segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Escolha


Não era lá a mais bela dentre todas as palavras do dicionário. Não gozava dos assovios dos operários como essas proparoxítonas que desfilam de lá para cá fazendo da construção civil mero pano de fundo para subsidiar a empáfia que lhes é característica. Tampouco tinha cabimento no meu texto. Contudo havia nela uma beleza singular, desses desabrochares recônditos que só avistam os loucos e os poetas. E, ainda que monossilábica, forjava altivez no olhar e na pronúncia de modo a intimidar o mais intrépido revisor.
A vogal que a trazia até a minha pena era a mesma que a levava embora após um instante consonantal [Nota-se que os elementos da poesia eu uso para me entregar]. E, sabe-se lá porque diabos, passou a ser semanticamente importante para a minha escrita.
[...]
Roube-lhe a virgindade quando, revolvendo-se no catre, me lia escondida, e com uma das mãos entre as coxas procurava-se nas entrelinhas. E eu deixava o seu nome subliminar em cada prosa poética que tecia, a ingênua intenção de que me indagasse com o olhar ao menos, neste caso não haveria como negar. E ainda que julgue certeza ser em ti que escrevo, não vem ao caso falar: reservo para a boca tarefas mais libidinosas, enquanto através de olhares lânguidos mantemos um acordo tácito, e o riso é como um gozo, espetáculo de domínio público.
Mas, a despeito das tuas vontades contidas, teu colo de menina não é lugar para o roçar a barba deste poeta errante.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Concessão




‘É preciso que a gente tente de todas as mentiras, é o que estou fazendo; pois, de todas as maneiras, só a poesia é verdadeira’.

É mais ou menos assim: Eu, Caio F. e Manoel de Barros, ladrão que rouba ladrão, mentirosos dos mais sinceros, aspas são levadas ao bolso e ali ficam à espera de devolução por parte d’alguma moça que se compadeça e queira fazer justiça com os próprios lábios.

Complicado escrever quando já se vive além do que se escreve. E quem me vê assim como as pedras que rolam pode até desconfiar que eu não tenho coração, que tudo se cria e do mesmo modo se termina no atrito entre a pena e o papel. Vamos deixar tais elegâncias de lado, pra sermos mais pós-modernos tudo se dá agora no ruidoso contato entre a extremidade dos membros humanos e a superfície das máquinas, destituído de qualquer romantismo ou nostalgia, cabe a fidúcia que lhes é característica. Como um arfar de bicho selvagem as mãos procuram as teclas e vão escolhendo uma a uma as letras que lhes convêm. Alternando consoantes e vogais a vida vai sendo tecida, entre gemidos, mordidas e sussurros. É assim que funciona a literatura contemporânea, há pressa escorrendo por entre os dedos, teu corpo é acariciado em prosa viva à flor da pele e sem nenhuma cerimônia. E quem haveria de imaginar que tais sutilezas seriam compostas por essas calejadas mãos, tão habituadas a descompor as palavras. Mãos tortuosas, assim como os caminhos, desconfio que seja algum mal específico do qual são acometidos os poetas, e muito embora eu não seja um, tanto me atrevo a fingir que acabo pagando na mesma moeda.

E como senhora mia enquanto lia percebeu: por trás dessas técnicas de produção de textos improdutivos, há sim um coração que pulsa, há vida além da teoria literária. Antes do poeta há um escritor, e ainda antes do escritor há um homem, antes do homem um menino, que além de escrever também beija, chora, ri, deseja e sente. Descansar do mundo nos teus braços, era tudo o que eu queria. Mas tu não me concedes mais que os teus olhos, os quais linha a linha ofegantemente vão descendo, até oponto G, e como se orgasmassem, aqui repousam.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Promessa

