terça-feira, 18 de setembro de 2018

Lésbia

Aos ópios de um luar tuberculoso
Vulva Studies by Liz Darling

Lésbia nervosa, flor protuberante
Ladroa as noites, faz de mim febril
Figura airosa, flamejante e vil
És meu tormento, lábio cintilante

Um céu palpável, renegou o anil
Quis ser punício, viva cor vibrante
Abriga laivos, dum modo pujante
Obriga qualquer rei a ser servil

Eu que não sou poeta do desterro
Similar vício, teimo em padecer
E sofro ébrio sob a mesma lua

Cróton selvagem me induziste ao erro
Não há broquéis que vedam de querer
Oh maldição carnívora esta tua!

Terminal

Cosmic Yoni by TheEtheric on Etsy

Olhei a poça como quem olha o fundo
dum coração cafona que somente sente
Amei a vida em prosa e doidamente
levando as culpas vou, Ser vagabundo

Escrevo o pior soneto: baldo, displicente
Sou pobre como as rimas, verso moribundo
Um cão abandonado, eu vago pelo mundo
e o lamento no peito é o que me faz vivente

Na gare mato tempo, enquanto a chuva acalma,
dá ósculos na rua. Eu matuto outra chance
de olhar as cores dela relendo a minha alma

Fumando meu cigarro, eis tudo ao meu alcance:
Sorver ácidas flores, com devoção e calma
Visões em profusão trarão outra nuance

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Archote


Illustration by John Alcorn (b. 1935), Gentlemen's Quarterly 

Olhei a moça como quem olha um risco
do archote que ilumina quando a chuva pende
e o gosto do primeiro lábio, feito amora, rende
os versos que são dedicados a esta dona em visco

A seiva doutros lábios sinto quando ela suspende
o corpo sobre o meu, astuta e bela flor de hibisco
e eu feito um animal devasso em fuga do aprisco
assim mastigo as folhas, lenta e perigosamente

A chuva cessa de cair, lançando o seu penhor
Mui tarde para cometer os crimes que eu espero
Mas cedo para entranhar o aroma desta flor

Meus versos já decaem na vala, sem nenhum esmero
Meus dedos apalpam sua carne, já não há pudor
E sinto já não ter mais volta, ó maldição te quero!

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Auparishtaka 9

Fonte da imagem: Pinterest

Palavra, bela flor e astuta, lúbrica senhora
Empurra minha cabeça e expele grave o seu gemido
Devoto ao mesocarpo e afeito, já estou perdido
Escravo dos crimes que invento antes de ir embora

Dos lábios tropicais um sumo escorre decidido
Encharca a minha boca ávida de aqui e agora
Eu chupo a doce polpa e sinto que a vida aflora
A cada vez que a língua rija acata o seu pedido

Não há pudor, razão, moral para quem sente o gosto
dos frutos que a estação laureia quem de afetos vive
Prazeres dos sentidos vastos que afloram fatais

Queria inda outra vez mirar aquele fruto exposto
Subir mais uma vez na árvore que um dia eu tive
E lá morrer de amores tolos que só são carnais!

Auparishtaka 6

Fonte da imagem: Pinterest

No balouço desvairado, hora tardia
Com volúpia, sem pudor nem testemunha
Com a mão fizera o crime que eu propunha
E a língua de prazer o membro enchia

Em voz baixa eu lhe botava toda alcunha
O meu verso depravado a puta lia
Meu poema em sua boca resistia
E às tentações do gozo se opunha

Não perdura a luta contra a natureza
Foi despejo do esporrar na boca rubra
Deu um urro o pobre bicho saciado

Vendo a lua na janela, ó vil beleza
No preço de tal loucura ela lucubra
E amanhã viajará do mesmo lado

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Vergel II


Arte por: Delphine Cauly (1981)

Musa e “Dona das divinas tetas”
Atiça em mim as horas de vigília
Noturna fuga ao seio da família
Fuga diurna ao coro dos caretas

Eu, sempre alucinado por bocetas
Hoje tenho uma por Musa, à revelia
Na parede do cenário onde relia
Os maus versos que fizera à sua greta

Não gozo, enfermo, pois ela delira
Só para olhá-la enquanto não atua
Momento raro, após ela se vira

Me olha, encena, e embora ainda nua
Já veste a máscara cênica que inspira
meus versos: doidos cães à luz da lua!

