sábado, 23 de abril de 2016

Taberna

Ao Bar do Dedé.

Tugúrio de vadios e operários
Covil de ilusões, as mais perdidas
No hausto amargo em que se abranda a vida
No sorvo álgido em meio aos brindes vários

És tu o findo lar dos perdulários
Igual desvão dos que mal têm comida
Ateiam, todos, chamas carcomidas
Que têm a embriaguez por corolário

Paragem dos feitios os mais diversos
Sem pompa, sem frescura, nem vestíbulo
Se bebe e pensa o mundo da calçada

E o teu leal freguês que tece uns versos
Não há de pleitear outro latíbulo
Ao termo da existência bem gozada

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Voejo

Under The Light (Fabián Pérez)

Palavra que arrefece sob a campa
Perdoas teu algoz de enfermo carpo
Não fora por vileza ou siso parco
Que tange a carne e, após fruir, descampa

Concerne ao seu ofício desditoso
O vão e inane adorno de tuas formas
E ainda que institua as próprias normas
Não foge ao seu destino, o presunçoso

Urdir na bruta frase um desatino
Não tendo mais que o punho como aporte
Ardil transmutação, feral menino

E neste elixir arrisca a sorte
Um Sísifo de olhar sempre vulpino
Confiando mais no voo que na morte

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Palinódia

"No te salves ahora. Ni nunca"
(Benedetti).
Marmol Negro (Fabián Pérez)

Pobre e infausto andejo, flana doidivanas
Fiando na prosa espúrias remissões
Confessai perjúrios, abjurações
Conquanto desposa palavras levianas

Fez da forma um leito, ardiloso vate
Estirando a carne que mentiu celeste
E semeia a gleba, ara, roça, investe
Sob o vasto páramo, molesta e esbate

Cai despida a pécora, em catorze estrados
Ao coimar da pluma proferiu vagidos
E gozou de algia os versos hachurados

Mira o bardo lasso, os ditos erigidos
Fita a sacra tríade feita de esporrados
Há de lhe indultar os sobejos impingidos

sábado, 2 de abril de 2016

Rocio


Vinde, ó nuvens, fiz-me ledo
Após longo estio de espera
O torso dela, eis minha quimera
Cai-lhe, ó nimbo, o quão mais cedo

Molhe-a, ó chuva, por meus dedos
Tal rorejo eu não pudera
Ser tormenta, assim quisera
Serenei tão logo, tredo

Que restou de minhas esperas?
Não fiz delas mais que enredo
Forjador de primaveras

Na invernia fui brasedo
E ao rocio do corpo dela
Não fui mais que bardo, quedo