Perdoe-me a cafonice desse estilo literário, essa postura de conquistador barato. Eu não valho a pena que uso. Apaixono-me todo dia por uma palavra diferente. Estas moças desconhecidas têm a singular beleza de um idioma alheio, poético por si só. Embora não as compreenda, me basta ouvir a pronúncia.
Perdoe-me as linhas que deixei em branco na tua vida. Nunca me declarei poeta, meus versos de outrora não contavam métrica e nem forma fixa, não se trata de um trabalho esteticamente perfeito. Em vez disso essa prosa que a gente leva, saliva que a gente preza, proezas que a gente louva. Eu finjo escrever pra ti, tu finges que não leu e fica tudo entre nós. Poderia usufruir da oralidade, mas tímido e careta que sou, prefiro ir roubando o teu coração do bolso aos poucos e sem o teu consentimento, com a engenhosidade de um aliciador de palavras, palavreador de mulheres.
Se for afeita aos longos romances, não tenho muito a oferecer. Meu texto é breve e direto, porém intenso. Sabe que sou um homem sem futuro, que o consumo todo agora, em prolongadas e inebriantes baforadas. Mas se quiseres abrir mão dos velhos cânones da literatura, te ofereço a minha asa pra pular do precipício e viver tudo de uma só vez. Se cansada estiver das entediantes narrativas, te prometo o coração pulsando, sangue timbrado nas folhas e tinta correndo nas veias até que a vida nos prepare. Venha fazer vida em meu bordel e sairá daqui grávida de poemas, contos e crônicas. E após nove meses de árduo trabalho editorial, lapidando estrutura, revisando ortografia, incoerência e coesão, a nossa obra será publicada como legado de um caso literário. E é deste modo arcaico que tudo se transforma em verdadeiras mentiras mal contadas, bem escritas.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Analogia Poética

Eis um ambigrama na horizontal! Sensível aos meus afagos literários, deitada diante de uma folha de papel em branco, monossilábica. Dúbia por natureza, sempre esperou que eu a escrevesse. Desejo concupiscente de ter a pureza por mim cunhada em prosa poética. Nua, linda e santíssima, eu rimo-a de uma à outra extremidade. Breve, mas de incontáveis adjetivações, algumas das quais, de tão pejorativas, só se fazem pronunciadas no ardor do ato. Sempre desconfiei certo maniqueísmo entre um e outro substantivo. Imaculada, colocar o meu Poema na sua boca só por declamação me concede. Então meus versos se perdem no labirinto, trocam-se as assonâncias, mudam-se as aliterações e dão-se vazão às mais variadas interpretações. Tamanha é a sua devoção que o emprego que a dei neste bordel passa despercebido aos olhares alheios. Não é expressão para ser contemplada à distância, mas escrita com fervor pela impudica pena deste poeta errante. Para boa leitora, meia palavra não basta, é preciso ver para crer na tinta espalhada pelo corpo, mais vale o verbo sentir do que ler.

Pode me chamar de escritor, se assim quiser. Fui eu quem te trouxe até aqui. Eu que falei “nem pensar”, acabei por te despir das denotações que trajava e deixei-te nesse estado conotativo da linguagem. Poesia é aquilo que te cala, enquanto eu falo, o que te molha. E este papel onde te encontras desvelada é o nosso leito. Mesmo a contragosto, eu pronunciei ca-ri-nho-sa-men-te tuas sílabas posteriores uma a uma para que compreendesse a si mesma. Agora me deve favores. Devolve, moça.

História de Fogo



“A palavra oral não dá rascunho” já dizia o Manoel de Barros. Consiste esse aforismo na mais pura simulação da verdade de que se tem notícia. Não dá rascunho porque não engravida de livros, a palavra oral é despretensiosa, irresponsável, se dedica apenas aos deleites momentâneos, depois se esvai e raramente resta alguma prova cabal do ato consumado, quando muito uma marca de batom se o orador em questão for um tanto quanto descuidado.
Por sua vez, a palavra escrita... ah, essa costuma prostrar o leitor no papel e abusá-lo em todas as posições sintáticas que o termo é capaz de exercer. Não satisfeita, exige ser alçada aos confins do vento e, por declamação, eis meu poema na tua boca outra vez, latejando de sentido. E um ou dois enunciados não bastam, é hora de deitar novamente, pois a pena em riste não cessa de escrever, lançando em teu ventre o sêmen do gosto pelas artes verbais. Incontáveis são os artifícios literários urdidos para que se cumpra religiosamente a estética da conjunção carnal. E deste modo caminha a humanidade: entre um e outro coito os homens se vão e o que fica, para além deles, são as palavras. É preciso reproduzi-las. Assim é a palavra escrita, ou finge ser. E o mesmo Manoel já dizia: “O verbo tem que pegar delírio”.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Telegrama

À Tâmara mulher de todos os santos.


