quinta-feira, 7 de julho de 2016

Angiosperma

At the window (Fabián Pérez)

Rubiácea esfumaçada da manhã
De orvalho ínfero, sépalas veladas
A cada verso uma pétala arrancada
Desnudo cálice, vil intento o meu afã

Miro-te flor, no cafeeiro, afeita ao solo
Sob céu vasto, um vento urde o teu medrar
Quimeras tórridas no aroma soube dar
Amargo gosto aviva a língua no teu colo

Quisera eu de ti a hora da colheita
Rude campônio, azo ao tempo intento dar
para colher-te à hora tenra em que te deitas

Quando maduras teu eflúvio invade o ar
Vapores mádidos – de que só há suspeitas –
vestem tuas folhas. Torno à leira laborar

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Apelo


Vasta exploração de linguagem, este mundo
E o modo como a luz incidia sobre a tarde
Era o meu motivo vão e frívolo, sem alarde
De propor-lhe um parlatório vagabundo

Vens, dama vespertina, olhar profundo
Que na malha urbana estou de varde
Tua airosa companhia que me guarde
Das fingidas juras do outro mundo

Quero o aqui e agora, esta cidade
Que do chão emanam formas cavas
E sombras conclamam poesia

Vês que já dispenso a sanidade
Vens olhar a esmo as formas raras
Eis nas cousas vãs toda a magia

sábado, 2 de julho de 2016

Porfia

Man at the bar IX (Fabián Pérez)

Lúbrico botão de elãs quiméricos
Rompe a tarde ao meio entre as pernas
Empilham-se os vates nas tabernas
No plangor de tê-la, cadavéricos

Sobrelevam obras ao teu charco
Adentrando a noite, moribundos
Seres morredoiros, vagabundos
Servos viciados no teu narco

Eu entre os demais, tíbio e sombrio
Tramo a distinção por culto à forma
Mas de pouco vale o anoso ardil

Um velho cronista escreve à jorna
De modo vulgar, em prosa vil
Hei de fenecer parelho à chorna­