Vergel I

Arte por: Delphine Cauly (1981)

Vivaz poesia, arrepio d'um beijo insano
Aflora a carne, enrijece as doidas luas
Letargos pomos, vis auréolas, são duas
Furtam-me os versos dum poema leviano

Lúbrico dorso das palavras que tatuas
em tua derme, que com devoção profano
Dispo o pomar, oh musa do meu afano
Deitas na alcova, com afã te prostituas

Já vens molhada das palavras que enaltece
Deslize, orgia, tantas mais que são voragem
E da roupagem do vergel se desvanece

Desnuda inteira, tuas mãos na mia cor agem
Ruborizando o meu corpo que padece
Tiram do falo um rigor cruel, selvagem

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Concertina II

Arte por: Mark Keller
  
Vem na noite erma a concertina
Vestindo de tango o meu lamento
Cobre o céu com seu manto cinzento
Se dissipa azul, tolhe a rotina

Nas tardes tristonhas é um alento
Fazer companhia é sua sina
Veste a vida em som, ária ferina
Ao bardo se torna um acalento 

Quero mais de ti, ó companheira 
Dos crimes que havemos cometido 
O que está por vir é o mais voraz

Sobre o meu jirau, despida inteira
Musa exposta, crime consentido
Ouvirei os sons do que lhe apraz

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Concertina


Arte por: Mark Keller

Tu que és dedilhada em palcos cheios
Afeita aos aplausos e holofotes
A dois bardos serve enquanto mote
Mas só um goza dos teus floreios

Pobre, ao outro resta como dote
Torpes versos que faz com enleio
Jaz sem melodia o devaneio
Foi só um arrepio no seu cangote

Nem a todo artista é que a sorte
sorri com malícia, faz vontades
Uns a têm,  outros inventam flores

Deste modo, confundindo a morte
Sabem disfarçar suas vaidades
Vão vivendo o véu dos vis vapores

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Plenilúnio

Fausto Zonaro (1854 - 1929), Moonlight


Musa de Juno, orbe que vagueia
Sob céu vasto, faz de mim vassalo
Contemplo ébrio, trago-lhe um regalo
Buquê de versos soltos que ela enleia

Sidérea beldade, devoto eu propalo
o esplendor voraz com que ela alteia
E no vazio do meu viver a lua cheia
cobre de júbilo a pua do meu talo

Celeste gozo de profundas seivas
Rouba de mim as horas diuturnas
Absorto, escrevo desejando a noite

Rude campônio cultivando as leivas
Não há quietude nas horas soturnas
Cada golpe do ponteiro é um açoite

segunda-feira, 7 de maio de 2018

A um bardo


The Letter II, by Jack Vettriano

De Humberto Paixão para João Batista

Sepulcral

Um beijo sepulcral na testa dada ao frio
Mais descoberta que a vida fora dos rumores 
Um beijo traz imagens das carícias e das dores
Da vida gélida de um alguém sem brio

Não estava o céu como num poema de anil
Naquele dia de dúvidas e temores
Quando no copo de veneno goles dos odores
desciam. Tomando o último soneto, partiu

Morte breve, sem amigos por escolha sua
Morreu bêbado, com uma pena atravessada ao peito
Desfez as malas: um papel e rabiscos

Jogou com a morte paciência sobre a lua
Perdeu naquilo que nunca tinha feito
Bebeu no último exílio os seus poemas e vícios

Resposta de João Batista a Humberto Paixão

De verso em outro se derrama o triste
e enfermo cão, debalde o seu ganido
Ante a dor de um universo corroído
O verso é só um adorno e vira chiste

Tentou ser probo, mas virou bandido
Na rua come, dorme e subsiste
Não tens morada, oh cão, ninguém serviste
Do mundo que o pariu foste banido

Lhe entendo, nobre amigo sem estada
Também de nada sirvo a este mundo
Mas prezo pelo ofício que me ilude

Afora esta vida desgraçada
Ao menos sou um pobre vagabundo
E à margem do poder fiz o que pude

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Mercado


Palavras no balcão e na vitrina
Comércio putrefato deste artigo
De luxo ou popular, jaz sem perigo
Alegra a superfície da latrina

Poetas sem pesar, num fausto abrigo
Permutam bons aplausos por propina
Gracejam, pavoneiam-se na esquina
E brincam de imitar algum mendigo

No fim tomam seus carros, vão embora
Fazer os comerciais da brincadeira
Quem sabe até estampem a revista

E a rua com seus males sempre fora
daqueles que não têm eira nem beira
Desprezo à burguesia oportunista!

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Rapsoda


Arte por: Brent Lynch

Tu que cantas torto pela madrugada
Mia pobre amiga que tens um amor
Levais no peito este canto de dor
Que alumbra a noite, triste namorada

Amais um bardo, quanto dissabor
Não tens fortuna, és amargurada
Tu quando cantas, não quero mais nada
Basta-me ouvir-te, seja onde for

Teu canto é zelo, enobrece a alma
Se hoje é mouco, alguém há de ouvir
Além dos bares desta rua calma

 Quão venturoso, temos de convir
Sozinho escuto, sem outra vivalma
Teu canto ermo, cousa do porvir

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Cachopa II



Te olho com volúpia, oh lua moça
Alteias sobre mim sem piedade
Olhando o céu percorro esta cidade
E o seu brilho reflete em cada poça

Eu que só sei do céu por veleidades
Ao chão me acostumei, oh vida insossa
Mas tu, oh lua nova, sempre ouça
Os cantos que componho por saudade

Já rimo o mal comum, não tenho escolha
Só resta-me escrever cismando à lua
De tinta cobrirei folha por folha

E quando alguém me ver louco na rua
Lembrai que fui poeta e não me acolha
Deixai-me desfrutar da dama nua