Aquela que primeiro me permitiu introduzir o texto em prosa. Minto, não foste a pioneira, mas a que mais me deste prazer no referido gênero. Abriu as páginas para mim e abrigou meus versos, furtando as intersecções entre eles e tornando o meu texto corrido, não me dava fôlego. Mostrou-me que era possível escrever d’outras formas sem, no entanto, abdicar da poesia. Não, não me esqueci de quem sempre me leu com olhos vorazes. É que a vida anda uma epopéia, um misto de tragédias gregas, cantigas trovadorescas e contos beckovskianos. Tentei de todo modo descansar nas crônicas do Braga, aquele velho plagiador que me antecedeu em 60 anos e publicou algumas colunas da minha vida num jornal, com mais qualidade estética do que este humilde escriba que vos fala. As coisas mais simples e valiosas ele publicou, aquelas andanças no centro da cidade olhando as coisas invisíveis, o movimento dos pombos, a singular beleza das moças que vêm e vão dentro dos ônibus que passam enquanto eu fico aqui dentro do lado de fora rememorando frutas e cores da infância. O Braga me roubou tudo isso. E nem posso reclamar, eu que tanto já surrupiei o Arnaldo, o Manoel, o Mario, o Chico, o Carlos... o Braga tem cem anos de perdão. Nada me resta senão continuar tecendo essa prosa marginal e procrastinar um tanto mais a minha liberdade.

Por vezes me encho de tudo isso, esse repetido timbre de escrita, sempre em prosa, sempre luxuriosa, sempre metalinguística. Mas é disso que pago o meu aluguel. Caso ainda não te contaram, eu ando sem teto agora, de paragem aqui e acolá, levando as letras na mochila e pagando estadia com poesia. Juro que eu queria abandonar mais este personagem, do mesmo modo que larguei mão daqueles, e ir-me aventurar em outros gêneros. É árdua essa profissão de cafetão, quem dera eu fosse poeta. E ainda que assim me chamem, com P maiúsculo, ao pé d’ouvido e em voz gemida, finjo acreditar só pra satisfazer quem lê por mais um tempo. Mas tenho consciência que nada sou além de um mal pago cafetão de palavras. E elas me cobram. Não me dão descanso, me dão tudo, menos descanso. Estão sempre à espreita, na rua, no bar, no quarto, no mar, na sala de aula, no ponto de ônibus, estão sempre ali mexendo no cabelo, fingindo não me notar, tomando sorvete ou fumando cigarros, marcando presença de modo a exigir o emprego na minha escrita. E eu que nunca usei esse bordel em benefício próprio tenho que repassar todas as oferendas às concubinas.

Bem sabes o quão egoísta eu sou, que as uso como pretexto estético para satisfazer minhas vontades, mas que no fundo escrevo para mim mesmo. E se até aqui usei a tua missiva para vangloriar-me dos próprios defeitos, é porque revogo a ti, Tâmara mulher de todos os santos, a culpa disso tudo! Se agora vivo assim como num livro, folheando páginas, traduzindo moças do italiano ao húngaro, a culpa é tua. Porque assim como você, assim como tu eu não tenho mais salvação.

Ah, você me paga!

terça-feira, 6 de setembro de 2011

À pretexto,

“A palavra oral não dá rascunho” Manoel de Barros




... não se deixe levar pelo meu verso. Não leve tão a sério a minha prosa. Não me leve a mal. Se finjo ser um bom escritor, eis mais um bom motivo. Não acredite em escritores, não os leve a sério, o que eles querem é te levar para a cama, mirar na tua pele folhas alvas e te engravidar de livros.

Marques um acaso comigo e dir-te-ei, gaguejando e tímido, porém sem desviar o olhar, todas as verdades que desejas ouvir. Te falo ao pé do ouvido, suando frio e com o coração acelerado. Mas não leia a sério nenhuma palavra da minha escrita.

Deixe que eu te toque com as mãos, mas jamais admita que uma só palavra minha penetre em teu ser, pois assim estará corrompida para sempre, e quem o disse foi Neruda, um mentiroso mais sincero do que eu. Conceda apenas o afago dessas calejadas mãos de operário semântico, de modo que permanecerá intacta em sua pureza de menina doce.

Perdoa minhas orações, cesse aqui a leitura, vá para a cama sozinha e deixe fechados os livros. Não se reduza a mero pretexto para composições estéticas, pois até mesmo o mais singelo diálogo é pervertido pela minha impudica pena. Há variações hermenêuticas que a tua ciência exata é incapaz de compreender. Te contentes com os textos lineares, quase jornalísticos. Não adentre estes meios tabernários que simulo. Disseram-me certa feita: a poesia é um crime perfeito.

Declaro agora que te restituo a coroa, a janela, o vestido e a flor no cabelo.

