segunda-feira, 7 de maio de 2018

A um bardo


The Letter II, by Jack Vettriano

De Humberto Paixão para João Batista

Sepulcral

Um beijo sepulcral na testa dada ao frio
Mais descoberta que a vida fora dos rumores 
Um beijo traz imagens das carícias e das dores
Da vida gélida de um alguém sem brio

Não estava o céu como num poema de anil
Naquele dia de dúvidas e temores
Quando no copo de veneno goles dos odores
desciam. Tomando o último soneto, partiu

Morte breve, sem amigos por escolha sua
Morreu bêbado, com uma pena atravessada ao peito
Desfez as malas: um papel e rabiscos

Jogou com a morte paciência sobre a lua
Perdeu naquilo que nunca tinha feito
Bebeu no último exílio os seus poemas e vícios

Resposta de João Batista a Humberto Paixão

De verso em outro se derrama o triste
e enfermo cão, debalde o seu ganido
Ante a dor de um universo corroído
O verso é só um adorno e vira chiste

Tentou ser probo, mas virou bandido
Na rua come, dorme e subsiste
Não tens morada, oh cão, ninguém serviste
Do mundo que o pariu foste banido

Lhe entendo, nobre amigo sem estada
Também de nada sirvo a este mundo
Mas prezo pelo ofício que me ilude

Afora esta vida desgraçada
Ao menos sou um pobre vagabundo
E à margem do poder fiz o que pude

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"Respeitar o trabalho do outro consiste justamente em submetê-lo à crítica mais rigorosa" (José Borges Neto)