sexta-feira, 4 de maio de 2012
Violenta
quinta-feira, 3 de maio de 2012
Fim
Nota de esclarecimento: Declaro agora este Bordel fechado! Vou-me embora com meu passo gauche e distante, noite adentro, vida afora. Talvez fazer crônicas para ninguém ler, se ainda me restar o olhar focado sob as coisas inúteis. Ou mesmo tentar a impossibilidade de um verso. Talvez nem isso.
quarta-feira, 2 de maio de 2012
Lenha
2º Ato
sexta-feira, 27 de abril de 2012
Crônica suja de tinta
segunda-feira, 23 de abril de 2012
Soneto
domingo, 22 de abril de 2012
Música
Guerra pela posse, talvez essa expressão possa descrever o nosso encontro. Teu corpo, tão raro instrumento. E eu que nunca tive muita aptidão para as artes do ouvido, tenho de me esforçar para tocá-la. Nas tuas cordas eu afino os meus dedos. E quando me canso de apalpá-la com as mãos, te faço flauta, saxofone, gaita de boca. E os teus gemidos soam sincronizados, perfeita melodia.
Desde que te descobri pendurada na parede, eu me viciei nas tuas notas. Procurei ao redor partituras, mas nada encontrei. Então, tive de improvisar. E o improviso se tornou a nossa canção mais pedida. Ouço tocá-la nas rádios, am’s e fm’s. Escuto-a nos bailes, nas serestas. Caímos na boca do povo, mesmo não sendo populares. Depois nos levaram para as cortes e palácios do medievo. Versaram-nos com alaúde, em trovas e serenatas. Em seguida fizeram-nos clássicos, deitamo-nos nos pianos do século XIX, voluptuosa erudição. Depois disso, modernos, nossos acordes em solos de guitarras e os berros sem pudor soavam nos amplificadores. Gravaram-nos em vinis. Por fim, contemporâneos outra vez. Remasterizaram-nos. Andaram criando versões da gente por aí. Nossa estrada agora é um sopro, ao sabor do vento, de orelha em orelha pelas ruas vamos assoviando melodias aos transeuntes distraídos.
“O homem por cima da mulher, ambos tão delicados, interpretando um dueto de tímidos gemidos. Ela como as cordas de um violino e ele percorrendo-lhe o corpo, da cabeça aos pés. Fá num chupão de orelha, Mi num beijo nas coxas, Sol numa lambida nos peitos, Lá numa mordida de lábios, Si em fungados na axila...
Ao entreabrir os olhos, novamente o homem perdia o comando. Porque ele não conseguia acompanhar as notas altissonantes e bárbaras da mulata”
Adultério
E não é que me serviu de alguma coisa aquele poeta lírico e ridículo ao qual tu arrancaste uma das asas?! Ponho-me a pensar nas inevitáveis comparações que surgirão quando ganhares um presente desses que se compram nas lojas com aquilo a que chamam dinheiro. Quando te derem um buquê de flores, lembrarás que outrora ganhaste um jardim inteiro roubado no orvalho da aurora, de flor em flor, de rua em rua, e entregue com suor, invasão de condomínio, beijo na boca, colo e pedido de namoro. Quando receberes alguma carta com palavras entre aspas, dessas que transcrevem as pessoas comuns desprovidas de imaginação, recordarás não uma carta, mas o pedaço de chão que lhe foi concedido com escritos no original que só ao Mar pertencia o direito de apagar. Quando fizeres sexo lembrar-se-á dos transes que te levaram aos rios oníricos e que ao retornares ao cais ainda tinha-me dentro em ti. Nem imaginas o quanto me regozijo ao pensar sobre isso.
Ao menos tenha a discrição de não mais comentares nada, não aqui. Já que a pior das traições anda cometendo justamente neste exato momento em que os teus olhos ávidos discorrem por estas linhas e forma no rosto essa expressão mista de desprezo e admiração. Colocar-te-ei na boca a minha pena quando eu quiser. Não tens como fugires desta sina.
sexta-feira, 20 de abril de 2012
Encontro
quinta-feira, 19 de abril de 2012
Ausência
terça-feira, 10 de abril de 2012
Rubiácea
segunda-feira, 9 de abril de 2012
Esconjuro
"Ela há de rolar como as pedras Que rolam na estrada Sem ter nunca um cantinho de seu Pra poder descansar", foi o que te disse o compositor. Como se não bastasse a profecia, vem o pintor e instala tua sina na parede da galeria para que todos vejam. E os amantes da arte parecem sete corvos ao teu redor. Permita que eu me apresente, sou um velho poeta decrépito, boêmio e lírico, me chamo Beckovski e matei a poesia. I like a rolling stone.