“A palavra escrita não é para quem a ouve, busca quem a ouça; escolhe quem a entenda, e não se subordina a quem a escolhe”. Fernando Pessoa

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Os Grãos



Não havia em ti nenhuma poesia. Não passavas de uma mulher comum entre tantas. Tudo o que te brotas foi meu olhar quem conferiu. Sob minha pena desprendi de ti os versos, a prosa doce. Fui eu quem te debruçou no parapeito da janela, colocou-te a flor nos cabelos e soprou teu vestido. Não passavas de uma mulher vulgarmente comum. Como estas coisas despojadas de amor-próprio até que o olhar do cronista lhes confere algum valor, assim eras tu. E os homens que te levam para o leito tentam em vão divisar nas nuances as assonâncias que te dei. A tua métrica foi trabalho do meu pulso, em versos decassílabos fiz abrir tuas vogais fechadas. Tu nunca foste além de tudo isso: pretexto para a minha poesia vil, platonismo deste poeta errante, amor não vivido, preterido em favor da escrita. Porque se tivéssemos consumado o que só eu idealizei, não haveria chuva, nem poema, nem giz na calçada. Tudo não passaria de realidade fria igual a esta em que se transformou a tua e a minha vida. Mas que diabos, vens tu agora e reclamas que te despojei do altar, fazendo-me largar o jornal, perder a paciência e abrir de novo as portas deste bordel, sem dinheiro pra pagar as contas. Tantas moças que me pagariam em liras e eu aqui perdendo o meu tempo, dinheiro e artesanato contigo. Tantos corpos clamando por dois quartetos e dois tercetos, formas fixas ou versos livres que sejam, e eu aqui, cigarro na boca em frente à tela do computador tecendo em prosa enquanto o meu café esfria ao alcance da mão. Deve haver alguma explicação satisfatória para este meu ofício abnegado de dedicar-te flores, trovas e fenômenos da natureza. Com sua licença, vou assistir ao movimento dos pombos na praça de eventos do mercado central. Pra que horas é o acaso?

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

ALUGA-SE





















Não pensas que é empresa fácil reordenar estas palavras. Depois de algum tempo ausente, elas se recusam a exercer as funções sintáticas que outrora designei. Não me basta a inspiração, é necessário muito trabalho, trabalho árduo, as mãos calejadas pela pena sob sol a pino, trabalho estético, como esses operários mal remunerados do campo das letras entre os quais me disfarcei. Nenhuma delas agora me obedece aqui neste bordel. Se acaso deito alguma no papel, antes de cravar meu verbo e dar forma ao enunciado, me acusam de assédio semântico. Outras alegam em suas defesas que estão dentro do período. Outras ainda deram agora para compor orações, como se isso lhes aliviasse os pecados de outrora. Dissolutas! Libertinas! Não se sujeitam de modo algum às minhas sentenças. Algumas, ouvi dizer, nem estão mais aqui, segundo informações de terceiros, arranjaram algum velho decrépito que lhes sustentasse o ócio. Vejam só, como se não bastasse ainda perco clientes. Não possuo mais dicionário para exercer a função, de modo que não estou apto a agir dentro das normas. É de se levar em conta a possibilidade de me denunciarem. Não calculei ainda o prejuízo, muito provavelmente este antro foi condenado à falência. Não me resta mais nada agora senão juntar minhas coisas e ir fazer crônicas. Aqui jaz este velho boêmio que tão fielmente vos serviu, vai saindo taciturno, cabisbaixo, escada abaixo. Vai levando o seu sotaque e este olhar crônico sob todas as coisas despojadas de amor próprio, eis tudo o que tem agora. Mas repara, antes de ganhar a rua ainda revela: vai levando consigo um singular riso de poeta no canto da boca.

terça-feira, 31 de maio de 2011

segunda-feira, 7 de março de 2011

Literariam(a)nte

Lembro...

Lembro da primeira vez que veio da tua boca pra minha a palavra solta, libidinosa, dissoluta. Me disse assim: "Poeta", desse jeito igual, com "P" maiúsculo. Sabia eu não ser, fingir, literariamante... mas não te revelei ao pé-do-ouvido para que satisfizesse meus gozos por mais um tempo. E se ao crepúsculo possuo em carne, osso e saliva a mulher devida, não tarda que as de letras vêm me visitar. Alternando vogais e consoantes eu rimo qual quiser, faço orgias semânticas, rituais linguísticos que desgarram-nas do estado de dicionário em que se encontram quando despidas do tato de minhas calejadas mãos. Revogo-me as adjetivações que me atribuem, pois toda arte criadora não transpassa um auto-plágio demasiado malfadado e quando muito, vã filosofia da linguagem, como tende ser toda e qualquer filosofia...

