segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Archote


Illustration by John Alcorn (b. 1935), Gentlemen's Quarterly 

Olhei a moça como quem olha um risco
do archote que ilumina quando a chuva pende
e o gosto do primeiro lábio, feito amora, rende
os versos que são dedicados a esta dona em visco

A seiva doutros lábios sinto quando ela suspende
o corpo sobre o meu, astuta e bela flor de hibisco
e eu feito um animal devasso em fuga do aprisco
assim mastigo as folhas, lenta e perigosamente

A chuva cessa de cair, lançando o seu penhor
Mui tarde para cometer os crimes que eu espero
Mas cedo para entranhar o aroma desta flor

Meus versos já decaem na vala, sem nenhum esmero
Meus dedos apalpam sua carne, já não há pudor
E sinto já não ter mais volta, ó maldição te quero!

Um comentário:

"Respeitar o trabalho do outro consiste justamente em submetê-lo à crítica mais rigorosa" (José Borges Neto)