espelho

Pierre Bonnard, O espelho, óleo sobre tela

Adentra este bordel, dama venusta
Palavra se insinua ao meu versejo
Grafar tua letra nua é meu desejo
E o seu ambos veremos quanto custa

Só cobro a longo prazo, aguardo o ensejo
Sou bardo fracassado, oh vida injusta!
Ter zelo em demasia é senda angusta
Só passa quem domina o seu manejo

Um verso sobre outro vou tecendo
Tuas vestes vão caindo, uma a uma
Eu, débil, por delírio estou morrendo

Já avisto a silhueta em meio à bruma
O tempo me consome e vai crescendo
O falo com que escrevo se avoluma

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Falena

Arte por Jeremy Mann

Olhai, dama que atentas minha pena
Quereis ser musa deste vagabundo?
Sabeis não ter mais volta, oh ser profundo
Que vaga alta as noites e és falena

És bela e és fatal, crime fecundo
Estudo o teu pousar em meu poema
As asas sobre mim, gravura plena
Voejam e me levam mais a fundo

Letargo de prazer, perpetro o crime
Penetro em tua flor, musa vadia
Também vago na noite, oh ser sublime

Quereis roubar de mim a poesia
Vês bem o que meu verso enfim exprime:
Te ver despida inteira, oh fantasia! 

sábado, 20 de janeiro de 2018

Infausto

Para Humberto Paixão, tão afeito aos infortúnios.

Pior que eu, poeta és tu, e perduras
Atento às palavras sem reserva
Gostas de cachaça e boa erva
Fazes teus poemas sem mesura

Tu, Humberto, é vil, nem me preservas
Rouba-me as palavras já maduras
E elas, que aleivosas criaturas!
Deitam-se à tua pena, feito servas

Pobre e infausto andejo, ainda és ladrão
A ti, canalha, os diabos salvarão
Só por ter no verso o apogeu

Fazes do infortúnio teu ofício
Somos servos deste mesmo vício
Mas tu és mais poeta do que eu

Maldito

por Humberto Paixão

Poeta dos piores, não menos o seu abismo
Trabalha embebido em cachaça
Na letargia ingrata da trapaça
Das palavras operando seu cinismo

O cigarro aceso e sobre a mesa
Seu poema que arde de vingança
Sobre o maléfico labor sem esperança
Para ter em casa uma luz acesa

De noite um criador de mundos
Como os gatos, nobres vagabundos
Na chuva fria da madrugada


Toma no cio o palco dos menestréis
De dia o delírio em pilhas de papéis
À noite os versos da carne maltratada

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

A Mestra


Airosa, a dama bela e já madura
Ensina-me o que a vida lhe fez mestra
Em muitas posições ela me adestra
Devoto-me aos preceitos com fervura

Discípulo leal da amásia destra
Do livro cárneo e vil fiz releitura
À sua vulva em flor faço mesura
A mim é do parnaso uma fenestra

Seu pomo já maduro ainda mata
Minha sede de mamífero enjeitado
Nas noites de torpor busco acalento

Por horas sem descanso me maltrata
E faz de mim seu pajem, seu criado
Escrevo-a sem ter consentimento

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Virginal


Arte por Yuri Krotov

Airosa, a bela dama inda mui jovem
Deixou-se desnudar pro meu encanto
Mirei seu torso níveo e sacrossanto
Um Éden sem Adão, que os anjos provem!

Piedosos, despojados de seu manto
Seus braços feito bênçãos me envolvem
Ungidos nossos corpos se revolvem
Lançando ao meu vigor logo um quebranto

Seu pomo, ainda verde e vicejante
Palpita sob o órgão exaurido
Neófito ao prazer, sumo do mundo

Gemeu consoante o seu fiel amante
Vogais abertas, gozo consentido
Agora é musa vil de um vagabundo

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Cachopa

Arte por Robert Luciano

Me olhas com a ternura jovial
De quem propõe infernos proibidos
Sabeis dos meus desejos incontidos
Cachopa, o teu olhar é desleal

Bem sabes, sou um bardo pervertido
Procuro na palavra a carne, o mal
O corpo é minha esfera laboral
Um livro cárneo e vil, mui vezes lido

A relva encobre o talhe que me tenta
Dardeja a luz do averno sob o céu
Teu lábio, sensual polpa magenta

Cachopa, de tua vulva escorre o mel
Tisana que me cura e acalenta
Os crimes que herdei sem ser cruel

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Cabrocha

Arte por Ralph Burke Tyree

Eu, devoto atroz de sua nudeza
Ser doentio que em chamas arde
À boceta, vou tecendo, sem alarde
Um poema só afeito à natureza

Versos ímpios, carregados de rudeza
Jus não fazem à flor bela que se abre
Oh cabrocha, o teu inferno que me guarde
Dos delírios que disponho sobre a mesa

Se ao menos te mostrasses uma vez
Não riria o povo de minha loucura
Para eles és fruto da insensatez

Só a mim desvela-se, magia pura
Aproveita-te da minha embriaguez
Quando vou gozar enfim, cessa a leitura

A Maçã

Eve, por Anthony Christian

Há dias, sem piedade, o mal por vir
Despir o fausto talhe em meu soneto
Convence-me do inferno, ao que prometo
Libar sua natureza até ganir

Com a boca afeita ao mel me submeto
Os uivos da labuta assim cumprir
Não cesso até a dama se exaurir
E após, ela de quatro, a pica eu meto

Tentei em vão alguma polidez
Mas ela preza o falo com fervura
O membro rijo entrou com avidez

A dona perdurou em sua postura
Herdou o esporro vil com altivez
Senhora do esputar da verga dura

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Anonymus Szobor


Eu, feito um coveiro triste e só
Vagando a esmo pelas catacumbas
O mal cortejo e quiçá, sim, sucumba
Antes do tempo revolver-me ao pó

Fedo, hediondo, pareço um corumba
Que a estrada longa despejou sem dó
Inábil ser, não tenho nada em pró
De ser alguém, depois voltar à tumba

Um desgraçado que a palavra atenta
Só dela cuida, sem cuidar de si
Aos outros fere quando se arrebenta

Não fosse os versos para estar aqui
Nada traria à vida modorrenta
Nem sou poeta se ainda não morri