À ti leitor despudorado, que adentra neste bordel devasso, repara ali naquele canto da taberna, há um homem de barba por fazer e de um mal humorado formalismo russo impregnado de cheiro de cigarro e vodca barata, há um operário do campo semântico mal-assalariado pela hermenêutica burguesa e disforme, em meio às palavras que se dizem putas e o consolam com afagos sobre a mesa, dançam embebidas e ele arranca delas as frases, os versos até ficarem nuas, as orações. Repara no seu olhar, há um velho que lê poemas com um gato enrolado aos pés, há um moço que precisa sentir que o mar vem oscular a areia de vez em quando para se manter vivo, mas, sobretudo há um menino que só deseja chegar em casa e ter a face lambida por seu cachorro, maior prova de amor que existe na face da terra.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Crime & Castigo.

"Histórias, assim como pessoas, borboletas, ovos de aves canoras, corações humanos e sonhos, também são coisas frágeis, feitas de nada mais forte ou duradouro do que 26 letras e um punhado de sinais de pontuação." (Neil Gaiman)

E eu, tão mal acostumado a simular histórias alternando estes algoritmos* e sinais de pontuação ao meu bel prazer, agora me desarmo outra vez, em carne nua na tua frente e não sei fingir nem ao menos poesia. E eu, outrora acostumado a simular orgasmos no papel, fazer das palavras meretrizes e receber afagos de hermenêutica, críticas risíveis e olhares suspeitos rua afora, me encontro deste modo: sem saber o que dizer nem rimar. E eu, que embasado em teoria divagava sobre a valoração acerca da estética da conjunção carnal e colocava um palavrão na boca de moças rezadeiras, acreditando ser isso o suprassumo da poesia, agora me sinto um pecador sem noção de pecado. Juro que queria dedicar-te um poema desses de umedecer o tecido durante a leitura, mas confesso que não sei deitar teu corpo sobre o papel e discorrer nas linhas, entrelinhas da tua prosa fria. Soa como algo proibido, sempre deste modo soa e não sua. Nem minha. O mais que consigo consiste em transfigurar-te em metáforas tão herméticas que se tornam reveladoras da minha natureza vil. Não mais que isso! Mas prometo sem cumprir: ainda te componho uma trova, tão despudorizada que abrirá para mim tua página ainda cálida.

*Um algoritmo é um conjunto finito de regras que fornece uma sequência de operações para resolver um problema específico.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Saudade II

O tempo passa...
as coisas?
Estas mudam, cegam, surdam...
a gente passa...
mas nem tudo...
eu mudo.


Porque há palavras que não permitem sinônimos.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Devoção

____
O suprassumo da poesia é colocar o palavrão na boca das moças rezadeiras.



"Quero teu corpo
Espalhado no meu
Devassa
Sem brinco, argola,
Anel ou camafeu
Nada no leito de Orfeu
Só na vitrola"

____________
Música: Maurício Tapajós/ Paulo César Pinheiro

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Pra não dizer que não falei das putas...

..."e me tranquei no camarim ,tomei um calmante ,o excitante e um bocado de gim"...


Ah mar,
foi o Amor que o inventou?

Delineia as costas nuas
_________________[da América menina...
sob suas veias abertas escrevo...

Amor é coisa difícil de ver-ba-li-zar
É como tentar uns versos
Depois de muito “prosear”

Sinceramente, eu só sei mentir
_______________[Eis minha condição de poeta,
________________marceneiro da palavra,
o ser que simula o verbo sentir.

Acaso minto casualmente?

Em nome da nossa predileção pelo mar,
Te peço: não peças
para que eu seja
____________[o poeta do amor,
das coisas afáveis.

Sou o poeta das putas
- porque é preciso haver poesia
entre os abrires e fechares de pernas,
porque é preciso haver metalinguagem
para que as coisas não se tornem meras
__________________[vul ga ri da des ...
.
.
.
.
Desenho cedido por Leafar Douglas.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Corvadia

O filósofo: "O verdadeiro sentido da admiração é que o mundo é mais profundo, mais amplo e mais misterioso do que pode parecer ao conhecimento comum”.
O poeta: "Sei lá, não sei...Sei lá, não sei...Não sei se toda a beleza...de que lhes falo...sai tão-somente do meu coração..."
O filósofo:..“Mistério significa que uma realidade é inconcebível, porque sua luz é inesgotável e inexaurível. É o que experimenta quem se admira”...
O poeta:"Sei lá, não sei...Sei lá, não sei não."


