quarta-feira, 25 de maio de 2016

Crime

Ilustração: Milo Manara

Gozaste os meus escritos, ó devassa
Puseste o seio à mostra, a carne à seiva
Foste fecunda gleba, opima leiva
Mas teu soez lobrego já não grassa

Abraso o teu instinto, ó bruta fera
Com meu pulso voraz como tua vulva
Após premido o vinco, a língua fulva
Latejo ao vil rebento ela prouvera

Atiras-te ao abismo, ó imprudente
Olvidas que é um delito a poesia
E o réu, mesmo confesso, ainda mente

Arguto, quis forjar uma atresia
Mas não posso safar-me impunemente
O solfejo dos teus ais me denuncia

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Cárcere

Ilustração: Milo Manara

Perdoas teu algoz de débil punho
Palavra que se despe ao meu versejo
Coberta de quintais, à tarde vejo
Lhe cubro feito a noite sem rascunho

As roupas no varal segredam ânsias
Só sabem lhes ouvir sombrios poetas
Ao teu salaz forame apontam setas
Sucumbem todos de letal vacância

Lançada ao meu jirau, foi posta a salvo
Velei teu sono a cálamo e tinteiro
Abriu-me as alvas coxas, expôs-me o alvo

Quedei de pena em riste, caborteiro
Compus profano hino ao rabialvo
Pra nunca mais deixares meu puteiro

Fissura

Fotografia: Lia Leão

Fitei nas níveas folhas um sinal
A sina de que és igual perdida
Ateias também chamas carcomidas
Me chamas à tua teia sepulcral

Aflora d’alva pele uma cissura
E rogas nua escrita num bordel
O ato se consuma no papel
Dilato em tua ancha curvatura

Rendido ao teu meão, mísero vate
Só pôde versejar à tua greta
Envolto na armadilha se debate

Devia ter cautela à tua falseta
Mas só sei confissões, não sou de esbate
Senhora, o meu parnaso é tua boceta

sábado, 21 de maio de 2016

Sina

Fotografia: Helmut Newton

Ateia, sem piedade, a tua chama
Ao meu enfermo carpo já confesso
Segreda estas metáforas, te peço
As cubra com lençóis da tua cama

Que ao teu olhar meu pulso se incinera
E risca de bom grado este luzeiro
Dos fachos, mais custoso é o primeiro
O lume que o segue prolifera

Mas hás de me remir, tu és ledora
E levas junto ao pomo uma ode
Aos pulcros lábios de ave canora

Porém, é de outros voos mais incodes
Que falo do teu estro, ó predadora
Sabeis por ser poeta, só se fode!

Noturna

Palavra que atormenta meu bordejo
Tardia e contemplada de distâncias
Senhora dos meus ais, das minhas ânsias
Teu colo é o sonho báquico do ansejo

À tarde, um lábio infame inda cerrado
Que orvalha sob o verso que o tateia
Se abrindo engole o pulha que vagueia
E faz do céu da boca um constelado


O pulha, ali cismando, se entorpece
Da chona que vedou sem pena o dia
Cobrindo de caligem sua prece

E antes que lhe cubra em cinesia
Um só facho conspícuo inda esmorece
Cortinas de um teatro, eis a poesia