The Letter II, by Jack Vettriano
De Humberto Paixão para João Batista
Sepulcral
Um beijo sepulcral na testa dada ao frio
Mais descoberta que a vida fora dos rumores
Um beijo traz imagens das carícias e das dores
Da vida gélida de um alguém sem brio
Não estava o céu como num poema de anil
Naquele dia de dúvidas e temores
Quando no copo de veneno goles dos odores
desciam. Tomando o último soneto, partiu
Morte breve, sem amigos por escolha sua
Morreu bêbado, com uma pena atravessada ao peito
Desfez as malas: um papel e rabiscos
Jogou com a morte paciência sobre a lua
Perdeu naquilo que nunca tinha feito
Bebeu no último exílio os seus poemas e vícios
Resposta de João Batista a Humberto Paixão
De verso em outro se derrama o triste
e enfermo cão, debalde o seu ganido
Ante a dor de um universo corroído
O verso é só um adorno e vira chiste
Tentou ser probo, mas virou bandido
Na rua come, dorme e subsiste
Não tens morada, oh cão, ninguém serviste
Do mundo que o pariu foste banido
Lhe entendo, nobre amigo sem estada
Também de nada sirvo a este mundo
Mas prezo pelo ofício que me ilude
Afora esta vida desgraçada
Ao menos sou um pobre vagabundo
E à margem do poder fiz o que pude


Nenhum comentário:
Postar um comentário
"Respeitar o trabalho do outro consiste justamente em submetê-lo à crítica mais rigorosa" (José Borges Neto)