Foi quando o filósofo se propôs à sair com ar soberbo, que ouviu o riso sarcástico do poeta.

domingo, 7 de novembro de 2010

PÔR na graFIA.


A palavra que escrevo
é o meu próprio algoz
me entrega nas entrelinhas
entrelínguas ao leitor
me sacia os devaneios
e então cobra o seu valor
Pede o dobro só pra ouvir
o que te “falo
e tu não presta
tem
são
Não! Tu nunca prestou!
Assim como a palavra
que se disputa
Santa porfia
simula orgasmos no papel
pra pôr na grafia
nele é vital ser infiel
Pra te ver
declamar
Toda semana
Vestes
O silêncio da palavra
E se diz
Puta
Escrita
Santa
Mulher.

sábado, 23 de outubro de 2010

Cortejo

Ao teu mundo.
..."tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento"...

À despeito da literaturidade do que é lido sempre é suscitado um tanto de ceticismo... culpa da maldita teoria literária que se propõe analisar toda construção estética como trabalho da linguagem subjugando a mimesis daí proveniente... culpa daqueles malditos eruditos gregos da antiguidade, culpa desses pretensos críticos literários pós-modernos e, neste caso específico, culpa daqueles formalistas russos que enchiam a cara de vodca e lançavam-se a despojar os escritos alheios. Acho que é disso mesmo que eu precisava: um pedido de casamento inesperado, uma fotografia em preto e branco e chegar em casa embriagado em alta madrugada...

Baby, não se precipite, aprendi que literatura é fingimento, cá estou eu a fingir que finjo... "simulacro de efeito estético", despojo dos recursos de semiótica e blá, blá, blá... o teu nome vira pretexto para as minhas entrelinhas, folhas de outono caem nos "espaços do contratempo" e rima a concupiscência outra quimera calcinada.

Dado que nem falei nos deleites que a hermenêutica me permite gozar, neste meu ópio de fingir faço de conta que escreves só pra mim e me sinto único leitor em teu mundo. Tudo bem, eu sei que não é bem assim, sei que tens leitores mais assíduos do que eu, daqueles que vem, não comentam nada sequer, não seguem, mas sempre voltam, espreitos como quem está a fazer algo proibido e se encontram nas tuas linhas, fazem interpretações não demasiado literárias pois sabem que vivem nelas muito mais do que eu. É fogo fátuo que prefiro não acreditar nisso, realidade demais sufoca a poesia, então discorro solitário nos teus versos, passo as mãos nas tuas rimas e vejo elas eriçarem-se pra sentir o que trago em minhas páginas ainda brancas, prefacio a tua prosa bem devagarzinho e depreendo com saliva ao final de cada linha em um movimento concêntrico que irá nos levar à catarsis! Ao final fumamos juntos o cigarro da saudade e declamamos Pessoa, Quintana e Bandeira um pro outro, te vejo dar uma gargalhada de que tudo isso não aconteceu e acho teu sorriso ainda mais bonito. Tu pára o carro na mesma esquina em que me encontrou, nos despedimos com um beijo na testa, teu destino é o litoral enquanto eu espero outro farol ao longe que reduza a marcha, e, ainda parando, uma voz que me chama na janela e pergunta o preço.



♫♪
"Por entre flores e estrelas
Você usa uma delas como brinco

Pendurada na orelha
Astronauta da saudade
Com a boca toda vermelha
Lágrimas negras caem, saem, dóem
São como pedras de moinhos
Que moem, roem, moem
E você baby vai, vem, vai
E você baby vem, vai, vem
Belezas são coisas acesas por dentro
Tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento
Lágrimas negras caem, saem, doem"
♫♪


Foto: Nielle
Texto: Julio Beckovski
Música: Jorge Mautner

sábado, 4 de setembro de 2010

Conto

"Tanto andam agora preocupados em definir o conto que não sei se o que eu vou contar é conto ou não, sei que é verdade" (Mário de Andrade)