Devo dizer que preciso de uma palavra. E assim que adentrei a taberna, te avistei e me encantei pelo teu lânguido retrato. Parece promíscua o suficiente para me acompanhar pela madrugada afora. Se o quiseres, prometo sonetos e elegias nesta pele acetinada, musa de ébano. Sob a égide do nosso gauche destino, invadiremos feudos, saquearemos aldeias, tomaremos cidadelas devastadas e pilharemos navios mercantes. E então, mulher pincelada, aceita o peso da minha pena na melancolia e na tristeza, na moléstia e na doença, na mendicância e na pobreza?
domingo, 8 de abril de 2012
Telegrama V
Espelho
Então responda-me: porque se privar do meu gozo? Porque continuar essa enfadonha narrativa? Porque permanecer ao lado de homens sóbrios? Homens que precisariam se drogar para se sentirem criadores... Seres que não vislumbram nos teus gestos calculados o incalculável lume de poesia. Homens que não te enxergam além do que és. Seres que não te inventam.
Dispa-se das vestes, desamarre o cabelo e detenha-se frente ao espelho. Observe a si mesma, teu corpo nu, a crueza destas curvas que alinhavei em prosa e verso, cada assonância que bebi dos teus mamilos, cada um dos pêlos que aliterei no teu púbis e os enjambements que intercalavam nossos orgasmos enleados. Que me diz?
“E a sagacidade era sua
Aspiração vã e frívola
De agradar aos outros
Às suas próprias custas”
(John Wilmot in O Libertino)
quinta-feira, 5 de abril de 2012
Telegrama IV
sábado, 31 de março de 2012
Labuta
Certa vez um filósofo que não era grego e ainda menos clássico cunhou o seguinte aforismo: “Um homem tem na vida que decidir entre dois pêndulos: Ou segue o relógio; Ou escuta o coração.”Escutei o coração. Pois que toda a minha vida tem sido a maldição desta sentença. O que disse o meu coração? Poesia. Por culpa da poesia perdi a minha mulher. Por causa da poesia inventei um amor e fiz de conta que era literatura. Por conta da poesia escrevi outras palavras... Acabei por me tornar rufião de bordel. E agora vivo assim como num conto.
Resolvi então consertar meus ponteiros e arrumei outro emprego. No turno matutino já é sabido que carrego coisas, bom labrego que sou, realizo tarefas braçais das quais depende toda a estrutura social, especialmente a ociosa e improdutiva burguesia que, sem homens suados como eu, morreria de sede. Contudo consiste o emprego vespertino em fazer companhia aos fantasmas, quando bailamos de acordo com as sinfonias dos vinis, recitamos poemas uns aos outros e tecemos versos, serviços intelectuais dos quais depende toda a estrutura social, especialmente a laboriosa e produtiva burguesia, que não fosse homens inventivos como eu, morreria de enfado. O pouco que me pagam para essa erudição forçosa mal dá para o pão e a cevada. Penso que para o bem das horas que me restam devo me demitir. Porém continuo me escrevendo...
quinta-feira, 29 de março de 2012
Telegrama III
domingo, 25 de março de 2012
Os Sete Corvos
quarta-feira, 21 de março de 2012
Trova
Desbaratado é que é...
Nunca a sentei no meu colo
Nem vi pela fechadura.
Mas eu sei quanto me custa
Fez-se alva e serena
Chuva que vem de lá
Deitar rebentos no poema
Sempre sem hora
A suceder as tempestades
Cobre os acasos
Sob o véu das minhas vontades
E eu me disfarço
Dum trovador provençal
E faço mesuras
Ai que amor medieval
Não tenho alaúde
Nem tu és palaciana
O pouco que pude
Foi revê-la esta semana
Suja de tinta
Esboço de plenitude
Traço inerente
À tua vil magnitude
O meu vil comedimento
Até quando agüentarei?
Manter esse gelo digno
E fingir que nada sei
Confesso que meu desejo
É tua veste arrancar
Tocá-la com realejo
E ao povo depois mostrar
Confesso que o meu querer
É o teu ventre deflorar
Colher-te do solo estéril
Sem tua sanha despertar
Confesso-me teu vassalo
A transgredir as convenções
A desposá-la num papel
Basta de tantas confissões
Destarte continuarei
Fingindo não te escrever
Tua prez preservarei
Enquanto finges não me ler
Do ensejo me esvaio
Do teu beijo molhado
No teu golpe eu não caio
Estou perdido ou perdoado?
