terça-feira, 28 de junho de 2016

Rúbida

Study for Teressa with Mirror and Lipstick (Fabián Pérez)

Lasciva, a boca rubra me inquietava
Um pórtico letal ante a procela
Incauto, me lançava adentro dela
Um ímpeto vesano em mim pairava

Tentava em vão cravar outras nuances
Para embuçar a mélea servidão
Escravo dos seus ais em lassidão
Escrevo ao seu meão, não tenho chances

Palavra que me traz palavras outras
As deito, uma a uma, em libação
Meus dedos vão contando outras histórias

O mel escorre entre as suas coxas
Já fiz da pena o membro e o coração
entregue, não tem mais escapatória

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Ornata

Mind, Body & Soul. Gicle'e on Canvas Remarque. Por K.A. Williams

Castanhos são teus olhos, teu pudor
Oblíquos, testemunham veleidades
Meu pulso, sem rubor, mata a saudade
E a despe, escrita e crua, sem temor

Fartos são teus cabelos, vil meneio
Tentando esconder tua rúbea boca
Que geme, morde, grita feito louca
Aos golpes que desfiro no teu meio

Cruel é tua moldura, um quadro alheio
Adorno pendurado na parede
Memória do futuro que não veio

Feraz é minha dor, ó povo, vede
Sou bardo, cismo à lua e devaneio
Libar seus pigmentos, tenho sede

hμίμησις

"Não é ofício de poeta narrar o que realmente acontece; é, sim, o de representar o que poderia acontecer, quer dizer: o que é possível, verossímil e necessariamente." (ARISTÓTELES. Poética. 1951. p. 36).
[Autor desconhecido]

Fogo fátuo, no calor das coxas negras
Teu deleite, minha perpétua perdição
Ao Poeta, sua Palavra é condição
inelutável, confinado às suas regras

Se debate, forja cores e outras formas
Pobre ente, faz da vida imitação
Conta amores, lealdade e traição
Canta o povo, seus pecados, suas normas

Cobre a vida de um olhar airoso e vil
Que robora o quão mendaz é seu ofício
Colhe tento na verdade mais sutil

Invisível, sua obra é um desperdício
Do seu tempo e do tempo a quem mentiu
Só se salvam, ambos torpes, pelo vício

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Antífona

Ilustração: Milo Manara

Ó formas atras, negras, formas turvas
Róscido bom humor das tuas letras
Ó formas densas, sólidas e tetras
Fazem leais vassalos de suas curvas

Seu alumbramento arvora aos seios
De Pâmelas, Leilas e Dandaras
Gáudios de Irene, obras raras
Bandeira e Cruz e Sousa em seus enleios

Eu que sou poeta inda semoto
Dos cultores bons destas searas
Quedo igual São Pedro e sou devoto:

“Entra, Irene” preta, fiel Lebara
Fazes o que queres, tens meus votos
Que este nosso empíreo seja odara

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Sáfica

Ilustração: Milo Manara

Maldito, só por ti me acaricio
Ao ler devasso verso que me cobre
Me deito nua e infame em tuas odes
E ouço ao pé do ouvido o teu cicio

Tua pena em riste dá-me um arrepio
Percorre o corpo inteiro a tua lira
Me entrego com verdade à tua mentira
De quatro, feito um animal no cio

Arquejo e dou-me à pena que penetra
Em minha flor lasciva e expele o fel
Preciso, nosso crime se perpetra

Tornas-te, ao teu ofício, enfim fiel
Provou mel da palavra e foi poeta
Ordeno que me tires do papel

Por Teresa.

terça-feira, 14 de junho de 2016

Récita

Ilustração:Milo Manara

Palavra que se disputa
Empunha na boca o meu verso
Lançando no vento, dispersos
Os uivos de nossa labuta

Eu, quedo, tergiverso
Sou mácula em sua voluta
A tenho salaz, dissoluta
Ao que ela me tem perverso

Metia o meu verso, morteiro
Ao que a garra dela escalavra
Pra ver quem mentia primeiro

Gozando, assim como a palavra
Protelo pra ouvir seu griteiro
Mas ela não cessa e deslavra

sábado, 11 de junho de 2016

Castigo

Ilustração: Milo Manara

Cá estou na mesma aresta, inda letargo
Mirando o ir e vir da expressa urbe
Imota, a mão resiste ao que a perturbe
Ofício desditoso e um tanto amargo

Deitar palavra nua em meu soneto
Com rimas eriçar-lhe a vil lanugem
Na boca restam felpas e amarugem
É o custo pra deixar nela um sineto

Me cobra em demasia suas vontades
E faz de mim seu servo dissoluto
Errante pelas ruas da cidade

Lhe cubro com meu cântico poluto
Sobre ela já dispenso a sanidade
Sueto já não gozo um só minuto