Embora prefacie os dias sempre ao leste, a aurora tem como pano de fundo personagens diversos. Reverberam os primazes raios de sol naquela estrada ao norte enquanto abrem-se olhos fatigados. A cachaça que afoga as mágoas e afaga as chagas, desconsiderando-se a perspectiva diacrônica, conserva mais inocência que os quinze segundos de transcendência procurados num hai cai.
Não escrevia há meses, valia-se das velhas prosas poéticas e versos descabidos de outrora. Comumente se flagravam os versos alheios que a mão sorrateira levava ao bolso. Vivia das aspas roubadas. Mas as palavras, por si só, tinham o abandonado.
Era um fato do qual não podia queixar-se, denunciado pelo próprio sufixo. Oh, pobre homem! Como se nota não poderia acreditar em inspiração, nem mesmo as que lhe tomam de assalto a janela... Quintana, Pessoa, Drummond, Bandeira ou de Barros, todos vis, torpes escarros, já de nada mais lhe serviam. A chuva de Maiakovski não mais lhe afagava a face. Necessitava qualquer pretexto para trajar aquela forma estética. Tampouco queria ser lido, fingia que não queria.
Ah, as palavras, doces putas de outrora! Cobram em demasia seus honorários. Há que ser hábil, combinar o preço antes de consumar o fato e retardar o gozo até a última linha, então clímax, orgasmo lírico, ápice, rima, ponto final. Fingimento outra vez, simulacro. Se bem soubessem os poetas acabariam seus textos com vírgulas.
Se bem soubessem as vírgulas não se prosternariam aos poetas. Há que ser hábil e cobrar antes de consumar o fato, só então precipitar o gozo. Fingimento outra vez. Corro o risco de parecer prosaico, mas os melhores poemas são aqueles que se escreve com a pena em riste.
Sem reminiscências, a despeito deste bordel semântico, o que te falo é conto. Destarte há que se justificar o proscênio.
Pois bem, deixe que eu vos apresente nosso desditoso herói, réu confesso. Chama-se J. Beckovski e matou a poesia. Vate, antes por diletantismo que por formação cultural, integrou um esquema de corrupção de palavras, aquilo que os linguístas chamariam uma desconformidade entre significantes e significados. Alega em legítima defesa que no início de tudo era o verbo, vocábulos em santa porfia!
Eis o que a escrita faz com as pessoas. Em uma espécie de esquizofrenia voluntária, um artifício urdido para fugir da loucura real, criou heterônimos que se fizeram existir para além dele, rimando mesmo na ausência de vogais e transcendendo a "literaturidade" do suposto criador. Tão cético era Beckovski que duvidou da própria existência, em um plano mimético onde criador e criatura se confundem e tudo finge que acaba em monólogos à beira mar. De fato o próprio Beckovski se fez pseudônimo de alguém por ele lido e desnudado em variações hermenêuticas que lhes dissimulam ainda hoje. Há também aqueles heterônimos lidos por ninguém, cuja periculosidade se revela em um sentido extra moral. Dizem as más línguas que tenham escrito para a posteridade.
O horizonte contemporâneo é uma arte abstrata esculpido em concreto, o que obriga o relógio sem ponteiros a prostrar-se mais cedo para desposar o oriente ainda letárgico. A Dama de Branco se ergue sacrílega a puxar seu manto negro, grávida da eternidade. Tem os pelos pubianos eriçados, pois bebeu um chá conradiano em oferenda a Baco. É o crepúsculo e as possibilidades de interpretação que ele anuncia. Submeter a obra ao crivo da mais severa crítica denota respeito e muitas vezes simular com denodo a verdade se faz mais necessário que qualquer benevolência pusilânime.
_"Nada mais sou que um método catártico usado em vossas vidas por aquilo em que não creio. Procrastinar-me-ei na própria cor vadia, demasiado humano!" así habló Beckovski.

"se não tivermos uma idéia viva do que é o conto, teremos perdido tempo, porque um conto, em última análise, se move nesse plano do homem onde a vida e a expressão escrita dessa vida travam uma batalha fraternal, se me for permitido o termo; e o resultado dessa batalha é o próprio conto, uma síntese viva ao mesmo tempo que uma vida sintetizada, algo assim como um tremor de água dentro de um cristal, uma fugacidade numa permanência." (Julio Cortázar)

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Desertor


"Se não fosse por esta terra
e por nela conter minha amada
não me entregaria a luxúria e armada
de deixar que me pusessem em guerra
Certa vez vi
em algum lugar que os franceses preferem amor
e muitos soldadados de outros países zombavam assim!
Hoje, por qualquer motivo,
com qualquer arma, por ser cativo digo!
Defenderia a França mesmo não sendo esta minha pátria,
para que sobre sempre amantes
para que eles ensinem mais sobre as dores das batalhas
e sobre as dores do amor! "

(Leafar Douglas)

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

DE LEIToR! (Grupal)