Sua casa de mil fechos
O Mito - Drummond
segunda-feira, 19 de março de 2012
O Libertino
Para que eu seja
O poeta do amor
Das coisas afáveis
Serei o poeta das putas
Porque é preciso haver poesia
Entre os abrires e fechares de pernas
Porque é preciso haver metalinguagem
Para que as coisas não se tornem meras
Vul ga ri da des
Traz nos ombros lembranças de velhos amores e outros escritos. Traz nos olhos confissões de que viveu sem se preservar. Traz na pele inscrições de abandono, descuido, excessos. E no riso traz delírios, traz nos beijos labirintos, nas mãos as ilegíveis linhas do tempo, nos pés tessituras de longas caminhadas. Alguém que fora um dia autor de várias personagens, que se fez delas enredo e acabou por se perder dentro dos cenários criados. Já não é possível viver outra coisa que não poesia, maldição.
Não será o poeta de uma palavra só. De modo algum abdica da carne dos seus amores literários, fazem parte do vasto vocabulário que exige a profissão de rufião semântico. Quer todas ao mesmo tempo, só assim é viável escrever um texto. A palavra solta, cultuada em única forma, não fomenta a literatura. Só é possível ser lido se houver poligamia textual. Mãos que o virgulam, pernas, parágrafos, coxas, seios de exclamação, gônadas de interrogação... E os termos vão se relacionando adulteramente até constituir orações com sentidos dúbios e diversificados. Amplo é o campo semântico de quem propõe amancebar-se.
Não esperará pelo acaso, ainda que casualmente lhe ocasione alguns casos. O acaso é tempo demais pra esperar. Quer a vida agora. Quer o sumo destes pomos, o sulco desta terra fértil, o vil odor destas secreções impregnando os tules, hastes de tulipas distribuídas nos cinzeiros do bordel e o suprimento etílico nas tabernas esfumaçadas.
Largou mão de ser escritor e agora vive como poeta, de flor em flor, vagando sem rumo, com rimas. Porque até mesmo um canalha precisa de afeto. Como aqueles homens do povo que adentram os lupanares em busca de afago para suas vidas sem sentido, assim também o é.
“Não há melhor túmulo para a dor do que uma taça cheia de vinho ou uns olhos negros cheios de languidez” Álvares de Azevedo em MACÁRIO.
domingo, 18 de março de 2012
Ah mar
Porque eu
E nos meus pulmões sopram velas,
E dos meus braços lançam redes...
Há tanta coisa ainda pra escrever...
Há mar
*Por sugestão de Nana Rodrigues, que ao ler minhas prosas, o faz em versos, pois em versos é que se dispõe a sua alma.
sexta-feira, 16 de março de 2012
Há mar
Tua estante
Onde as nossas palavras deliram"
E um pedido arrebatado
Concedeu-me num sorriso
Ser o maior dos teus autores
Entre Pablo, Paulo e Poe
Põe-me ali na tua estante
E eu aprendo com Neruda,
Leminski e outros semelhantes
Bruxarias e magias
Fizeram-me poeta, mago
Na ciência oculta do verso
Sou agora Iniciado
Alquimista das palavras
Te alitero com candura
Gozo em ti mil assonâncias
Com a minha pena impura
E tu cedes ao meu afago
Meu ritual de iniciação
É o teu vestido azul molhado
Eis que sou eterno amante
Meu coração em oferenda
Pulsando ali na tua estante
segunda-feira, 12 de março de 2012
Vingança
que apague ou que desmarque
da tua pele o meu beijo
fedendo a conhaque."
_Aldir Blanc
És tu a palavra precária que fez do poeta um homem, do enredo um fato, do teórico um lírico. És tu a mulher rabiscada que desfaz a poesia, transforma tudo em vida, valida minhas mentiras. E de nada adianta eu beber em Drummond, andar pelas calçadas, errar pelas ruas e deter-me nas gares com o Quintana a soprar-me outra palavra nos ouvidos, nem me serve adentrar as tabernas na companhia de Sklovski, Jakobson, Tynyanov e Tomashevski. Nenhum deles crê no que invento. Recuso-me a beber, acendo o último charuto e vou saindo taciturno. Tua maldita subjetividade fez do meu pseudônimo mera sombra do meu ser. É-me difícil ser triste, ou mesmo contido.
Mas me vingo. Rio-me de todos os outros homens que te tocam. Deles tenho pena. Parecem analfabetos analisando um tratado filosófico. É que minha dicção é árdua. Já no primeiro cortejo comecei a transcrever-te para um idioma que inventei. Em nome da nossa predileção pelo mar, coloquei a legenda em uma garrafa e lancei às águas. Literariamante fui lapidando um a um os caracteres de modo que se tornassem símbolos. Tratou-se de um trabalho que me consumiu em meses. Por fim decretei feriado e te concedi o meu verbo em noite enluarada, em chuvosa aurora. Ao te penetrar na alma o fiz como jamais souberam. Engravidei-te de poemas. Desde então carrega em teu ventre o sêmen do gosto pelas artes verbais.
E do que a gente viveu eu escreveria mil sonetos, ah se não me faltasse a ciência do verso...









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