"Sou um menino que vê o amor, pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico." - Nelson Rodrigues
(...no fim das contas a gente faz de conta ser um auto-plágio demasiado malfadado... a ausência é uma auto-crítica/respeito por si próprio... i Maldita sea la Teoría ! )

terça-feira, 27 de julho de 2010

O des(A)tino de Ana

(à Analuz)

"Ana está sentada à janela da vida
vendo o vento do tempo soprar... "
Ana está sentada à janela da vida
vendo o tempo soprar seus inVentos...
Poetas passam
e traçam
traços,
fugidios desembaraços;
Versos são lidos
lambidos
li(bi)dos...
interpretados ou sentidos;
E a poesia fica
(signi)fica
(digni)fica...
entre versos nos rubrica;
Se Ana visse o mundo
sob o prisma deste poeta vil
veria toda semana
iriar sob um fundo anil
a própria
LUZ de ANA!

sábado, 24 de julho de 2010

PÔR na graFIA (Grupal)

"É hora de se embriagar! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas! De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha." assim disse Baudelaire.
E como bem fingem acreditar os poucos leitores que tenho, minha poesia é um bordel semântico. Enfim chegaste meu dia de servir o cálice neste Grupal de Bacantes. Eis ali meus singelos ditirambos à Dionísio. Entrem, comam, bebam, enfim embriaguem-se. 'SintaXe' à vontade!

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Eu sou a Loucura


"Eu sou a Loucura mãe da Revolução, quando nasci não interessa, pois não é para isso que vim. Conheço e condeno todas as forças que lutam contra mim. Sou o elo que liga os homens aos outros deuses. Sou a incentivadora de todos os ideais. Sou o retrato da coragem! Ao contrário da Razão-Equilibrio que é uma senhora derrubada e medrosa. Sou poderosa e estou em tudo e em todos. Sei fascinar sem precisar usar esta casca que me reveste. Sou pura, boa e completa. Sou dona da liberdade, sou sua amante... Não sou a favor do termo esquizofrenia usado para taxar alguns dos meus queridos filhos pois não vejo democracia no uso de tal!...Quando me sinto ofendida, uso minha máquina de ilusões para criar a guerra e também o pesadelo. Acusam-me de ser egocêntrica, e sou! O mundo deve caber na minha mão e não o contrário!... Essa é uma das lições sagradas que passo aos meus queridos filhos e neófitos. Não sou atriz, não sou a favor da mentira. Minha vida extrema é uma realidade!... Sou a ascensão do juízo e não sua falta!... Sou a inspiração do poeta e do artista. Sou bandida e mocinha, sou o quê quero ser!... Sou a voz da surrealidade pintada por Dalí. Sou a única que possui o direito de se contradizer. Sou a modelo que veste o manto de apresentação de Artur Bispo do Rosário... Sou a produtora de todos os filmes rodados e não rodados. Sou aquela que atormenta Hamlet. Sou o espírito livre adorado por Nietzsche, por tanto, não pensem e nem tentem me prender! São tolos aqueles que pensam que podem me controlar, drogam a matéria que me guarda com Diasepam e Gardenal, seus efeitos não duram muito, e logo acordo o corpo que agora está numa ressaca dos diabos! Nós, prontos para dar a cara à tapa outra vez e zombar daqueles que nos querem tanto mal. Eu fui à companheira fiel do Raul, Hendrix, Curt e Janis. Eu fui e ainda sou uma popstar!... Sou uma deusa e o meu lar é todo o universo... Ganhei liberdade para falar graças ao meu filho Erasmo, que dedicou muito da sua energia para lubrificar minhas cordas vocais, afim de quê o meu canto narcisista prossiga. A minha vitalidade; meus sentimentos honestos; meus instintos; a minha simplicidade – (ao meu modo e conceito), são expressões que deveriam ser adoradas como símbolos sagrados!... Adoram a Cristo, um dos meus neófitos mais fiéis, porque não me adoram também? Devem acima de tudo e de todos me adorarem!... Nobre filho Conrado, invista mais na projeção de sua voz pois a nossa verdade necessita da sua energia para ganhar, os horizontes da consciência deste povo que sempre busca nos ignorar, mesmo sabendo que dentro deles corre o nosso DNA."


*Nota do interloucutor: Poucas vezes abro aspas aqui, mas seria pouca loucura deixar de compartilhar com vocês este texto insano e brilhante do meu amigo, poeta, artista plástico e maluco Carlos Conrado em seu livro "O Aeronauta Entre a Razão e a Loucura." Para conhecer mais do trabalho deste artista clique no nome.